sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Chorisia Speciosa - Poema para Ana



Ana a viu,
Final dum abril sem Outono,
Profusamente engalanada
Ao modo de celebração.

Refletiram-se:

A Chorisia nos olhos ternosmeigosbelos de Ana,
Ana nas flores rosáceaslavandasboninas da Speciosa.
E se pensaram:
Família?
De tão felizes
Riu Ana, farfalhou Chorisia.

Para gregos, troianos e feirantes da Vila Amália,
Ana a propalou.
Agendou visitas até...
Fez retratos, romarias, citytour.
De Ana chamam a Chorisia agora,
E Ana se assina Oaceae.
Uai! Façam uma foto competente de Ana!
Ela é tão bela!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Dezesseis Anos Depois



Impressões de viagens são abundantes na literatura de turismo, desde quando esse ainda não era uma atividade mercantil. Parecem somar pouco. Mas, criam perspectivas e curiosidades.
Voltei ao Amapá dezesseis anos depois, como a Marlene me ajudou a calcular, convidado por Ângela de Carvalho, para um reencontro que poderia indicar, quem sabe, nostalgia: rever pessoas e lugares muito queridos. Não estava, seguramente, na minha perspectiva conhecer o novo. Ora, dezesseis anos depois muita coisa teria mudado, obviamente, mas o deslumbramento estava fora de cogitação. As mudanças não costumam ser tão radicais assim, mesmo depois de um longo período.
Mas, o Amapá mudou drástica e irreversivelmente num tão pouco tempo, que buscar a explicação sociológica para uma tão colossal transformação virou uma necessidade maior do que o impacto que isso me causou.
Se escrevo estas breves ‘impressões de viagem’ o faço porque o Márcio Gonçalves me instou a isso. E elas não exaurem todo o panorama do meu espanto, e sequer abordam a perspectiva acadêmica para explicar um fenômeno da aceleração do crescimento e do desenvolvimento nos moldes que se registrou no Amapá.
Atenho-me aqui, pois, às ‘impressões de viagem’, ressalvando, para os devidos descontos, que sou acusado de ter uma visão romântica dessa terra, e crio a perspectiva para o estudo comparativo do desenvolvimento do Amapá entre os últimos vinte anos de Território e os primeiros vinte anos de Estado. Nisso já há, por certo, uma direção para explicar politicamente a causa do prodígio, embora o Rodrigues, Diretor Executivo da Fundap, levante a hipótese de que a execução do plano de urbanização da orla do Amazonas – o Lugar Bonito, Araxá, Perpétuo Socorro –, por exemplo, levada a cabo por diferentes governos, e cujo plano já existia em 1975, se deveu à pressão social. Alvissareira essa leitura, Rodrigues, porque ela contém cidadania. E é também uma indicação hipotética para a pesquisa.
Ora, minhas maiores vivências e lembranças estão ancoradas no Amapá, Território Federal, porquanto nos primeiros anos que se seguiram à criação do Estado, meus contatos com essa Unidade, foram esporádicos. Não acompanhei, assim, o dia-a-dia das transformações que se urdiam, política e socialmente, quase em silêncio, e que explodiriam como num espetáculo pirotécnico diante dos meus olhos extasiados quase duas dezenas de anos depois. Do avião, para minha estupefação e inquietação, não consegui identificar pontos que me eram muito familiares. Abismado, só vi o novo.
Dentro de Macapá mais duas cidades de igual porte que aquela dos anos 70. Um comércio pujante que se alastrou para muito além da Cândido Mendes e dos interstícios das ruas vicinais. Bairros que são verdadeiras cidades dentro da cidade. Uma cadeia de restaurantes e bares que premiam uma gastronomia digna de grandes centros. Enumerá-los exigiria mesmo uma carta própria para se oferecer aos turistas exigentes e curiosos da culinária amapaense. A arquitetura é cosmopolita agora e nela o modelo e as soluções regionais não estão agredidos. Uma educação que já registra cerca de vinte e nove cursos superiores contra nenhum naquela década.
E uma democracia que permite a governabilidade plural, com a participação de todos os segmentos político-partidários na administração estadual.
Ouvi descontentamentos, falas impacientes melhor dizendo. Que bom! Isso preserva a semente da incessante necessidade de transformação, ainda sabendo que o Amapá é um estado muito novo, e assegura um direcionamento político em conformidade com os ditames da sociedade e distante das justificações ideologicas que servem de anteparo aos projetos personalistas.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Teatro - A Matança de agosto de 1877


QUARTA-FEIRA, 26 DE DEZEMBRO DE 2007

Personagens:


João Cunhaú

Filho de João Cunhaú

Celestino Arregaça - Lugar tenente de João Cunhaú

Escravo Jovem

1º Homem

2º Homem

Alex

Francisco Magalhães

Antônio Ferreira – contestador

Germano Mendonça – acendedor da fogueira

Joaquim Porto – Pai de Canindé

Canindé

Gustavo Alexandre

Rosinha

D. Isaura – mãe de Canindé

Clarisse – namorada de Canindé

Praxedes Degolador – jagunço

Vinte e sete homens

Mulheres e crianças

Coro
________________________

I Ato


(João Cunhaú está com o filho no alpendre da Casa Grande do Engenho da Estrela, depois entra Celestino Arregaça, seu lugar tenente.)

Cena I


Celestino Arregaça

(Aproximando-se)

– Bom dia, Seu João Cunhaú. (Virando-se para o filho do Senhor de Engenho) Bom dia, Doutorzinho. (Virando-se para João Cunhaú) Vossa Mercê mandou me chamar?


João Cunhaú

– Bom dia! (indica a cadeira) Sente-se, por favor. Celestino, decidi tirar aqueles pescadores lá de Baía Formosa. Soube que os vagabundos foram a Natal falar com o Presidente da Província para reclamar das casas que a gente derrubou no dia 2 de agosto passado. Apesar de todas as ordens, aqueles vagabundos parecem que não se intimidam. Se aquelas terras ainda não são minhas, deles é que nunca serão. Quero aquela praia desocupada até a margem esquerda do rio Guajú e vou anexá-las às terras do Engenho da Estrela. Aquela enseada vai servir somente para o meu descanso e dos meus amigos. Convidei o Presidente da Província, o Doutor José Nicolau Tolentino de Carvalho, pra passar uns dias na praia. Ele vai vir no final de dezembro quando voltar da visita que vai fazer ao Imperador Pedro II em Petrópolis. Aquela é a praia mais formosa que temos nessa região e eu a quero livre e desimpedida.



Celestino Arregaça

– Se é pra expulsar mesmo, só tem um jeito, Seu João...



João Cunhaú

(interrompendo)

– É disso mesmo que eu estou falando, Celestino. Lembra daquela área aqui ao norte do Engenho? Pois é! Já está livre e toda cercada. Lá em Baía Formosa vai ser a mesma coisa: se os pescadores não querem sair por bem, vão sair como os safados de lá de Oiticica. Vou queimar tudo o que é de maloca e se eles resistirem não vai ficar um pra contar a história. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.



Celestino Arregaça

(em tom bajulatório)

– Infeliz do poder que não pode Seu João Cunhaú. Olhe! Eu trouxe os dois foragidos da justiça que chegaram anteontem pedindo proteção. Eles estão aí fora pra falar com o senhor.



João Cunhaú

– Mande-os entrar.





Cena II

Entram os dois jagunços.

Celestino Arregaça

(Levanta-se e vai até a coxia)

– Entrem aqui! (Dois homens entram, tirando os chapéus, e Celestino apresenta-os a João Cunhaú e ao filho) Este o Doutor João Cunhaú, senhor do Engenho  Estrela e este é seu filho. (Os dois homens se aproximam de João Cunhaú e beijam a mão do Senhor e depois a do filho do Senhor e permanecem de pé)



João Cunhaú

– Estão fugindo de quê?

1º Homem

– Crime de sangue.

João Cunhaú

– Mulheres?

1º Homem

– Não senhor. Ladrão de honra de mulher casada e disputa de terra.


João Cunhaú


– Ah! Bom. Trouxeram as armas?


1º e 2º Homens

– Sim, senhor!

João Cunhaú

– Então, podem ficar aqui no Engenho. Celestino Arregaça depois lhes vai dizer como é a lei aqui. Polícia não entra nas minhas terras e também respeita os que estão debaixo do meu mando. Mas, saiu fora eu entrego às autoridades da Província que sabem o que fazer. Eu não mato assassino. Respeito todos. Só quero que obedeçam as minhas ordens enquanto estiverem sobre a minha proteção. Aqui não vai faltar a vocês nem serviço, nem assistência porque aqui tudo é farto.



2º Homem

– Já conhecemos a fama do senhor e assevero que Vossa Mercê não vai se arrepender de nos dar guarida e proteção.



João Cunhaú



– Agora podem sair e aguardem as ordens que vão ser levadas por Celestino. (Os dois homens saem. Entra um escravo jovem trazendo uma bandeja com café e serve aos três)



João Cunhaú



– Celestino, hoje é terça-feira. Escolha um bando de uns trinta homens e na sexta-feira, antes do raiar do dia, vamos botar aqueles ordinários de Baía Formosa pra correr. Se resistirem pior pra eles. (Durante essa fala, um escravo jovem que está servindo o café, faz um gesto de quem está atento àquele aviso.)



Filho de João Cunhaú



– Pai, eu quero sua licença pra também integrar o bando.



João Cunhaú



– É isso o que eu espero de você, meu filho. Você já é um homem e é quem vai herdar tudo isso. Por isso, é preciso aprender como é que se administra a vida e um engenho. Depois, tem outra coisa: eu não quero filho cobarde.



Filho de João Cunhaú

(Diz risonho ou jocoso.)



– Pena que eu vá começar matando cobardes.



Celestino Arregaça

(em tom bajulatório.)



– Aquilo é um bando de cobardes mesmo. Dá até pena gastar munição com gente frouxa. E além de cobardes, miseráveis. Com qualquer conversa a gente leva eles no bico. Magote de passa fome. Até um litro de mel de furo ou uma penca de banana compra a honra deles.



João Cunhaú



– É! Mas, deve ter alguém incentivando aqueles canalhas a me desafiar. Na sexta-feira quero me livrar daqueles miseráveis metidos a libertos.



