quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Comadre Fulôzinha - Conto

        




          Desceram as escadas irregulares da pousada intrometida ali nas dunas e rumaram apressados pela beira da praia saturada de sol do verão tropical, como meninos que escapam da tirania das mães.
Fugiam do ritmo frenético que o roteiro, rigidamente cronometrado, impõe aos excursionistas; da voz histérica do guia nervoso e suado que recitava informações em tom monocórdio e gritava os avisos sem desgrudar o olho do relógio ao modo de um cacoete; de um cardápio mal afamado que cheirava a conchavo comercial entre agenciadores e hoteleiros; das moscas azuis que zumbiam nas lixeiras apodrecidas e repugnantes de fetidez; e dos bugueiros insistentes e inoportunos que se esgoelam por uma atenção negada.
          Duas horas até retomar o convívio com o grupo, formado em sua maioria por profissionais liberais em férias, pareceram-lhes suficientes para mudarem o cardápio dos temas burocráticos fatigados, reanimarem o humor vitimado pela rotina e saciarem a curiosidade de um viver simples que na urbe se habituou imaginá-lo sossegado ainda que indesejado porque tem mais inconveniências do que simplicidade e mais tédio do que sossego, como ajuízam os viciados em poluição sonora e anonimato urbano.
          Apresentaram-se porque não se conheciam e se souberam Gabriel, engenheiro civil e Miguel, programador de dados, como poderiam ter se dado a conhecer médico e advogado se tivessem, num passado recente, acatado os apelos a que seguissem as profissões paternas. Pelas mães foram nominados de arcanjos e na pia confirmados, mas isso circunscrevia momentaneamente as semelhanças entre eles, não fosse já o fato de estarem numa mesma viagem e em busca de uma mesma satisfação posta comercialmente em promoção por uma agência de viagem.
          Poderiam ter seguido até ao porto na Baía de Aratypicaba, mas sentaram-se no Bar do Cocota, ou porque foi o primeiro restaurante aberto que encontraram à beira mar, ou ainda porque o conforto da sombra bem-vinda e da brisa fresca sugeriram uma estação nessa via lúdica de céu muito azul, de areia e de pedras salgadas de mar, e ali instalados olharam e conversaram a partir dos eixos dos conhecimentos teóricos adquiridos nas aulas das cadeiras específicas das profissões e nas leituras e conferências oferecidas pela escola, e que enfocam aspectos sócio-políticos da realidade do mundo globalizado.
          Um opinou sobre o jeito da arquitetura daquela rua de casas que só se abrem no verão, como informou o menino passante porque passava e também porque sequer foi identificado pelos perguntadores, e considerou aquele estilo indefinido e feio, e que se fosse para adjetivar, ponderou o um que falava, o modernoso bem que caía como uma luva; o outro discorreu sobre o que ele chamou de bolsões isolados das comunicações globalizadas que avermelham os mapas a título de demarcar as zonas insuladas e que parecem indicar cuidado não se aproxime; depois os dois teceram comentários a propósito das condições infra-humanas da vida e até dos serviços públicos essenciais negados aos que estão do lado de baixo da faixa dos que detêm as riquezas; ainda se arriscaram a ensaiar sobre a filosofia da exclusão compulsória a que estão condenados os marginalizados da tecnologia e do progresso nascida aquela do neoliberalismo, como assentiram enraizá-la porque é leitura em voga, e por fim, diz-se assim para terminar esse brevíssimo rosário de temas, se advertiram entre risos de que apenas reciclavam a temática viciada, da qual adredemente tentavam escapar, a toa como se viu, embora, se justificaram, pudessem interpretá-la também como um exercício de enquadramento do teórico com o real que estava bem ali para ser lido mesmo de acordo com os modelos e nos parâmetros da academia, como concluíram em completa e satisfatória sintonia.
          Por isso, olharam para o mar e, sem instrumental teórico que lhes abalizasse os discursos, porque tudo isso foge dos exames acadêmicos dos cursos que freqüentaram, apenas contemplaram, sem palavras, o tráfego dos banhistas na areia, os barcos pesqueiros que chegam ou partem, os surfistas que treinam suas habilidades para o próximo circuito e o cerimonial de alongamento de um grupo de jovens sarados que vai jogar vôlei daqui a pouco e que nunca freqüentará os pódios, como secretamente pensam, com cara de penalizados, ou de viajantes observadores.