Filho de João Cunhaú



– Na sociedade brasileira só cabem mesmo senhores e escravos. Esse povo metido a livre que nem é senhor nem escravo vai atrapalhar o futuro do Brasil. Lá no Rio de Janeiro tem um bocado de políticos querendo acabar de vez até com a escravatura. E o próprio Imperador e a sua filha, a Princesa Isabel, estão de acordo com essas idéias de gente irresponsável.





João Cunhaú



– Depois que assinaram essa tal de Lei do Ventre Livre eu não duvido mais de nada. Não sei o que os cafeicultores do Sul estão esperando que não botam o imperador Pedro II e toda a família real pra correr. Estão esperando primeiramente que o Imperador faça a reforma agrária, como ele mesmo está anunciando, pra depois agir?



Filho de João Cunhaú



– Esses políticos, como Joaquim Nabuco lá de Pernambuco, ficam pregando o fim da escravatura. Só fazem isso porque não têm engenho nem lavoura de café. Se tivessem pensariam antes como iriam fazer pra pagar tanto serviço.



João Cunhaú



– Mas, por hora, deixemos isso pra lá, meu filho, que isso é conversa pra gente tratar com os políticos daqui da Província que dependem de nós. Por hora vamos acabar com esses intrusos que se instalaram aqui nas nossas terras. (Levanta-se e dirigindo-se a Celestino, continua)

Celestino, tome todas as providências para a nossa ida a Baía Formosa na sexta-feira que vai cair no dia 10 de agosto, É um mês bom pra gente riscar Baía Formosa do mapa. Vamos partir com o nascer do dia e à noite já quero dormir com a certeza de que aquilo ali já é o quintal do Engenho da Estrela. (Apagam-se as luzes. Cai o pano.)



Cena III



(À beira-mar. Um pescador acende uma fogueira e coloca sobre uma trempe uma lata que contem água, café e açucar. Lentamente, começam a chegar outros pescadores. Trazem cacetes e facas. Aproximam-se como se estivessem espreitando alguma coisa na escuridão. Um grande silêncio é guardado. Pequenos sons de vozes. Palavras quase inaudíveis são ditas entre os pescadores. )



Alex

(Sentado ao lado da fogueira que está sendo preparada. Levanta-se e caminha para o proscênio. Falando para o público como se meditasse. E enquanto ele fala vão entrando, silenciosamente, os pescadores que vão sentando-se em forma de círculo.)



– Parece que o mundo todo está calado!

Tem sossego aqui na Terra e lá no céu também.

É como se o silêncio unisse tudo de lado a lado.

Imagino o silêncio como se ele fosse uma caçoeira gigantesca

Com as bóias lá no céu e a chumbada aqui na terra.

E aí os sons,

como os peixes,

se engancham nas malhas do silêncio

e acabam por tecer um pano colossal.

Eu sei que não temos como evitar,

mas hoje os fios da dor, do choro e da tristeza

vão ajudar a fechar as malhas desse silêncio.

São fios tão ásperos, e tão cheios de nódoas...

que o pano que vai ser feito hoje é feio como a morte.

Mas, eu sei que esses fios de sons depois se acabam

e ficam só as malhas da gigantesca caçoeira

que vão receber outros fios de sons

e formar um novo dia.



Coro

(instalado no meio da platéia.)



– O silêncio é a nossa testemunha!

A história será nosso juiz!



(Alex volta devagar e silenciosamente e senta-se ao lado da fogueira. Nesse momento entra Francisco Magalhães com um porrete na mão. Alex pega o porrete que ele traz e lhe entrega uma caneca com café. Ele senta-se na areia segurando a caneca com a mão direita e a esquerda ele apóia no chão. Enquanto toma o café ele fala.)





Cena IV



Francisco Magalhães

(Olhando altivamente o grupo)



– Formosences, esta é a nossa terra. (Bate com o pé nu na areia fofa.)

Aqui vivemos livres e é aqui que estão nascendo e crescendo os nossos filhos.

Nossas companheiras estão felizes, nossos filhos são saudáveis, e a fome não nos assalta.

Somos afortunados. (Interrompe a fala, corre novamente os olhos arregalados nos olhos muito atentos de todos os presentes e, quase que segredando, pergunta)

Vocês amam Baía Formosa? (Faz pausa, mas não se houve resposta, só o assentimento veemente de cabeças)

Se a amamos vamos defendê-la. Vamos estabelecer eternamente aqui o nosso lar.

Não vamos permitir a desonra que vai nos envergonhar depois. (Junta as mãos tendo apoiados agora os braços sobre os joelhos.)


Antônio Bandeira


– Francisco Magalhães, o que é que está acontecendo? Porque você nos faz essa pergunta? Ora, quem é que não ama a terra em que nasceu? Tem alguma coisa ameaçando a gente? Ameaça maior, Francisco Magalhães, não será a gente perder um dia de maré pra ficar aqui ouvindo esse seu lenga-lenga?

Um Pescador


– A palavra tem que estar junto com a atitude, Toinho. Atitude sem palavra vale, mas a palavra sem atitude não tem nenhum valor. É sentimento falso.


Francisco Magalhães



– Escutem isto: anteontem á noite, atendendo a um chamado, eu e Alex fomos, até quase perto do rio Curimataú. Um escravo do Engenho da Estrela, gente da cozinha de João Cunhaú, veio nos encontrar e avisou que João Cunhaú vem hoje, sexta-feira, com um bando armado para expulsar a gente daqui e queimar as nossas casas dizendo que elas estão dentro da propriedade dele.

Que vai fazer conosco do mesmo jeito que fez com os moradores de Oiticica. Que o bando, chefiado pelo próprio João Cunhaú, vai sair do Engenho da Estrela antes do alvorecer. E disse que assistiu a toda a conversa que João Cunhaú teve com Celestino Arregaça. Que a coisa é certa. Por isso proponho: se amamos a nossa terra vamos defendê-la.



Antônio Bandeira



– Defender como, Francisco? Com pedaços de pau? Você está maluco? Os homens do Engenho têm armas de fogo e já são acostumados a matar. O melhor que a gente pode fazer é fugir se quisermos ficar vivos e procurar outro lugar pra ir viver e criar nossas famílias.



Francisco Magalhães



– Toninho, nós temos três armas: a fé, a inteligência que Deus nos deu e a nossa valentia. Nós não somos covardes, Toninho.



Antônio Bandeira



– Não se trata de covardia, não Francisco. Você não está vendo que se a gente se meter com eles vamos todos morrer? Eu vou fugir agora com a minha família e quem tiver juízo me acompanhe. (Levanta-se e é seguido por mais dois que estavam sentados ao lado dele.)



Um Pescador

(em tom jocoso)


– Mas, fujam pro lado do Guajú. Pro lado do Curimataú vocês podem se encontrar com o bando de João Cunhaú, e isso poderá ser ruim para os formosences. (Ouvem-se risos)


Coro

– Nós amamos a nossa terra!



Cena V



(Após a saída dos três homens os presentes baixam as cabeças e ficam em completo silêncio. Vêem-se meneios de cabeça desaprovadores. Diminui a claridade da cena e um foco cai sobre Francisco Magalhães que, depois de alguns segundos continua.)



Francisco Magalhães

(Olhando para os que ficaram)



– Então, se amamos Baía Formosa, vamos nós mesmos defendê-la porque não temos como contar com o governo da Província do Rio Grande do Norte.



1º pescador



– Está certo, Francisco Magalhães! Nós já estamos cansados de ameaça de expulsão da nossa terra. Semana passada derrubaram nossas casas. Um dia a gente tem que dar um basta nisso.



2º pescador



– Chega de humilhação! A gente sempre respeitou todo mundo, mas eles pensam que respeito é covardia.



3º pescador

(um homem de idade)



– Francisco Magalhães, você sabe que eu não sou homem de fugir. Mas, as minhas pernas fraquejam e o reumatismo me ataca os braços. Meus dois filhos homens não vão se furtar a defender a terra deles. E que tarefa eu posso fazer para ajudar a minha terra e a dos meus filhos? Eu não vou fugir do meu dever.



Francisco Magalhães



– Temos uma manobra a fazer. Alguns homens sairão para a maré para pescar normalmente. O bando de João Cunhaú vem por cima da Baia de Aratypicaba e vai ver o movimento das jangadas saindo do porto. João Cunhaú e os jagunços vão pensar que nós estamos desavisados.



Joaquim Porto


– É! E também amanhã não vai faltar abastecimento.


Francisco Magalhães



– Joaquim Porto, você ficará encarregado de escolher os homens para essa tarefa. De preferência os mais velhos e os que estiverem sem condições de luta. Mas, preciso que você fique em terra. E os que ficarem para a resistência escondam suas jangadas em grotas e moitas seguras.


Canindé


- Seu Francisco, meu pé está inflamado e a minha perna ainda está inchada, mas eu tenho condições. Estou doido pra fazer um jagunço falar fino. (risos baixos)


Francisco Magalhães

– Seu pai já está encarregado de selecionar os que vão pra pesca, Canindé. Siga a orientação dele.

Bem! Agora são mais ou menos umas quatro e meia da madrugada, quando o sol nascer todas as mulheres, crianças e velhos deverão sair para se abrigarem em segurança na encosta do morro mais alto do Bacupari.

Ali nas Queimadas tem um cajueiro que dá para abrigar e camuflar nossas famílias.

A retirada vai ser por um caminho por dentro da mata. Alex fez a trilha caminho comigo ontem à tarde e será ele, portanto, quem conduzirá toda a gente em completo silêncio e lá permanecerá com ela para trazê-la ordenadamente depois do embate em que sairemos vitoriosos com a graça de Deus.

(dirigindo-se a Juvêncio Tanoeiro) Juvêncio Tanoeiro se encarregará de ir às Queimadas avisar a hora do retorno.

Todas as casas deverão ficar de portas e janelas escancaradas para dar a impressão que os habitantes fugiram.

Todos os fogareiros devem ficar apagados e todos os candeeiros sem querosene e sem pavio para não ajudarem ao inimigo.

Se algum de nós tombar na luta, o encargo da provisão das viúvas e dos órfãos até alcançarem a idade adulta será divido pelos sobreviventes.


Um Pescador


– E nós vamos encontrar o bando de João Cunhaú lá no porto?



Francisco Magalhães


- Não! Nós somos apenas quinze. E vamos sair de casa pela beira da praia e deixar os rastros bem visíveis para atrair o bando e vamos ficar lá na ponta da enseada do arruado, já na curva de onde se vê o Bacupari. Vamos armar uma cilada pra eles. Se eles decidiram nos atacar, nós vamos escolher o local da refrega.


Um Pescador


– Mas, ali é muito cheio de pedra, Francisco.



Francisco Magalhães


– Por isso mesmo aquele é o melhor lugar pra nós. Pra eles, ao contrário, vai ser um verdadeiro presídio para os cavalos. (Francisco Magalhães se levanta e todos se levantam também, fica parado por um instante, bate uma mão contra a outra e depois começa a abraçar um a um os companheiros que vão deixando o palco enquanto as luzes se apagam).


Cena VI


Interior de uma casa de pescador. A mulher, ajudada pelo marido, prepara a retirada para as Queimadas. Estão presentes crianças e os vizinhos entram e saem. A movimentação é rápida e as falas devem formar um burburinho incompreensivo de vozes.



Canindé

(entra, claudicando, trazendo um cesto com objetos indistintos)


– D. Isaura, minha mãe disse pra botar nesse cesto as vasilhas com água pra servir pra todo mundo.


D. Isaura

(dirigindo-se para Canindé e apontando para um canto da cena)


– Pegue aquelas ali que já estão cheias.


Canindé


– D. Isaura, obrigado. Vou recolher as vasilhas nas outras casas.


Gustavo Alexandre

(entrando com Rosinha)


– D. Isaura, ta precisando de ajuda? Lá em casa já está tudo pronto.


Rosinha

(tomando uma criança que D. Isaura está vestindo)


– Deixe que eu termine isso. Não esqueça de jogar água no fogareiro, esvaziar de gás os candeeiros e enterrar os pavios que na volta a gente vai precisar.



D. Isaura

(Virando-se para Gustavo Alexandre)


– Vocês viram pra onde Antônio Ferreira rumou com os outros? Queira Deus eles não façam uma desgraça contra nós...


Gustavo Alexandre

(interrompendo)


– Tomaram o rumo sul. Aurélio e Vicente estão vigiando os passos deles e já informaram a Francisco Magalhães que eles estão seguindo pras bandas do rio Guajú. Podemos ficar tranqüilos que eles não vão entregar a gente pra João Cunhaú.


Marido de D. Isaura

(virando-se pra Gustavo)

– E as casas deles ficaram abertas? Se eles deixaram fechadas é bom ir lá abrir pra não serem incendiadas. Porque se eles resolverem voltar depois...


Gustavo Alexandre

(saindo da cena)


– Eu vou lá verificar isso.


Alex

(entrando na cena)


– Pessoal, está na hora. As mulheres e as crianças e os velhos já estão se juntando ali atrás, debaixo da mangueira. Vamos sair pras Queimadas já já que é pra dar tempo a gente chegar lá sem atropelo e antes do bando chegar. Francisco Magalhães pede que os homens se reúnam agora em frente à casa de Aristides. (Todos começam a se retirar, as luzes começam a se apagar, e o silêncio a imperar)


Cena VII

O cenário é o da batalha. Francisco Magalhães verifica a distribuição dos homens por entre as pedras e as árvores.


Francisco Magalhães

(no meio de um círculo ele dá as últimas instruções e encoraja o pessoal)

– Pessoal, cada um lute pensando na sua família. Se fracassarmos aqui nossos filhos e nossas mulheres cairão nas mãos deles. E nós não podemos, por medo ou por covardia, permitir isso. Nós não temos nada a perder, por isso o que fizermos aqui é ganho. Eles vêm para nos matar, não se esqueçam disso. Nós temos que nos defender. Por isso, não se deve ter pena. Se o nosso coração amolecer eles vencerão, e Baía Formosa será riscada do mapa como quer João Cunhaú. Pensem, insisto, nas suas famílias e lutem por elas. Pensem em Baía Formosa e lutem pelas gerações que virão depois de nós para que sintam orgulho da gente e não vergonha.

Agora é aguardar. Cada um na sua posição deve estar atento a qualquer movimento lá pras banda do arruado. Quando o bando entrar aqui, (e indica o centro da cena) você Rufino, que vai estar já na retaguarda deles, dará o primeiro grito. É isso que vai ser a senha para começarmos a atacar.

(Os homens ocupam seus lugares)


Gustavo Alexandre

(rindo)


– Ta tremendo, Rufino?


Rufino


– Mas lhe garanto que não é de medo. E essa voz fina? É o que? Quero ver agora se você é o valente que se gaba. Quero ver se a história de botar polícia pra correr na Penha vai se confirmar... (risos)


2º Pescador


– Sebastião, tem gente aqui acocorado que parece até um sapo. (risos)

3º Pescador (gracejando)


– Cuidado com os cavalos de João Cunhaú...


4º Pescador

– Antes de um deles pisar em mim o jagunço que estiver montado nele já vai estar no chão. (Começa-se a ouvir trotes distantes.)


Francisco Magalhães

– Escuta aí, gente! Devem ser eles. Estão chegando.

(sonoplastia – trote distante de cavalos. Depois vai se aproximando. Ouvem-se mais próximo tiros e vozes e batidas de porta) (Todos os pescadores na cena se escondem completamente)

Cena VIII

As vozes serão escutadas fora da cena. No palco os pescadores estão todos entocados e em completo silêncio.


Celestino Arregaça

(a voz é ouvida fora da cena)


– Os covardes devem ter sido avisados e fugiram Seu João Cunhaú. O arruado está abandonado. Não tem mais nem fogo aceso. Talvez tenha sido melhor assim porque a gente poupa tempo e munição.



João Cunhaú


– Celestino, e esses rastros aqui na praia? Estão indo na direção sul.


Uma voz

– E não faz tempo que fugiram! Foi nessa maré de hoje porque as pegadas ainda estão vivas.

Outra voz

– Eles devem estar fugindo para a Província da Paraíba.

João Cunhaú

– Avançar, pessoal. Vamos alcançar esse bando de covardes. Agora nem fugindo eles escapam da minha fúria. Podem se esconder até no inferno que eu os tiro de lá. Celestino, a ordem é não deixar um vivo nem pra contar a história. Quero todos mortos. É matança mesmo ou eu não me chamo João Cunhaú, senhor do Engenho da Estrela. Vamos riscar os formosences safados do mapa.


Celestino Arregaça

– Pessoal, vamos em frente seguir as pegadas dos covardes. (gritando como se o doutorzinho estivesse distante) Doutorzinho! Doutorzinho!Venha aqui pra retaguarda, fique aqui ao meu lado e ao do seu pai.

Praxedes, tome a dianteira e dirija a coluna.


Cena IX


(Os jagunços entram montados pelo centro da cena que está livre de pedras grandes e de árvores, embora algumas pedras pequenas sejam vistas. Os homens não impunham as armas porque estão desavisados e não esperam a emboscada. As espingardas e os revólveres estão a tiracolo e na cintura.)

Rufino

(Saindo rapidamente de trás de uma pedra ou árvore, grita e ataca o último cavaleiro que está na retaguarda e entra em luta enquanto o jagunço tenta tirar a espingarda das costas. Canindé, mancando de uma perna, ataca outro jagunço, bate na perna dele. )

(A sonoplastia executa a Abertura 1812 de Tchaykoviski. A música começa baixa, vai subindo e permanece como fundo durante toda a luta)  (O jagunço , cai, bate com o rosto numa pedra e não consegue se levantar porque está com a perna quebrada. Esconde-se por trás de uma pedra.
Simultaneamente outros pescadores atacam os homens de João Cunháu e são também atacados.

Canindé parte pra cima do filho de João Cunhaú. Esta mancando e está com o porrete na mão. Um jagunço aponta uma arma para as costas de Canindé. )


Francisco Magalhães (gritando)

Canindé!!

(O jagunço atira em Canindé .) (Canindé rodopia e cai morto com os olhos abertos e o rosto voltado para o céu.)
(Francisco Magalhães ataca o jagunço que atirou em Canindé e dá-lhe uma porretada na cabeça.)

(O jagunço cai morto com a cabeça esfacelada.)

(Um jagunço avança para um pescador. O pescador com uma faca, fura a barriga do jagunço que cai agonizando com os intestinos na terra.)

(Outro jagunço aponta uma arma para as costas de Gustavo Alexandre que está em luta corporal com um jagunço ruivo.)

(O filho de João Cunhaú aproxima-se pela retaguarda de Francisco Magalhães e quando está apontando a arma para as costas de Francisco Magalhães recebe um golpe de foice no pescoço. Esguicho de sangue. O corpo do filho de João Cunhaú cai por trás de uma pedra.)

(Cessa a Abertura 1812 de Tchaykoviski.)

João Cunhaú (gritando)

– Recuar!

(Os capangas recuam saindo de cena – sonoplastia: trote de cavalos fugindo e se distanciando. Depois completo silêncio. Toca um trecho – o alvorecer - de Dança Macabra de Camile Saint-Säens.)

(Praxedes Degolador sai se arrastando com a perna quebrada e as mãos para cima, rendido.)

(Pescadores começam a ocupar o centro da cena. Recolhem Gustavo Alexandre que está vivo.)

(Passam ao lado do corpo de Canindé.)
(Joaquim Porto pai de Canindé, está chorando ao lado do corpo do filho em companhia de Francisco Magalhães e de outros pescadores.) 
(Outros pescadores recolhem os quatro corpos mortos dos jagunços e os enfileiram debaixo de uma árvore.)

(Trazem o jagunço de perna quebrada e o acomodam em um canto da cena ao lado dos quatro corpos dos jagunços mortos.)

Morrem as luzes.


Cena X

(Porto. Uma fogueira com uma lata prepara o café. Um círculo de pescadores em volta.

Conversam. Não estão assustados e a conversa é alta.)


1º Pescador

– Eu quase não acreditei quando vi o bando de João Cunhaú fugindo com medo da gente. Eta! Magote de covardes. (risos)


2º Pescador

– Francisco, naquele dia de madrugada, você disse que a gente tinha três armas. A fé e a valentia eu entendi logo, mas a inteligência como arma eu só entendi depois. Se a gente não tivesse ficado ali naquela ponta, eles é que estariam cantando vitória agora.