          Clientes únicos naquela manhã de terça-feira, além da exclusividade de um serviço aprimorado e amador, tiveram a companhia, à meia distância, dos nativos desocupados que olham calados os movimentos dos estranhos e nem se esforçam por escutar as conversas que não querem entender porque preferem a apreensão imediata do mundo sem palavras.
          A menina-moça que se aproximou da mesa dos dois viajantes e que acabou convidada a sentar-se com eles, não pediu um real como é costume se fazer aqui, mas exibiu labirintos aprimorados em panos enxovalhados pelo manuseio e pela recusa dos turistas esquivos e sem tempo.
          Com a delicadeza e a atenção que não tiveram seus anfitriões ao se desobrigarem do exame, ainda que desatento, dos seus bordados, ela recusou cordial e graciosamente o refrigerante oferecido como uma esmola inconveniente ou uma recompensa descabida, e empregou estrategicamente seu tempo com os estranhos dando a entender, o que lhe pareceu sábio, aos circunstantes desocupados que apreendem a realidade imediata que o fazia na esperança de interessar aqueles turistas pela sua arte, e nada mais.
          A cabeça da jovem, coberta, à moda dos ícones católicos, por um vistoso lenço de seda vermelho brilhante que contrastava miseravelmente com o jeans roto que ela trajava e com a camiseta já puída de malha branca vagabunda que fora doada por um candidato vitorioso da última eleição municipal e que caía leve sobre os seios castos e quase prontos, a cabeça, retoma-se, não passou despercebida aos dois fugitivos curiosos. Menos porque aquele pano lhe emprestasse uma graça artificial e incomum e acentuasse as maçãs proeminentes num rosto belo porque adolescente, senão porque o tecido destacava um crânio irretocável e, longe do seu papel de dissimulador, delatava, por causa do seu caimento definido, a ausência completa dos cabelos da menina-moça.
          Com os braços sobre a mesa nua e envolvendo a caixa revestida de papel camurça azul fosco em que guardava sua mercadoria ou o seu tesouro, Maria, como se apresentou, instada pelo engenheiro jovem e muito precocemente calvo, falou da ausência dos seus próprios cabelos longos e sedosos como gostaria de ter discorrido sobre a precisão matemática que exige a retirada dos fios de um tecido para que se produza um bordado perfeito e bem acabado como os seus; lastimou, com o olhar fixo nos olhos negros de Gabriel, a perda do namorado José que não a quiz descaracterizada, como uma mulher solitária se culpa pela sua incompetência inominada; descartou a quimioterapia sugerida compassivamente; de olhos abaixados de vergonha negou uma infestação de piolhos aventada jocosamente e rechaçou altivamente a venda das madeixas às cabeleireiras dos salões de beleza improvisados dos bairros pobres, dada a entender por Miguel, o programador de dados, com a mesma veemência que usaria para negar-se suja ou impura ou faminta; depois detalhou, com aparente enfado, o entrançado nodoso e perverso feito nas suas mechas, antes cuidadosamente escovadas, e atribuiu a autoria à Comadre Fulozinha, a menina-entidade que vive nos aceiros das matas, como um acidentado repete para os curiosos o motivo da clavícula engessada; repercutiu, a contragosto, a absoluta impossibilidade de ter desembaraçada sua cabeleira basta e castanha, em que pesem os óleos e os sabões sugeridos pelas amigas para desfazer o entrançado, e da drástica, irrecorrível e desesperada sentença que é cortá-la rente ao coco, com a resignação própria dos que vivem sob a influência divinal; marcou, olho no olho do engenheiro, sua inquestionável inocência e insistiu no castigo injusto, como queria ter se debruçado sobre seus sonhos de menina-moça; e, ante a incredulidade discreta que se esboçava nos rostos barbeados dos seus inquisidores, ilustrou seu infortúnio reparável com outras diabruras que Fulozinha protagoniza, e enumerou o caso de Canjinha que se escondera em Cabedelo até que seus cabelos tivessem o jeito e o tamanho das cabeleiras femininas; o trançado feito nas crinas e nas caudas dos cavalos que erram pela mata; as surras de cabelo dadas nos cães farejadores; os silvos fortes e quase insuportáveis que ensurdecem e alucinam os caçadores e, por fim, discorreu sobre a desorientação que ela inflige às suas vítimas e que as faz caminhar perdidas indefinidamente em círculos na floresta.