3º Pescador

– Se Francisco Magalhães fosse militar a patente dele seria de general.

4º Pescador
– Quando eu vi o jagunço, Praxedes Degolador, com as mãos pra cima e a perna quebrada eu tive até pena do desgraçado. Ele pensava que a gente era covarde pra atacar um homem sem condições de luta.

5º Pescador

– Os filhos dele, quando vieram buscá-lo, nem acreditaram que ele tinha sido tratado como gente. Ficaram até agradecidos. Aquele é um que nunca mais pisa aqui pra molestar pescador.

2º Pescador

– Se Gustavo Alexandre e Canindé estivessem aqui agora estariam rindo e caçoando com a gente. Ainda sinto falta das brincadeiras deles.

4º Pescador

– Chorando, Rosinha diz que Gustavo morreu sorrindo no colo dela.

5º Pescador

– Eu também tenho pena da tristeza de Clarisse. Ela ainda fala de Canindé como se ele tivesse ido pra uma viagem...

6º Pescador
(apontando para o céu)

- Aquelas duas estrelas que estão brilhando lá em cima são eles olhando pra gente aqui em baixo. Eles estão com Deus! Estão felizes.

7º Pescador

(olhando para o céu, grita emocionado)


– Canindé, Gustavo, vocês são mártires da nossa liberdade. Nós formosences faremos tudo para sermos dignos e merecedores do sacrifício de vocês.


Coro

(está fora da cena, posicionado em lugar junto à platéia)

– Na terra livre nascem homens libertos.

Alex

(sentado ao lado de Francisco Magalhães  que tem os olhos fixos em Alex, depois de um breve silêncio).

– Na madrugada daquele dia 10 de agosto, quando eu acordei, notei que o céu e a terra estavam em completo silêncio.

Aí eu imaginei que o silêncio existe e ele é como uma rede de pesca: cheio de malhas. Aí os sons vão aparecendo e, como peixes, vão se emalhando nele. E assim formam uma espécie de tecido que une o céu e a terra.

Naquela madrugada eu já imaginava que iriam se enganchar na malha do silêncio os sons destorcidos e feios do choro e da morte.


Francisco Magalhães

(levantando-se com os outros companheiros)

– Nós lutamos para garantir a nós mesmos e aos nossos descendentes um território livre. Tenham certeza de que a morte de Canindé e a de Gustavo não foram em vão.

Tomara, Alex, que no futuro os fios dos sons que vão tecer esse pano que une o céu e a terra sejam coloridos e alegres.

Coro

– Baía Formosa terra da liberdade!

                                                                          FIM

























Comadre Fulôzinha - Conto

        