          Queria com isso reafirmar a maldade inconseqüente daquela assombração e ressaltar sua completa inculpabilidade e o acaso que a escolheu porque, como desde sempre, dormia em casa na noite que a menina travessa, a visagem sem peias, se esgueirando pelas frestas das portas, consumou seu delito por pura diversão e a obrigou a desfazer-se do seu ornamento e a expor um rosto sem moldura, e nem por isso menos belo, como verdadeira e instantaneamente anunciou a Maria o jovem engenheiro careca a quem ela escutou atenta e jubilosa porque achou que nas palavras de Gabriel já tinham, naquele instante, a lavra da boa nova como lhe pareceu convir a um anjo que deveria carregar também a mesma fama do mensageiro seu xará.
          Quando Maria deixou o Bar do Cocota com a sua caixa agora esvaziada de mercadoria e seu tesouro na pequena sacola que trazia a tiracolo, Sagi, o garçom descalçado e risonho que não parara durante todo o serviço, avalizou e reafirmou para os dois clientes pensativos a história de Maria com a mesma unção com que os ministros cristãos presidem aos sacramentos e noticiou orgulhoso e enfático a premiação que a moça recebera no festival regional de bordados que se faz em setembro, para abonar a excelência da mercadoria rara adquirida e que, por certo, completou ainda o garçom, agradaria a qualquer pessoa de bom gosto. E a sua ponderação pesava porque além do mais tinha a autoridade de professor de arte e de artesão também, como mostrou cabalmente aos dois clientes.
          No ônibus que ainda corria em meio à paisagem monótona do canavial, e que um João, neto de um Cabral de Melo, juntado-a ao vento para quebrar a constância descobriu que “se venta no canavial / estendido sob o sol, / seu tecido inanimado / faz-se sensível lençol”, Gabriel e Miguel já repassavam entre si os detalhes da narrativa de Maria e se detiveram na convicção exacerbada da adolescente na crença do seu universo mágico conforme preferiram adjetivá-lo, mas não conseguiram entender o sem alicerce daquele mundo ou a seqüência algorítmica ambígua que redunda numa edificação complexa e incongruente ou num programa lógico, embora paradoxalmente indecifrável. Para o programador de dados os universos da ciência e o da magia pareciam ser excludentes e irredutíveis porque condenam ao isolamento e à incomunicabilidade recíproca os que estão afundados neles. Sentenciou ainda que o conhecimento crítico, diferentemente do ingênuo, progride e se distancia cada vez mais do seu pólo contrário. Por isso, conclui enfático que o abismo, tendendo sempre a aumentar, impossibilitaria a inclusão dos que vivem no campo da ingenuidade, no universo dos que operam sob o primado da razão, e isso, concluiu socraticamente, perpetuaria a infelicidade humana que é o dessaber, responsável pela miséria dos países e dos povos limitados por ele.
          O engenheiro civil não discordou apenas para fazer a conversa fluir, mas porque se incomodou com as idéia de exclusão e dos abismos dos mundos, e indagou, tentando introduzir um argumento novo, e, à guisa de raciocínio, se não estaria o universo mágico alicerçando o edifício da ciência desde tempos imemoriais ou se o saber crítico não estabeleceria pontes entre os mundos, ou se a emoção, por exemplo, não seria um ducto ou ponte para a intercomunicação das gentes que não estariam isoladas, embora circunscritas em espaços diferentes? E amenizou a contra argumentação anuindo quanto à responsabilidade da ignorância pela pobreza dos povos e disse sim senhor com isso eu concordo porque já li sobre essa tese em algum lugar.
          Dois meses depois, conduzido por um cicerone catado a esmo na Praça dos Pescadores e que se dispôs solícito, mediante uma promessa de gorjeta, a ensinar a casa de Maria, filha de Seu Joaquim, o ferreiro, como ficou identificada pelo menino passante, agora guia, Gabriel visitou Maria e anunciou o seu pretexto de conversar sobre a lenda de Comadre Fulozinha, de quem acabara de conhecer os malefícios porque vivera na pele a experiência, e tentar, agora com fundamento, sim senhor, edificar para si mesmo a teoria dos dois mundos distintos e irredutíveis em que ductos e pontes acessam e interpenetram as culturas, como os canais levam água de um aqüífero saturado para sítios áridos ou uma conexão articula pontos separados.
          Os cabelos aloirados que já começavam a cobrir o crânio irretocável de Maria já podiam dispensar, ao menos no recesso de lar, o lenço de seda e destacavam o riso de dentes brancos que a fazia mais bela como Gabriel lhe diria mais tarde e a sós e que ela ouviu examinando os olhos negros emoldurados por pestanas abundantes e encurvadas que ela vira pela primeira vez não fazia muito.