          Desceram as escadas irregulares da pousada intrometida ali nas dunas e rumaram apressados pela beira da praia saturada de sol do verão tropical, como meninos que escapam da tirania das mães.
Fugiam do ritmo frenético que o roteiro, rigidamente cronometrado, impõe aos excursionistas; da voz histérica do guia nervoso e suado que recitava informações em tom monocórdio e gritava os avisos sem desgrudar o olho do relógio ao modo de um cacoete; de um cardápio mal afamado que cheirava a conchavo comercial entre agenciadores e hoteleiros; das moscas azuis que zumbiam nas lixeiras apodrecidas e repugnantes de fetidez; e dos bugueiros insistentes e inoportunos que se esgoelam por uma atenção negada.
          Duas horas até retomar o convívio com o grupo, formado em sua maioria por profissionais liberais em férias, pareceram-lhes suficientes para mudarem o cardápio dos temas burocráticos fatigados, reanimarem o humor vitimado pela rotina e saciarem a curiosidade de um viver simples que na urbe se habituou imaginá-lo sossegado ainda que indesejado porque tem mais inconveniências do que simplicidade e mais tédio do que sossego, como ajuízam os viciados em poluição sonora e anonimato urbano.
          Apresentaram-se porque não se conheciam e se souberam Gabriel, engenheiro civil e Miguel, programador de dados, como poderiam ter se dado a conhecer médico e advogado se tivessem, num passado recente, acatado os apelos a que seguissem as profissões paternas. Pelas mães foram nominados de arcanjos e na pia confirmados, mas isso circunscrevia momentaneamente as semelhanças entre eles, não fosse já o fato de estarem numa mesma viagem e em busca de uma mesma satisfação posta comercialmente em promoção por uma agência de viagem.
          Poderiam ter seguido até ao porto na Baía de Aratypicaba, mas sentaram-se no Bar do Cocota, ou porque foi o primeiro restaurante aberto que encontraram à beira mar, ou ainda porque o conforto da sombra bem-vinda e da brisa fresca sugeriram uma estação nessa via lúdica de céu muito azul, de areia e de pedras salgadas de mar, e ali instalados olharam e conversaram a partir dos eixos dos conhecimentos teóricos adquiridos nas aulas das cadeiras específicas das profissões e nas leituras e conferências oferecidas pela escola, e que enfocam aspectos sócio-políticos da realidade do mundo globalizado.
          Um opinou sobre o jeito da arquitetura daquela rua de casas que só se abrem no verão, como informou o menino passante porque passava e também porque sequer foi identificado pelos perguntadores, e considerou aquele estilo indefinido e feio, e que se fosse para adjetivar, ponderou o um que falava, o modernoso bem que caía como uma luva; o outro discorreu sobre o que ele chamou de bolsões isolados das comunicações globalizadas que avermelham os mapas a título de demarcar as zonas insuladas e que parecem indicar cuidado não se aproxime; depois os dois teceram comentários a propósito das condições infra-humanas da vida e até dos serviços públicos essenciais negados aos que estão do lado de baixo da faixa dos que detêm as riquezas; ainda se arriscaram a ensaiar sobre a filosofia da exclusão compulsória a que estão condenados os marginalizados da tecnologia e do progresso nascida aquela do neoliberalismo, como assentiram enraizá-la porque é leitura em voga, e por fim, diz-se assim para terminar esse brevíssimo rosário de temas, se advertiram entre risos de que apenas reciclavam a temática viciada, da qual adredemente tentavam escapar, a toa como se viu, embora, se justificaram, pudessem interpretá-la também como um exercício de enquadramento do teórico com o real que estava bem ali para ser lido mesmo de acordo com os modelos e nos parâmetros da academia, como concluíram em completa e satisfatória sintonia.
          Por isso, olharam para o mar e, sem instrumental teórico que lhes abalizasse os discursos, porque tudo isso foge dos exames acadêmicos dos cursos que freqüentaram, apenas contemplaram, sem palavras, o tráfego dos banhistas na areia, os barcos pesqueiros que chegam ou partem, os surfistas que treinam suas habilidades para o próximo circuito e o cerimonial de alongamento de um grupo de jovens sarados que vai jogar vôlei daqui a pouco e que nunca freqüentará os pódios, como secretamente pensam, com cara de penalizados, ou de viajantes observadores.
          Clientes únicos naquela manhã de terça-feira, além da exclusividade de um serviço aprimorado e amador, tiveram a companhia, à meia distância, dos nativos desocupados que olham calados os movimentos dos estranhos e nem se esforçam por escutar as conversas que não querem entender porque preferem a apreensão imediata do mundo sem palavras.
          A menina-moça que se aproximou da mesa dos dois viajantes e que acabou convidada a sentar-se com eles, não pediu um real como é costume se fazer aqui, mas exibiu labirintos aprimorados em panos enxovalhados pelo manuseio e pela recusa dos turistas esquivos e sem tempo.
          Com a delicadeza e a atenção que não tiveram seus anfitriões ao se desobrigarem do exame, ainda que desatento, dos seus bordados, ela recusou cordial e graciosamente o refrigerante oferecido como uma esmola inconveniente ou uma recompensa descabida, e empregou estrategicamente seu tempo com os estranhos dando a entender, o que lhe pareceu sábio, aos circunstantes desocupados que apreendem a realidade imediata que o fazia na esperança de interessar aqueles turistas pela sua arte, e nada mais.
          A cabeça da jovem, coberta, à moda dos ícones católicos, por um vistoso lenço de seda vermelho brilhante que contrastava miseravelmente com o jeans roto que ela trajava e com a camiseta já puída de malha branca vagabunda que fora doada por um candidato vitorioso da última eleição municipal e que caía leve sobre os seios castos e quase prontos, a cabeça, retoma-se, não passou despercebida aos dois fugitivos curiosos. Menos porque aquele pano lhe emprestasse uma graça artificial e incomum e acentuasse as maçãs proeminentes num rosto belo porque adolescente, senão porque o tecido destacava um crânio irretocável e, longe do seu papel de dissimulador, delatava, por causa do seu caimento definido, a ausência completa dos cabelos da menina-moça.
          Com os braços sobre a mesa nua e envolvendo a caixa revestida de papel camurça azul fosco em que guardava sua mercadoria ou o seu tesouro, Maria, como se apresentou, instada pelo engenheiro jovem e muito precocemente calvo, falou da ausência dos seus próprios cabelos longos e sedosos como gostaria de ter discorrido sobre a precisão matemática que exige a retirada dos fios de um tecido para que se produza um bordado perfeito e bem acabado como os seus; lastimou, com o olhar fixo nos olhos negros de Gabriel, a perda do namorado José que não a quiz descaracterizada, como uma mulher solitária se culpa pela sua incompetência inominada; descartou a quimioterapia sugerida compassivamente; de olhos abaixados de vergonha negou uma infestação de piolhos aventada jocosamente e rechaçou altivamente a venda das madeixas às cabeleireiras dos salões de beleza improvisados dos bairros pobres, dada a entender por Miguel, o programador de dados, com a mesma veemência que usaria para negar-se suja ou impura ou faminta; depois detalhou, com aparente enfado, o entrançado nodoso e perverso feito nas suas mechas, antes cuidadosamente escovadas, e atribuiu a autoria à Comadre Fulozinha, a menina-entidade que vive nos aceiros das matas, como um acidentado repete para os curiosos o motivo da clavícula engessada; repercutiu, a contragosto, a absoluta impossibilidade de ter desembaraçada sua cabeleira basta e castanha, em que pesem os óleos e os sabões sugeridos pelas amigas para desfazer o entrançado, e da drástica, irrecorrível e desesperada sentença que é cortá-la rente ao coco, com a resignação própria dos que vivem sob a influência divinal; marcou, olho no olho do engenheiro, sua inquestionável inocência e insistiu no castigo injusto, como queria ter se debruçado sobre seus sonhos de menina-moça; e, ante a incredulidade discreta que se esboçava nos rostos barbeados dos seus inquisidores, ilustrou seu infortúnio reparável com outras diabruras que Fulozinha protagoniza, e enumerou o caso de Canjinha que se escondera em Cabedelo até que seus cabelos tivessem o jeito e o tamanho das cabeleiras femininas; o trançado feito nas crinas e nas caudas dos cavalos que erram pela mata; as surras de cabelo dadas nos cães farejadores; os silvos fortes e quase insuportáveis que ensurdecem e alucinam os caçadores e, por fim, discorreu sobre a desorientação que ela inflige às suas vítimas e que as faz caminhar perdidas indefinidamente em círculos na floresta.
          Queria com isso reafirmar a maldade inconseqüente daquela assombração e ressaltar sua completa inculpabilidade e o acaso que a escolheu porque, como desde sempre, dormia em casa na noite que a menina travessa, a visagem sem peias, se esgueirando pelas frestas das portas, consumou seu delito por pura diversão e a obrigou a desfazer-se do seu ornamento e a expor um rosto sem moldura, e nem por isso menos belo, como verdadeira e instantaneamente anunciou a Maria o jovem engenheiro careca a quem ela escutou atenta e jubilosa porque achou que nas palavras de Gabriel já tinham, naquele instante, a lavra da boa nova como lhe pareceu convir a um anjo que deveria carregar também a mesma fama do mensageiro seu xará.
          Quando Maria deixou o Bar do Cocota com a sua caixa agora esvaziada de mercadoria e seu tesouro na pequena sacola que trazia a tiracolo, Sagi, o garçom descalçado e risonho que não parara durante todo o serviço, avalizou e reafirmou para os dois clientes pensativos a história de Maria com a mesma unção com que os ministros cristãos presidem aos sacramentos e noticiou orgulhoso e enfático a premiação que a moça recebera no festival regional de bordados que se faz em setembro, para abonar a excelência da mercadoria rara adquirida e que, por certo, completou ainda o garçom, agradaria a qualquer pessoa de bom gosto. E a sua ponderação pesava porque além do mais tinha a autoridade de professor de arte e de artesão também, como mostrou cabalmente aos dois clientes.
          No ônibus que ainda corria em meio à paisagem monótona do canavial, e que um João, neto de um Cabral de Melo, juntado-a ao vento para quebrar a constância descobriu que “se venta no canavial / estendido sob o sol, / seu tecido inanimado / faz-se sensível lençol”, Gabriel e Miguel já repassavam entre si os detalhes da narrativa de Maria e se detiveram na convicção exacerbada da adolescente na crença do seu universo mágico conforme preferiram adjetivá-lo, mas não conseguiram entender o sem alicerce daquele mundo ou a seqüência algorítmica ambígua que redunda numa edificação complexa e incongruente ou num programa lógico, embora paradoxalmente indecifrável. Para o programador de dados os universos da ciência e o da magia pareciam ser excludentes e irredutíveis porque condenam ao isolamento e à incomunicabilidade recíproca os que estão afundados neles. Sentenciou ainda que o conhecimento crítico, diferentemente do ingênuo, progride e se distancia cada vez mais do seu pólo contrário. Por isso, conclui enfático que o abismo, tendendo sempre a aumentar, impossibilitaria a inclusão dos que vivem no campo da ingenuidade, no universo dos que operam sob o primado da razão, e isso, concluiu socraticamente, perpetuaria a infelicidade humana que é o dessaber, responsável pela miséria dos países e dos povos limitados por ele.
          O engenheiro civil não discordou apenas para fazer a conversa fluir, mas porque se incomodou com as idéia de exclusão e dos abismos dos mundos, e indagou, tentando introduzir um argumento novo, e, à guisa de raciocínio, se não estaria o universo mágico alicerçando o edifício da ciência desde tempos imemoriais ou se o saber crítico não estabeleceria pontes entre os mundos, ou se a emoção, por exemplo, não seria um ducto ou ponte para a intercomunicação das gentes que não estariam isoladas, embora circunscritas em espaços diferentes? E amenizou a contra argumentação anuindo quanto à responsabilidade da ignorância pela pobreza dos povos e disse sim senhor com isso eu concordo porque já li sobre essa tese em algum lugar.
          Dois meses depois, conduzido por um cicerone catado a esmo na Praça dos Pescadores e que se dispôs solícito, mediante uma promessa de gorjeta, a ensinar a casa de Maria, filha de Seu Joaquim, o ferreiro, como ficou identificada pelo menino passante, agora guia, Gabriel visitou Maria e anunciou o seu pretexto de conversar sobre a lenda de Comadre Fulozinha, de quem acabara de conhecer os malefícios porque vivera na pele a experiência, e tentar, agora com fundamento, sim senhor, edificar para si mesmo a teoria dos dois mundos distintos e irredutíveis em que ductos e pontes acessam e interpenetram as culturas, como os canais levam água de um aqüífero saturado para sítios áridos ou uma conexão articula pontos separados.
          Os cabelos aloirados que já começavam a cobrir o crânio irretocável de Maria já podiam dispensar, ao menos no recesso de lar, o lenço de seda e destacavam o riso de dentes brancos que a fazia mais bela como Gabriel lhe diria mais tarde e a sós e que ela ouviu examinando os olhos negros emoldurados por pestanas abundantes e encurvadas que ela vira pela primeira vez não fazia muito.
          - Você aqui?
          Maria, enquanto enfiava a agulha num pano preso à armação de madeira e que a manteve segura na mão esquerda, se perguntou o porquê aquela presença ali, porque não estava conformada à intenção anunciada ou porque, quem sabe, preferisse outro propósito que lhe dispensasse das lembranças amargas que atraem a tristeza e desse a ela a chance de desentocar os seus bordados ou, o que seria melhor, falar do que abundava, fazia dias, no seu coração já despertado para a vida e para o amor.
          Mas, interessou-se vivamente, embora guardasse um riso de acomodação e um olhar enfadado, quando Gabriel lhe disse que estava na cidade fazia três dias dos quais um se recuperando das horas intermináveis andando em círculos na Mata da Estrela até ser resgatado, faminto, sonolento e desolado, por Nestor, o mateiro que ele agora disse conhecer e que o descreveu como o que colhe cajaranas doces, identifica e seleciona sementes e porta um amuleto que não revela qual seja e que o defende dos ataques constrangedores de Fulozinha, segundo afiançaram a ele, convictos, muitos habitantes da cidade e que agora Donana, a mãe severa, religiosa e neste momento intrometida de Maria, confirma que é isso mesmo e que ele mora na entrada da cidade e decifra de chofre o enigma do amuleto dizendo que é rolo de fumo mesmo que ele doa a Fulozinha em troca de recompensas da menina-entidade e que em troca o livra de humilhações e enche seu bornal com variedade e qualidade destacada de frutas silvestres.
          Ato contínuo, Maria retomou o bordado como quem diz primeiro a obrigação porque dessa cartola parece que não sai coelho, e cada ponto perpetrado lhe desenhava na boca um ricto de indiferença ou de deboche, e a distanciava da visita inesperada como se o propósito anunciado pelo anjo já estivesse totalmente compartilhado e esgotado e não lhe interessasse mais, embora isso não tivesse rendido ao engenheiro a cumplicidade imaginada por ele e que serviria para tornar comuns os mundos dele e dela, como Donana captou ligeiro e procurou um pretexto para prorrogar a presença do visitante.
          A névoa seca que acinzentara a paisagem até as dez horas da manhã já se dissipara e a temperatura em elevação reclamava um refrigério para o corpo que Donana, agora tagarela, além de intrometida, usando o calor como pretexto, preparou um suco de murici e serviu à nova vítima de poucas seqüelas da menina levada que fuma cachimbo porque estava certa, conforme declinou, de que o preceito cristão que manda dar de beber a quem tem sede, além de porta da hospitalidade humana, era também a chave que acessa o reino, e repetiu reino para contraditar o anjo, o reino não o estado de Deus, como ele se aventurara extemporaneamente a atualizar, embora não tivesse se anunciado antimonarquista nem muito menos republicano que já são cordões em desuso completo haja vista o encarnado e o azul do pastoril, mas, a guisa de justificação, se definido modestamente como um diletante inconseqüente na tentativa presunçosa de atualizar a ideologia das falas ou, no caso, das rezas como prontamente ele concordou com a mãe severa de Maria que há muito já tinha tomado as rédeas da conversa, e a aquiescência do diletante tinha o fito não só de simplificar a vida, mas também de permitir uma amizade para além das lendas, dos mitos e dos sistemas de idéias, o que era de bom alvitre se se considerasse a circunstância de sua entronização no lar do ferreiro e o seu propósito estrategicamente despistado logo na chegada.
          Para Maria aquela conversa do engenheiro Gabriel, que de anjo ela esperava que ele só tivesse o nome porque ela de antemão se confessara sem lastro teológico para entrar em discussões bizantinas, lhe pegara desprevenida porque sequer desconfiara, ou dissimulou o entendimento como aposta a mãe, e tomou como verdade clara e irretorquível o propósito anunciado que a fez soturna.
          E mesmo ante a atitude de indiferença em que se encastelou Maria em face da desdita alheia como choramingou o anjo Gabriel, o engenheiro civil, parecendo se empenhar em angariar a atenção da moça que bordava indiferente, ou quebrar a resistência - inexplicável para ele porque Donana, no caso bisbilhoteira, já tinha entendido conforme passou depois na cara da filha -, rechaçou quase indignado a insinuação de bebedeira feita assim à toa e ironicamente por Maria; ainda queixou-se do assobio longo e estridente que o fez cair atordoado, com a convicção com que um crente fundamentalista apregoa a sua fé; insistiu no tempo que passou desacordado em cima das folhas secas e das bromélias rasteiras e espinhentas e que não sabe precisar a duração, como um mentiroso apanhado em um flagrante deslize se justifica perante os circunstantes; exacerbou as picadas das formigas que ainda lhe marcavam o rosto, como um menino insiste numa carícia, num crédito ou num afeto economizado sabe-se lá porquê; descreveu a dor, agora já atenuada, dizia ele, que os vergões provocaram nas costas e nas pernas e que lembravam até ardência de chicotadas dadas com chibata, como um hipocondríaco lamuriento exacerba uma doença que nunca teve; e, finalmente, contou sobre as tentativas infrutíferas e enfadonhas e desesperadas de retomar a Trilha do Pagão que lhe levara àquele constrangimento e àquele desespero, e que além disso fizera desmoronar, parece que irremediavelmente, segundo aventou se fazendo de vítima consumada, o edifício da sua formação acadêmica que ele julgara cimentado, incorruptível e imutável, e fez isso como um penitente que se confessa fraco porque sucumbiu à tentação que o levou ao pecado, ou como uma carpideira cumpre seu choro sem sentimento.
          Se em algum momento, e isso de fato acontecera, dizia ele, pusera em dúvida a história de Maria que ela lhe perdoasse porque a descrença nasce do apego aos próprios cânones e aborta as emoções nascentes, mas Maria ria inocentemente como se não entendesse o palavrório do engenheiro ou julgasse o falador abobalhado não fosse a aparente dignidade e o ar de sabedoria com que a língua cumula os que a dominam.
          Gabriel queria com isso encontrar uma ponte ou um ducto que o levasse ao mundo mágico de Maria sem se aperceber que ela lhe dizia com sua indiferença aparente, seus risos displicentes, seus muxoxos e seus olhares de esguelha e seu enfado calculado que não é pela razão escandida em versos métricos ou em palavras livres que os mundos se comunicam, até porque eles sequer existem e seus nomes: crítico, ingênuo, real ou imaginário, não permaneceriam nas línguas não fosse a necessidade da idéia condensada para se discorrer didaticamente sobre a realidade expandida.
          Socorreu o engenheiro vexado pela circunstância o convite sacado dos costumes urbanos, e sem rodeios e sem ansiedade, aceito por Maria que às nove da noite jantava camarão ao molho catupiry com Gabriel e mais ninguém no terraço da Vila Bonita e ouviu dele e aceitou de pronto, as dez em ponto, o pedido emocionado de case-comigo e admitiu, sem constrangimento, mas com singelo recato, que o motivo maior da concordância em sentar-se à mesa no Bar do Cocota naquela manhã que já parecia longínqua não fora, em último caso, o propósito de repetir, coisa que já lhe enfadava e tirava a paciência, a sua desventura com Fulozinha nem a necessidade de desencalhar os seus labirintos, como deixara transparecer para confundir os circunstantes, porque isso ela poderia fazer mais adiante e em menos tempo seguindo o caminho inverso ao palmilhado pelos dois excursionistas, como até planejara, senão pela atração que a ternura e o queixume dos seus olhos negros e brilhantes lhe acendera.
          E Gabriel, sem confessar, porque já não nem fazia sentido, o seu disfarce de propósito, se advertiu de que estava equivocado na teorização dos universos ideais porque nos mundos reais do homem e da mulher sempre existiram pontes e ductos que se intercomunicam e que a história da humanidade é prova maior conformemente concluiu.
          O barman do deck da pousada, atento ao sinal combinado do engenheiro, apresentou-lhe o champanhe reservado à tarde, e os hospedes ouviram indiferentes o estouro que assustou a gata siamesa e a ave noturna que espreitava uma caça distraída logo ali, uma em cima da almofada da cadeira, por certo a gata, e a outra na copa de uma árvore que estava nos aceiros da mata que reveste a falésia e onde está entranhada com muita graça a Pousada Vila Bonita
          Naquela mesma noite, e sob o olhar de censura de isso-não-são-horas botado em cima da filha pela mulher religiosa e severa, e que o marido releva porque é uma recriminação há muito viciada e feita para desencargo de consciência ou para salvar as aparências, Seu Joaquim ouviu, de homem pra homem, o anúncio recitado do pedido de casamento, custoso para o engenheiro e inesperado para o ferreiro, e, entre as lágrimas que não caíram nem no dia em que Donna ameaçou deixá-lo e que agora a têmpera não resistiu, consentiu a bem-aventurança falando do amor sem tamanho e da admiração sem reservas que sempre alimentara por aquela filha única Maria.
          Depois parou de falar, mas não de chorar, como se o choro expressasse melhor e mais exatamente todas as emoções e todos os pensamentos contidos no universo da sua cabeça e derramassem mais copiosamente a sua benção generosa.
          E Gabriel parecendo ter entendido tudo também chorou alto e sem disfarce abraçado ao pai desolado de alegria que ele seria um dia.
Não seria correto dizer que a história do rapaz desorientado por Comadre Fulozinha não repercutiu nas vizinhanças da casa de Seu Joaquim, primeiramente, e depois em todo o Morro do Turana e na cidade, do mesmo modo como retumbou no caso de Maria, porque a passagem do mancebo pelos becos, praças e ruas da cidade atraía curiosos desconfiados e desejosos de abordá-lo, e também porque a presença de um grande número de mocinhas muito produzidas e perfumadas, e agora desencantadas, na Rua do Funil onde está a Vila Bonita que hospeda o engenheiro jovem e precocemente calvo tem chamado a atenção dos moradores do beco e até dos visitantes que exclamam boquiabertos, quanta mulher bonita, quando os olhos parecem apenas fotografar imagens novas comparadas às saturadas de outras plagas que já não açulam a atenção ou a libido dos exploradores.
          Contudo, a despeito das campanhas para que não se atirem lixo na mata, promovidas em nome do turismo ecológico e que evidenciam a coleta da sujeira para esconder crimes tão graves quanto, haja vista o dos motores em trilhas de floresta, um acontecimento, insignificante, ainda que com viés pedagógico, gerou uma distorção e intrometeu-se na história de Comadre Fulozinha para desassossego dos crédulos e de uma mãe zelosa da reputação da família e dos achegados com promessas de prosperidade que era bem o caso.
          Trata-se do boato maldoso, divulgado irresponsável e anonimamente, segundo Donana, agora zelosa, a propósito de umas latinhas vazias de cerveja, recolhidas próximas à Lagoa do Capitão por um grupo de alunos excursionistas do Colégio Águida Sucupira no mesmo dia e não muito distantes do sítio em que Nestor encontrou o engenheiro sozinho, é bom que se ressalte, e desorientado.
          Um diz-que-diz, aliás, que se não impingiu irreparavelmente uma fama de cachaceiro ao engenheiro civil, desorientou a Associação dos Catalogadores de Aparições e de quebra desviou da mídia o prestígio da manifestação da visagem, porque os linguarudos, como interpretam muitos, e Donana também com inatacável convicção, forçam maldosa e propositadamente uma relação entre os fatos que para ela são totalmente estanques como quem pensa, mas não diz por que não é desbocada, o que é que tem o cu com as calças.
          Não se pode dizer também que o encontro do engenheiro, molestado por Fulozinha, com a moça dos bordados esmerados e igualmente amolada pela menina dos aceiros das matas, não fora romântico tal-qualmente fora idealizado pelas mulheres curiosas e viciadas em folhetins televisivos, autodispensadas das próprias intransferíveis, inesgotáveis e repetitivas fainas domésticas, que se aglomeraram nas calçadas irregulares da ruazinha arenosa e descuidada do Morro do Turana, na manhã do dia em que o engenheiro chegou trazido pelas mãos do menino-guia, mas promissor conforme decidiu em última instância a assembléia das alcoviteiras frustradas – porque um dia sonharam com um partido alentador, como por vezes se atrevem a apregoar para aporrinhar a paciência e mexer com os brios dos pobres maridos pobres – e relaxadas com os seus afazeres, como acrescentam e propagam e difamam as línguas viperinas das que se privam, com uma secreta, mas indisfarçada ponta de inveja, daquela reunião, e que, como recompensa de tão incomensurável sacrifício, granjeiam para si uma aura virtuosa de honestidade e de retidão que usam como máscara irremovível ou escudo inexpugnável para se colocarem acima de qualquer suspeita, sobretudo em matéria de fidelidade conjugal e de dedicação ao lar.
          Quando Helena, com entusiasmo nos olhos grandes e verdes, contou a Elita os dois ataques recentes de Comadre Fulozinha, a professora aposentada, com ares de intimidade com a visagem da mata que molesta os incautos e com um sorriso de desdém indisfarçável, deu de ombros e resmungou um único comentário:
          – E agora ela deu pra casamenteira também, foi?