          - Você aqui?
          Maria, enquanto enfiava a agulha num pano preso à armação de madeira e que a manteve segura na mão esquerda, se perguntou o porquê aquela presença ali, porque não estava conformada à intenção anunciada ou porque, quem sabe, preferisse outro propósito que lhe dispensasse das lembranças amargas que atraem a tristeza e desse a ela a chance de desentocar os seus bordados ou, o que seria melhor, falar do que abundava, fazia dias, no seu coração já despertado para a vida e para o amor.
          Mas, interessou-se vivamente, embora guardasse um riso de acomodação e um olhar enfadado, quando Gabriel lhe disse que estava na cidade fazia três dias dos quais um se recuperando das horas intermináveis andando em círculos na Mata da Estrela até ser resgatado, faminto, sonolento e desolado, por Nestor, o mateiro que ele agora disse conhecer e que o descreveu como o que colhe cajaranas doces, identifica e seleciona sementes e porta um amuleto que não revela qual seja e que o defende dos ataques constrangedores de Fulozinha, segundo afiançaram a ele, convictos, muitos habitantes da cidade e que agora Donana, a mãe severa, religiosa e neste momento intrometida de Maria, confirma que é isso mesmo e que ele mora na entrada da cidade e decifra de chofre o enigma do amuleto dizendo que é rolo de fumo mesmo que ele doa a Fulozinha em troca de recompensas da menina-entidade e que em troca o livra de humilhações e enche seu bornal com variedade e qualidade destacada de frutas silvestres.
          Ato contínuo, Maria retomou o bordado como quem diz primeiro a obrigação porque dessa cartola parece que não sai coelho, e cada ponto perpetrado lhe desenhava na boca um ricto de indiferença ou de deboche, e a distanciava da visita inesperada como se o propósito anunciado pelo anjo já estivesse totalmente compartilhado e esgotado e não lhe interessasse mais, embora isso não tivesse rendido ao engenheiro a cumplicidade imaginada por ele e que serviria para tornar comuns os mundos dele e dela, como Donana captou ligeiro e procurou um pretexto para prorrogar a presença do visitante.
          A névoa seca que acinzentara a paisagem até as dez horas da manhã já se dissipara e a temperatura em elevação reclamava um refrigério para o corpo que Donana, agora tagarela, além de intrometida, usando o calor como pretexto, preparou um suco de murici e serviu à nova vítima de poucas seqüelas da menina levada que fuma cachimbo porque estava certa, conforme declinou, de que o preceito cristão que manda dar de beber a quem tem sede, além de porta da hospitalidade humana, era também a chave que acessa o reino, e repetiu reino para contraditar o anjo, o reino não o estado de Deus, como ele se aventurara extemporaneamente a atualizar, embora não tivesse se anunciado antimonarquista nem muito menos republicano que já são cordões em desuso completo haja vista o encarnado e o azul do pastoril, mas, a guisa de justificação, se definido modestamente como um diletante inconseqüente na tentativa presunçosa de atualizar a ideologia das falas ou, no caso, das rezas como prontamente ele concordou com a mãe severa de Maria que há muito já tinha tomado as rédeas da conversa, e a aquiescência do diletante tinha o fito não só de simplificar a vida, mas também de permitir uma amizade para além das lendas, dos mitos e dos sistemas de idéias, o que era de bom alvitre se se considerasse a circunstância de sua entronização no lar do ferreiro e o seu propósito estrategicamente despistado logo na chegada.
          Para Maria aquela conversa do engenheiro Gabriel, que de anjo ela esperava que ele só tivesse o nome porque ela de antemão se confessara sem lastro teológico para entrar em discussões bizantinas, lhe pegara desprevenida porque sequer desconfiara, ou dissimulou o entendimento como aposta a mãe, e tomou como verdade clara e irretorquível o propósito anunciado que a fez soturna.
          E mesmo ante a atitude de indiferença em que se encastelou Maria em face da desdita alheia como choramingou o anjo Gabriel, o engenheiro civil, parecendo se empenhar em angariar a atenção da moça que bordava indiferente, ou quebrar a resistência - inexplicável para ele porque Donana, no caso bisbilhoteira, já tinha entendido conforme passou depois na cara da filha -, rechaçou quase indignado a insinuação de bebedeira feita assim à toa e ironicamente por Maria; ainda queixou-se do assobio longo e estridente que o fez cair atordoado, com a convicção com que um crente fundamentalista apregoa a sua fé; insistiu no tempo que passou desacordado em cima das folhas secas e das bromélias rasteiras e espinhentas e que não sabe precisar a duração, como um mentiroso apanhado em um flagrante deslize se justifica perante os circunstantes; exacerbou as picadas das formigas que ainda lhe marcavam o rosto, como um menino insiste numa carícia, num crédito ou num afeto economizado sabe-se lá porquê; descreveu a dor, agora já atenuada, dizia ele, que os vergões provocaram nas costas e nas pernas e que lembravam até ardência de chicotadas dadas com chibata, como um hipocondríaco lamuriento exacerba uma doença que nunca teve; e, finalmente, contou sobre as tentativas infrutíferas e enfadonhas e desesperadas de retomar a Trilha do Pagão que lhe levara àquele constrangimento e àquele desespero, e que além disso fizera desmoronar, parece que irremediavelmente, segundo aventou se fazendo de vítima consumada, o edifício da sua formação acadêmica que ele julgara cimentado, incorruptível e imutável, e fez isso como um penitente que se confessa fraco porque sucumbiu à tentação que o levou ao pecado, ou como uma carpideira cumpre seu choro sem sentimento.
          Se em algum momento, e isso de fato acontecera, dizia ele, pusera em dúvida a história de Maria que ela lhe perdoasse porque a descrença nasce do apego aos próprios cânones e aborta as emoções nascentes, mas Maria ria inocentemente como se não entendesse o palavrório do engenheiro ou julgasse o falador abobalhado não fosse a aparente dignidade e o ar de sabedoria com que a língua cumula os que a dominam.
          Gabriel queria com isso encontrar uma ponte ou um ducto que o levasse ao mundo mágico de Maria sem se aperceber que ela lhe dizia com sua indiferença aparente, seus risos displicentes, seus muxoxos e seus olhares de esguelha e seu enfado calculado que não é pela razão escandida em versos métricos ou em palavras livres que os mundos se comunicam, até porque eles sequer existem e seus nomes: crítico, ingênuo, real ou imaginário, não permaneceriam nas línguas não fosse a necessidade da idéia condensada para se discorrer didaticamente sobre a realidade expandida.
          Socorreu o engenheiro vexado pela circunstância o convite sacado dos costumes urbanos, e sem rodeios e sem ansiedade, aceito por Maria que às nove da noite jantava camarão ao molho catupiry com Gabriel e mais ninguém no terraço da Vila Bonita e ouviu dele e aceitou de pronto, as dez em ponto, o pedido emocionado de case-comigo e admitiu, sem constrangimento, mas com singelo recato, que o motivo maior da concordância em sentar-se à mesa no Bar do Cocota naquela manhã que já parecia longínqua não fora, em último caso, o propósito de repetir, coisa que já lhe enfadava e tirava a paciência, a sua desventura com Fulozinha nem a necessidade de desencalhar os seus labirintos, como deixara transparecer para confundir os circunstantes, porque isso ela poderia fazer mais adiante e em menos tempo seguindo o caminho inverso ao palmilhado pelos dois excursionistas, como até planejara, senão pela atração que a ternura e o queixume dos seus olhos negros e brilhantes lhe acendera.
          E Gabriel, sem confessar, porque já não nem fazia sentido, o seu disfarce de propósito, se advertiu de que estava equivocado na teorização dos universos ideais porque nos mundos reais do homem e da mulher sempre existiram pontes e ductos que se intercomunicam e que a história da humanidade é prova maior conformemente concluiu.
          O barman do deck da pousada, atento ao sinal combinado do engenheiro, apresentou-lhe o champanhe reservado à tarde, e os hospedes ouviram indiferentes o estouro que assustou a gata siamesa e a ave noturna que espreitava uma caça distraída logo ali, uma em cima da almofada da cadeira, por certo a gata, e a outra na copa de uma árvore que estava nos aceiros da mata que reveste a falésia e onde está entranhada com muita graça a Pousada Vila Bonita
          Naquela mesma noite, e sob o olhar de censura de isso-não-são-horas botado em cima da filha pela mulher religiosa e severa, e que o marido releva porque é uma recriminação há muito viciada e feita para desencargo de consciência ou para salvar as aparências, Seu Joaquim ouviu, de homem pra homem, o anúncio recitado do pedido de casamento, custoso para o engenheiro e inesperado para o ferreiro, e, entre as lágrimas que não caíram nem no dia em que Donna ameaçou deixá-lo e que agora a têmpera não resistiu, consentiu a bem-aventurança falando do amor sem tamanho e da admiração sem reservas que sempre alimentara por aquela filha única Maria.