Cuidado com Cassiano - Conto

  Dario Franco


 

      Durante anos guardei comigo, sem nunca tê-los examinado, uns manuscritos que Seu Torbo me presenteara, junto com um baú de madeira entalhada, bem antes de morrer em 1982.
      Somente agora vi que naqueles papeis estavam uma extensa lista de nomes de árvores e de animais da Mata Estrela, cartas para destinatários não identificados e por isso mesmo nunca expedidas, registro de fatos e situações que vivera e histórias que ele escrevia e que eu o vi, inúmeras vezes, manipulá-los e acomodá-los, num rolo atado com um barbante gasto, atrás de um quadro do Coração de Jesus suspenso na parede da sua sala de visitas.
      Para ser direto, foi, talvez, por falta de curiosidade e por preguiça mesmo de me debruçar sobre uma tarefa que exigia paciência e leitura atenta, que nunca me detivera sobre aquelas garatujas amarfanhadas escrita em papel ordinário, desordenadas e agora corroídas pelas traças e cheirando a bolor.
      Quando o conheci ele já era um homem maduro, viúvo e cercado de netos e por alguns anos fomos vizinhos na Rua da Cacimba.
      Tinha vida abastada e administrava o seu razoável patrimônio com aplicação e zelo quase religiosos.
Seus hábitos eram a um só tempo simples e curiosos. Além das cigarrilhas que mandava vir do Recife e das sonatas barrocas que gostava de ouvir ao anoitecer, aquele gentil homem também apreciava recontar as histórias fantásticas e experiências sobrenaturais que ouvia dos moradores da cidade.
      Baía Formosa, a cidade onde vivíamos, e isso já faz algum tempo, é um nicho humano alojado entre o Oceano Atlântico e a Mata Estrela. E eram esses dois mundos que proviam o sustento do seu povo, organizavam e definiam uma hierarquia social. Os que dominavam os caminhos do mar eram os mestres, e mateiros os que conheciam e guardavam com segurança os traçados da floresta. Esses saberes colocavam os seus detentores no topo da pirâmide social junto aos professores e por isso também eram reverenciados.
Seu Torbo tinha as duas ciências, embora fosse na mata onde se sentia no seu elemento natural, como me reiterou incontáveis vezes.
      Por aquele tempo a Mata Estrela ainda estava mais ou menos inteira, apesar da exploração do pau-brasil pelos franceses até por volta de 1760.
     Recentemente pedi à Milena, minha colaboradora, que me digitasse um daqueles textos guardados por décadas que ela analisara, a meu pedido, e que lhe parecera surpreendente conforme comentou. Ela me disse que teve o cuidado de atualizar a ortografia. Mas, que não alterara uma linha do documento original datado de 1931.
      Feita essa apresentação que julguei pertinente, eis o escrito como Seu Tertuliano, esse era seu nome verdadeiro, me confiou:
      É junho. Chove muito aqui na praia. O céu parece até que se emendou com o mar. Há três dias ninguém daqui desta Vila sai para a pesca ou para a caça por causa desse tempo. Amália, minha esposa, prepara o almoço – é voador no coco, refogado de chuchu e calambica – e as crianças, confinadas em casa por causa do toró, improvisam artes e cantigas.
      Aproveito, então, esse tempo de aguaceiro intermitente para escrever.
      Assim, compartilhando essa história com alguém que possa compreendê-la e me emprestar conforto, espero aliviar o meu espírito de uma agonia que há alguns anos me consome.
      Não julgueis que seja tão simples aceitar a perda de um bem que já se vê seguro e que se nos escapa por entre os dedos, misteriosa e inexplicavelmente, e nos deixa a sensação de termos sido incapazes ou sem astúcia.
       Também não avalieis que seja igualmente fácil entender a morte inexplicável de um homem enigmático como Cassiano que não se deu a conhecer nem no remate da sua vida. Mas, rogo a Deus, com todo o meu fervor, que a cobiça não se apodere da cabeça de quem vier a ler este relato.
Sempre estive atento aos sonhos. Certamente eles existem para nos sinalizar fatos que nossos sentidos, enquanto despertados, não percebem por incapacidade ou desatenção. No sono, é assim que eu penso, a nossa alma está liberta do jugo dos sentidos. Sempre bebo água antes de dormir, por exemplo, para que a sede do corpo não interfira na vigília da alma. E também estou convencido de que as almas dos que já morreram também nos visitam enquanto dormimos e nos dizem coisas e nos mostram outras, porque esse é o estado mais próximo ou o que mais se assemelha ao deles. Minha mulher ri dessas coisas e não as leva a sério.
      Mas então, não sabeis que há sonhos confusos que ficam na memória como lembranças sem palavras e que nós nem sequer conseguimos contá-los ao acordar? E não havereis de concordar que há outros que são totalmente claros a ponto de os confundirmos com a realidade? E que ainda há outros que voltam sempre, ou pelo menos temos essa impressão? Pois, eu mesmo tenho um que me visita desde a meninice e sobre o qual eu sempre estive atento procurando decifrá-lo.
      É assim! Sonho com um lugar que me é familiar. Há um caminho sobre um talude margeado por uma vegetação rala e empoeirada e, à direita desse barranco, há uma lagoa ou uma represa crivada de juncos com gente alegre a se banhar.
      Acordado, repasso na memória os lugares que conheço e não encontro aquele do sonho e me indago: o que esse sonho quer me dizer? Mas, não é isso a causa da minha dor.
      Era uma noite de junho quando aquele sonho voltou. Mas, daquela vez foi diferente. Ele tinha um componente novo: uma voz. Sim! Uma voz. Pobre de mim! Não sabia eu que ali começava um ciclo de desgosto que se arrasta até hoje.
      Acreditai! A preleção que ouvi foi clara como dia, veemente como as ordens ríspidas dos capatazes dos engenhos e grave como os trovões que reboam agora nos céus deste vilarejo lamacento e pacato.
      Despertado pus-me imediatamente à tarefa de escrever o anunciado que na minha memória estava vivo – creio mesmo que por obra do sobrenatural, pois minha memória nunca foi prodigiosa – e o transcrevo aqui, sem medo de engano, palavra por palavra, o que a voz de timbre metálico pronunciou em tom melancolicamente cadenciado e com toda limpidez:


            Abre tua mente e fica atento ao que te dou.
            Amealhei, por pacto vil, fortunas tais,
            Que gozei tudo, cresci gula, desdenhei.
            Corri cidades, neguei pão, juntei-me aos maus,
            Comprei juiz, matei venturas, tripudiei.
            Findado o tempo, a danação, a vida a vau,
            Com pedras d’água local certo remarquei,
            E acorrentado a palmos sete ’stá o baú
            D’ouro completo o meu tesouro abandonado.
            Nas trevas em que vivo sem esperança
            O mimo sepultado aumenta a dor, o mal.
            Por isso, dou-te sem resgate ou algum vodu.
            E tua alma boa fica livre, sem revés,
            Para que brindes uma vida afortunada
            No mundo onde se pena em vão, à toa.
            De duas alças é o pilão que assinalei
            No fastígio da falésia, as Barreirinhas,
            Caminho atravessando entre Sagi sem vão
            E a cidade elevada que é Formosa.
            Descansa nele uma corrente que descai
            E que ta dou sem revelia por sinal.
            Junho é o mês de arrancar o tal tesouro
            Pois, não é lenda que subir os sete palmos,
            Os escondidos tesouros enterrados
            Afloram nesse mês por desespero.
            E a noite certa deve a Lua presidir,
            Astro que enquadra o cosmo e alinha a Terra ao Hades.
            Da legião dos demos que o protegem
            Pertence Cassiano, intruso que se esmera,
            E ronda a espreita do feliz que o resiste.
            Cuidado não te falte, pois vive a fera,
            Em pós anos a seguir o contemplado
            E frustrar quer a empresa a qualquer custo.
            Se já não tarda o iminente desenlace
            Cassiano morto vai o bem para outro dono,
            E perpetua assim a dor que me renega.
            Pergunta, pois, alguma não me faças.
            Com Cassiano pouco é o cuidado que t’assiste.