          Depois parou de falar, mas não de chorar, como se o choro expressasse melhor e mais exatamente todas as emoções e todos os pensamentos contidos no universo da sua cabeça e derramassem mais copiosamente a sua benção generosa.
          E Gabriel parecendo ter entendido tudo também chorou alto e sem disfarce abraçado ao pai desolado de alegria que ele seria um dia.
Não seria correto dizer que a história do rapaz desorientado por Comadre Fulozinha não repercutiu nas vizinhanças da casa de Seu Joaquim, primeiramente, e depois em todo o Morro do Turana e na cidade, do mesmo modo como retumbou no caso de Maria, porque a passagem do mancebo pelos becos, praças e ruas da cidade atraía curiosos desconfiados e desejosos de abordá-lo, e também porque a presença de um grande número de mocinhas muito produzidas e perfumadas, e agora desencantadas, na Rua do Funil onde está a Vila Bonita que hospeda o engenheiro jovem e precocemente calvo tem chamado a atenção dos moradores do beco e até dos visitantes que exclamam boquiabertos, quanta mulher bonita, quando os olhos parecem apenas fotografar imagens novas comparadas às saturadas de outras plagas que já não açulam a atenção ou a libido dos exploradores.
          Contudo, a despeito das campanhas para que não se atirem lixo na mata, promovidas em nome do turismo ecológico e que evidenciam a coleta da sujeira para esconder crimes tão graves quanto, haja vista o dos motores em trilhas de floresta, um acontecimento, insignificante, ainda que com viés pedagógico, gerou uma distorção e intrometeu-se na história de Comadre Fulozinha para desassossego dos crédulos e de uma mãe zelosa da reputação da família e dos achegados com promessas de prosperidade que era bem o caso.
          Trata-se do boato maldoso, divulgado irresponsável e anonimamente, segundo Donana, agora zelosa, a propósito de umas latinhas vazias de cerveja, recolhidas próximas à Lagoa do Capitão por um grupo de alunos excursionistas do Colégio Águida Sucupira no mesmo dia e não muito distantes do sítio em que Nestor encontrou o engenheiro sozinho, é bom que se ressalte, e desorientado.
          Um diz-que-diz, aliás, que se não impingiu irreparavelmente uma fama de cachaceiro ao engenheiro civil, desorientou a Associação dos Catalogadores de Aparições e de quebra desviou da mídia o prestígio da manifestação da visagem, porque os linguarudos, como interpretam muitos, e Donana também com inatacável convicção, forçam maldosa e propositadamente uma relação entre os fatos que para ela são totalmente estanques como quem pensa, mas não diz por que não é desbocada, o que é que tem o cu com as calças.
          Não se pode dizer também que o encontro do engenheiro, molestado por Fulozinha, com a moça dos bordados esmerados e igualmente amolada pela menina dos aceiros das matas, não fora romântico tal-qualmente fora idealizado pelas mulheres curiosas e viciadas em folhetins televisivos, autodispensadas das próprias intransferíveis, inesgotáveis e repetitivas fainas domésticas, que se aglomeraram nas calçadas irregulares da ruazinha arenosa e descuidada do Morro do Turana, na manhã do dia em que o engenheiro chegou trazido pelas mãos do menino-guia, mas promissor conforme decidiu em última instância a assembléia das alcoviteiras frustradas – porque um dia sonharam com um partido alentador, como por vezes se atrevem a apregoar para aporrinhar a paciência e mexer com os brios dos pobres maridos pobres – e relaxadas com os seus afazeres, como acrescentam e propagam e difamam as línguas viperinas das que se privam, com uma secreta, mas indisfarçada ponta de inveja, daquela reunião, e que, como recompensa de tão incomensurável sacrifício, granjeiam para si uma aura virtuosa de honestidade e de retidão que usam como máscara irremovível ou escudo inexpugnável para se colocarem acima de qualquer suspeita, sobretudo em matéria de fidelidade conjugal e de dedicação ao lar.
          Quando Helena, com entusiasmo nos olhos grandes e verdes, contou a Elita os dois ataques recentes de Comadre Fulozinha, a professora aposentada, com ares de intimidade com a visagem da mata que molesta os incautos e com um sorriso de desdém indisfarçável, deu de ombros e resmungou um único comentário:
          – E agora ela deu pra casamenteira também, foi?
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