      Acordei assustado e desesperado com o inusitado daquele sonho. Agitado, vi o dia amanhecer, o Sol subir até o zênite e descambar para o ocidente, ouvindo o martelar daquela voz que, mesmo no sonho, me pareceu de uma alma penada.
      E sonhos não são apenas devaneios como muitos querem. Embora eu já tivesse advertido sobre a posição de minha mulher a respeito dos sonhos, qual seja a de não levá-los tão a sério, ainda assim, contei a Amália aquilo que ela chamou de alucinação e, por isso, decidi esquecer ou não conversar mais sobre o assunto. Ora, eu sei que a compreensão do mundo de Amália está muito além desse universo real em que vivemos, mas está contaminado de apreciações que o negam.
      Os anos de escola lhe inspiraram idéias da moda iluminista, por isso, ela expressa a miúdo, quase sempre para o meu desencanto, opiniões divergentes, sobretudo a respeito das coisas do mundo sobrenatural.
      Sete dias depois, e não tenho receio que digais que sete é conta de mentiroso, exatamente uma semana, insisto, quando dormia nas primeiras horas, ouvi, com a nitidez de um dobre de finados num campanário no silêncio rural, a voz triste e desesperada que me repetiu: Com Cassiano pouco é o cuidado que t’assiste.
      Menos assustado que da primeira vez, retomei o sono e ao alvorecer, depois de tomar um café quente preparado no fogão à lenha, aprontei os arreios na mula Pioneira, acendi uma cigarrilha e parti para a Mata Estrela. Iria caçar duas ou três perdizes e tirar umas varas que empregaria na reforma de uma das paredes da cozinha, estragada pelas chuvas do inverno que findava.
      Voltei à tardinha.
      Porque as lagoas estavam muito cheias em decorrência das chuvas que caiam desde os fins de abril, sem opção, mas não sem desconfiança, tive que voltar pela trilha que vara nas Barreirinhas. Ora, esse caminho eu sempre fizera por considerá-lo mais aprazível, mesmo quando, em algumas circunstâncias, não era o mais curto. Por que agora meu instinto pedia que o evitasse quando ele se apresentava como alternativa única, enquanto minha curiosidade exultava e me atiçava a percorrê-lo?
      Chegando às Barreirinhas tive uma surpresa que me fez soltar o bisaco que trazia na mão com as perdizes que caçara, não para me desincumbir do fardo que era leve, mas pelo susto que o esbarrão travado e o relincho de Pioneira me provocaram.
      Por Deus acreditai! Vi um monte de pedras características das que afloram no mar daquela área, e sobre ele, e este foi o motivo da acuação da mula, estava sentado Cassiano, um conhecido que mora no Sagi.
      Meu Deus! Como não tinha me lembrado dele depois do primeiro e do segundo avisos da voz? Sim! Cassiano. Esse é o único que eu conheço nestas redondezas.
      Ora, Cassiano é um pescador de jeito ardiloso, de fala entrecortada e de olhares esquivos e incômodos.
      Sobre esse pescador contam-se histórias fantásticas de poderes sobrenaturais que ele carrega. Apesar disso, eu nunca me esforçara para entender a origem dessas maledicências que corriam no povoado a respeito desse homem com quem eu mantinha poucos e raros contatos. Dizia-se, por exemplo, não sem se pôr nisso uma boa doze de mistério e de velada censura, que Cassiano tinha o estranho poder de estar presente ao mesmo tempo em lugares diferentes. Ora, isso me cheirava mais a privilégio e nunca o julguei merecedor de tal. Mas, aquele encontro ali seria, então, a manifestação dessa lenda? E as pedras naquele local seria a sinalização da cova onde fora enterrado o baú do qual a voz falara?
      Em casa, esforçando-me para seguir uma argumentação racional, pois só assim poderia interessar Amália pelo tema, tentei ligar o aviso da voz ao lugar presumível donde estaria o baú, o monte de pedras recolhidos da maré e o encontro com o tal Cassiano. Recitei de cor para ela a mensagem do sonho destacando cuidadosamente os trechos que pareciam, no meu entender, dizer respeito àquele encontro inesperado. Busquei, enfim, sensibilizá-la para uma adesão à minha causa.
Todavia, sem demonstrar nenhum entusiasmo pelas minhas alegações, Amália pensativa e tolerantemente, no seu jeito natural, olhando-me nos olhos, e o seu olhar não expressava impaciência, mais parecia de piedade, me aconselhou mais uma vez:
      - Homem tira essa ilusão da cabeça. Nesta revista – e mostrou-me o exemplar número quarenta e dois da Revista Científica que chegara desde a última entrega dos Correios e Telégraphos no mês passado, – li um artigo sobre sonhos, em que se falam dos estudos sobre esse fenômeno que estão sendo feitos em Viena por um médico jovem. O articulista diz que o doutor Sigmund parte do princípio de que tudo o que sonhamos já está dentro da nossa cabeça. É um desejo que nem mesmo nós sabemos bem. Levantou-se, me abraçou daquele jeito que ela sempre faz quando não quer mais debater ou também quando não lhe interessa o tema e aproveitou o ensejo para guardar na estante um compêndio grosso que estivera a folhear e para acender o candeeiro do corredor porque o resto do dia já se fora enquanto conversávamos.
      Durante quase um ano não toquei mais no assunto. Mas, agora que se avizinhava o São João, tomado por um forte e repentino interesse que me fez quebrar o propósito de olvidar a visagem – não creio que fosse ambição o meu empenho –, fui ter com Joca Professor no Sagi disposto a contar-lhe o sonho e lhe pedir ajuda. Queria dele mais do que a cumplicidade e o aval para as minhas convicções, desejava também as rezas que ele aprendia com o vigário da Penha quando o ajudava na celebração das missas mensais nas capelas do Sagi e da Formosa. Fórmulas sagradas para eu me suceder bem naquela empreitada, livrar a minha alma das armadilhas do Maldito e o corpo das bisbilhotices de Cassiano. Precisava de rezas como a que ele dera a seu pai para livrá-lo de um desafeto que morava na Pituba e que ele usou e que logrou vitória. Queria, enfim, a cópia do salmo, e essa foi a fórmula, que rezava o ab hómine iníquo et doloso érue me do qual eu não sabia o número, nem de cor o seu teor completo.
      Acertamos para a lua cheia daquele mesmo junho, como recomendado pela voz do sonho – “E a noite certa deve a Lua presidir, Astro que alinha o cosmo enquadra a Terra, o Hades.” –, minha incursão em busca do baú cheio de ouro. Lembro-me bem, era o dia vinte e cinco. A caminho, vi e a Lua que vinha rebentando por trás das dunas recobertas de cajueiros, imponente e completa. Joca, que estivera atento aos passos de Cassiano, informara-me, ainda pela manhã, que, como estava previsto, o intruso rumara mesmo por mar para Cabedêlo na madrugada daquele dia.
      A oportunidade estava dada e a sorte lançada como se dizia antigamente. Já próximo da meia-noite estava eu subindo a falésia das Barreirinhas quando avistei, a cerca de dez metros, denunciado pelo clarão da Lua, o vulto de um homem, envolto numa fumaça branca, sentado exatamente sobre as pedras que marcavam o presumível local da rica botija. Não me envergonho, minhas pernas fraquejaram. Acudiu meu pensamento um valhamedeus que foi mais um grito preso pelo pavor do que uma oração no peito de um aterrorizado, e no instante mesmo em que eu rogava a proteção divina ouvi a voz mole e cavilosa de Cassiano:
      - Fazendo o que aqui a ess’hora da noite? Caçando escaravelho em grota d’invernada?
      E com jeito dissimulado, e a guisa de justificação, sem esperar minha resposta, lá mesmo sentado, ele tomou a iniciativa de me dizer que uma pane no barco o fizera ficar à deriva por todo o dia e que há menos de uma hora dera ali na praia das Barreirinhas; que estava descansando, antes de rumar para casa à cata de meios para o conserto do barco, e pensando qual a providência que tomaria para deixar a embarcação em segurança naquele porto imprevisto e de poucas condições. Enquanto ele falava, eu me mantinha a uma distância de uns dez metros e vi surgirem, por trás dele, dois homens que eu julguei serem pescadores que também tripulavam o barco agora avariado. Pareciam exaustos e inquietos e não trocaram nenhuma palavra, além de um formal boa noite dado de longe. Até hoje não sei quem eram eles porque nunca os reconheci.
      A advertência reiterada da voz, “Com Cassiano pouco é o cuidado que t’assiste” ganhava, naquele instante, uma dimensão que eu não calculara ou não previra ou não entendera. Cassiano parecia, na sua vigilância, orientado ou protegido mesmo por uma força sobre-humana. E me acorreu à mente a revelação da voz: “Da legião dos demos que o protege pertence Cassiano, intruso que se esmera e ronda a espreita do feliz que o resiste.
      Pois, a pane no bote, a correnteza que o levara até ali, quando era muito mais factível que ela o desviasse para Pirangi do Sul, e a presença dele naquele lugar e naquela hora não pareciam obra do acaso.  
      Então, desconversei como o nervosismo que o inesperado me permitiu. Mas, o intruso tinha um riso de mofa que eu ouvia a intervalos, como se adivinhasse o meu verdadeiro intento. Incomodado por aquele riso insinuador, baixei os olhos, me virei e dei-lhe as costas fingindo um súbito interesse por alguma coisa que chamasse minha atenção no mar. Mas, imediatamente, como se o seu corpo não estivesse submetido às das leis da física, Cassiano, que até então não tinha se levantado do monte de pedras onde o encontrei sentado, surgiu na minha frente no instante mesmo em que eu levantava a vista. Pensei que era miragem ou que eu estava perdendo o senso. Despedi-me apressado e rumei para casa e durante todo o trajeto não ousei por nada olhar para trás. Estava apavorado.
      Está claro que desisti do empreendimento por aquela vez.
      Confesso-vos que fiz mais duas tentativas, sem sucesso é preciso que eu diga, de lançar mão da fortuna que ganhara sem comprometer a minha alma. Mas Cassiano, o “intruso que se esmera”, era tão real quanto a voz que me advertira contra o fuçador.
      Dizem que as crianças afugentam os espíritos dos invejosos. Então, na última vez que tentei tirar a botija, sob os protestos racionalistas de Amália, levei a minha pequena Gasparina, cuja inocência poderia me servir de escudo contra a perseguição daqueles que me rondam e me espreitam para frustrar o meu intento.
      Mas, ai de mim, a caminho das Barreirinhas, pouco antes do Bacupari, já quase às dez e meia da noite, deparei-me com Joca Sacristão que vinha para a Formosa buscar socorro para Cassiano que caíra doente repentina e misteriosamente e parecia até agonizar.
      Homem, será o Benedito? Pensei com os meus botões. E decidi: é agora ou nunca. Escanchei minha filha nos ombros e apertei o passo pela praia de maré cheia. Quando deu onze e meia da noite eu estava ao pé das Barreirinhas e vi, pela primeira vez, o pilão de alças que a voz me dera como sinal e a corrente[1] que, saindo do ventre da falésia majestosa, se derramava nele.
      Nunca duvidara, Deus é testemunha, mas aquela visão como que sepultou qualquer resquício de incredulidade que por ventura tivesse sobrevivido em mim. Iniciei a subida pela encosta sul e já bem próximo da meia-noite eu aguardava, no cimo da Barreirinha, ao lado das pedras trazidas da maré, só o encontro dos ponteiros para o serviço final. Depois dali eu e os meus descendentes teríamos uma existência abastada sem o comprometimento da minha alma.
      Embora a lua já fosse alta, o vento ainda açoitava forte, e a minha menina reclamou do frio. Abriguei-a na japona quente e a protegi entre as minhas pernas.
      Dessa vez, tudo parecia tramar para o sucesso. O intruso não apareceria ali. Estava prostrado. Que Deus me perdoe a má palavra.
      Mas, maldição das maldições! De repente ouvi na noite enluarada um tropel crescente de burros e uma algaravia de vozes nervosas e de risos descontrolados.
      Eram Pedro, Tiago e João de Akika que iam para a mata tirar uma peça de cupiúba ou bambu para servir de calão à rede em que seria levado o corpo de Cassiano que acabara de passar dessa pra melhor.     
      Persignei-me mecanicamente três vezes, não sei se por reverência à morte, ou porque estava diante de um acontecimento que me pareceu estranho ou diabólico mesmo.
      – O negócio foi feio! Foi um berro alucinado que se ouviu lá no Guajú e em seguida um suspiro comprido de quem parece que não queria ir e que o fez sentar-se alvoroçado de olho arregalado, mas bateu de volta como se tivesse sido puxado, murchando logo, feito um balão sem vento. E acabou. Pedro noticiava a morte do pescador ainda admirado, querendo ouvir, talvez, um issoacontece que se diz quando falta assunto, ou alguma coisa que lhe desse a compreensão do incomum assustador. Mas, nem o assombro que aquele jeito esquisito de morrer causara naqueles homens e em mim mesmo me tirou do letargo que a decepção cravara no meu rosto.
      Ofereceram-me da pinga que levavam e partiram. Acredito que seguiram convencidos de que o meu desapontamento vinha também do sentimento pela morte do abelhudo.
      Como para exorcizar o azar ou retomar o curso normal da vida, de costas para a corrente do vento forte que açoitava, protegendo com o chapéu a chama do fósforo, acendi uma cigarrilha e baforei para me aliviar.
      Uma gigantesca nuvem espessa tampou a lua e barrou o seu clarão como se estivesse a passar um pano no passado, e o mar completou o ciclo de sete ondas e parou um átimo tempo para, quem sabe, virar a página dessa história.
      Na sua delicada candura, minha filhinha Gasparina atirou-se ao meu pescoço e, depois de um suspiro profundo e sincopado que estivera preso no peito por força da tensão, disse melancolicamente como se entendesse toda a extensão do meu vexame e do meu desapontamento:
      - Fica triste não, papai. Quando eu crescer eu venho tirar essa botija pro senhor.

[1] Dizem que o líquido ferruginoso que escorre, até hoje, pela falésia das Barreirinhas, seria dessa corrente de ferro. Nota da digitadora.