quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Cuidado com Cassiano - Conto

  Dario Franco


 

      Durante anos guardei comigo, sem nunca tê-los examinado, uns manuscritos que Seu Torbo me presenteara, junto com um baú de madeira entalhada, bem antes de morrer em 1982.
      Somente agora vi que naqueles papeis estavam uma extensa lista de nomes de árvores e de animais da Mata Estrela, cartas para destinatários não identificados e por isso mesmo nunca expedidas, registro de fatos e situações que vivera e histórias que ele escrevia e que eu o vi, inúmeras vezes, manipulá-los e acomodá-los, num rolo atado com um barbante gasto, atrás de um quadro do Coração de Jesus suspenso na parede da sua sala de visitas.
      Para ser direto, foi, talvez, por falta de curiosidade e por preguiça mesmo de me debruçar sobre uma tarefa que exigia paciência e leitura atenta, que nunca me detivera sobre aquelas garatujas amarfanhadas escrita em papel ordinário, desordenadas e agora corroídas pelas traças e cheirando a bolor.
      Quando o conheci ele já era um homem maduro, viúvo e cercado de netos e por alguns anos fomos vizinhos na Rua da Cacimba.
      Tinha vida abastada e administrava o seu razoável patrimônio com aplicação e zelo quase religiosos.
Seus hábitos eram a um só tempo simples e curiosos. Além das cigarrilhas que mandava vir do Recife e das sonatas barrocas que gostava de ouvir ao anoitecer, aquele gentil homem também apreciava recontar as histórias fantásticas e experiências sobrenaturais que ouvia dos moradores da cidade.
      Baía Formosa, a cidade onde vivíamos, e isso já faz algum tempo, é um nicho humano alojado entre o Oceano Atlântico e a Mata Estrela. E eram esses dois mundos que proviam o sustento do seu povo, organizavam e definiam uma hierarquia social. Os que dominavam os caminhos do mar eram os mestres, e mateiros os que conheciam e guardavam com segurança os traçados da floresta. Esses saberes colocavam os seus detentores no topo da pirâmide social junto aos professores e por isso também eram reverenciados.
Seu Torbo tinha as duas ciências, embora fosse na mata onde se sentia no seu elemento natural, como me reiterou incontáveis vezes.
      Por aquele tempo a Mata Estrela ainda estava mais ou menos inteira, apesar da exploração do pau-brasil pelos franceses até por volta de 1760.
     Recentemente pedi à Milena, minha colaboradora, que me digitasse um daqueles textos guardados por décadas que ela analisara, a meu pedido, e que lhe parecera surpreendente conforme comentou. Ela me disse que teve o cuidado de atualizar a ortografia. Mas, que não alterara uma linha do documento original datado de 1931.
      Feita essa apresentação que julguei pertinente, eis o escrito como Seu Tertuliano, esse era seu nome verdadeiro, me confiou:
      É junho. Chove muito aqui na praia. O céu parece até que se emendou com o mar. Há três dias ninguém daqui desta Vila sai para a pesca ou para a caça por causa desse tempo. Amália, minha esposa, prepara o almoço – é voador no coco, refogado de chuchu e calambica – e as crianças, confinadas em casa por causa do toró, improvisam artes e cantigas.
      Aproveito, então, esse tempo de aguaceiro intermitente para escrever.
      Assim, compartilhando essa história com alguém que possa compreendê-la e me emprestar conforto, espero aliviar o meu espírito de uma agonia que há alguns anos me consome.
      Não julgueis que seja tão simples aceitar a perda de um bem que já se vê seguro e que se nos escapa por entre os dedos, misteriosa e inexplicavelmente, e nos deixa a sensação de termos sido incapazes ou sem astúcia.
       Também não avalieis que seja igualmente fácil entender a morte inexplicável de um homem enigmático como Cassiano que não se deu a conhecer nem no remate da sua vida. Mas, rogo a Deus, com todo o meu fervor, que a cobiça não se apodere da cabeça de quem vier a ler este relato.
Sempre estive atento aos sonhos. Certamente eles existem para nos sinalizar fatos que nossos sentidos, enquanto despertados, não percebem por incapacidade ou desatenção. No sono, é assim que eu penso, a nossa alma está liberta do jugo dos sentidos. Sempre bebo água antes de dormir, por exemplo, para que a sede do corpo não interfira na vigília da alma. E também estou convencido de que as almas dos que já morreram também nos visitam enquanto dormimos e nos dizem coisas e nos mostram outras, porque esse é o estado mais próximo ou o que mais se assemelha ao deles. Minha mulher ri dessas coisas e não as leva a sério.
      Mas então, não sabeis que há sonhos confusos que ficam na memória como lembranças sem palavras e que nós nem sequer conseguimos contá-los ao acordar? E não havereis de concordar que há outros que são totalmente claros a ponto de os confundirmos com a realidade? E que ainda há outros que voltam sempre, ou pelo menos temos essa impressão? Pois, eu mesmo tenho um que me visita desde a meninice e sobre o qual eu sempre estive atento procurando decifrá-lo.
      É assim! Sonho com um lugar que me é familiar. Há um caminho sobre um talude margeado por uma vegetação rala e empoeirada e, à direita desse barranco, há uma lagoa ou uma represa crivada de juncos com gente alegre a se banhar.
      Acordado, repasso na memória os lugares que conheço e não encontro aquele do sonho e me indago: o que esse sonho quer me dizer? Mas, não é isso a causa da minha dor.
      Era uma noite de junho quando aquele sonho voltou. Mas, daquela vez foi diferente. Ele tinha um componente novo: uma voz. Sim! Uma voz. Pobre de mim! Não sabia eu que ali começava um ciclo de desgosto que se arrasta até hoje.
      Acreditai! A preleção que ouvi foi clara como dia, veemente como as ordens ríspidas dos capatazes dos engenhos e grave como os trovões que reboam agora nos céus deste vilarejo lamacento e pacato.
      Despertado pus-me imediatamente à tarefa de escrever o anunciado que na minha memória estava vivo – creio mesmo que por obra do sobrenatural, pois minha memória nunca foi prodigiosa – e o transcrevo aqui, sem medo de engano, palavra por palavra, o que a voz de timbre metálico pronunciou em tom melancolicamente cadenciado e com toda limpidez:


            Abre tua mente e fica atento ao que te dou.
            Amealhei, por pacto vil, fortunas tais,
            Que gozei tudo, cresci gula, desdenhei.
            Corri cidades, neguei pão, juntei-me aos maus,
            Comprei juiz, matei venturas, tripudiei.
            Findado o tempo, a danação, a vida a vau,
            Com pedras d’água local certo remarquei,
            E acorrentado a palmos sete ’stá o baú
            D’ouro completo o meu tesouro abandonado.
            Nas trevas em que vivo sem esperança
            O mimo sepultado aumenta a dor, o mal.
            Por isso, dou-te sem resgate ou algum vodu.
            E tua alma boa fica livre, sem revés,
            Para que brindes uma vida afortunada
            No mundo onde se pena em vão, à toa.
            De duas alças é o pilão que assinalei
            No fastígio da falésia, as Barreirinhas,
            Caminho atravessando entre Sagi sem vão
            E a cidade elevada que é Formosa.
            Descansa nele uma corrente que descai
            E que ta dou sem revelia por sinal.
            Junho é o mês de arrancar o tal tesouro
            Pois, não é lenda que subir os sete palmos,
            Os escondidos tesouros enterrados
            Afloram nesse mês por desespero.
            E a noite certa deve a Lua presidir,
            Astro que enquadra o cosmo e alinha a Terra ao Hades.
            Da legião dos demos que o protegem
            Pertence Cassiano, intruso que se esmera,
            E ronda a espreita do feliz que o resiste.
            Cuidado não te falte, pois vive a fera,
            Em pós anos a seguir o contemplado
            E frustrar quer a empresa a qualquer custo.
            Se já não tarda o iminente desenlace
            Cassiano morto vai o bem para outro dono,
            E perpetua assim a dor que me renega.
            Pergunta, pois, alguma não me faças.
            Com Cassiano pouco é o cuidado que t’assiste.



      Acordei assustado e desesperado com o inusitado daquele sonho. Agitado, vi o dia amanhecer, o Sol subir até o zênite e descambar para o ocidente, ouvindo o martelar daquela voz que, mesmo no sonho, me pareceu de uma alma penada.
      E sonhos não são apenas devaneios como muitos querem. Embora eu já tivesse advertido sobre a posição de minha mulher a respeito dos sonhos, qual seja a de não levá-los tão a sério, ainda assim, contei a Amália aquilo que ela chamou de alucinação e, por isso, decidi esquecer ou não conversar mais sobre o assunto. Ora, eu sei que a compreensão do mundo de Amália está muito além desse universo real em que vivemos, mas está contaminado de apreciações que o negam.
      Os anos de escola lhe inspiraram idéias da moda iluminista, por isso, ela expressa a miúdo, quase sempre para o meu desencanto, opiniões divergentes, sobretudo a respeito das coisas do mundo sobrenatural.
      Sete dias depois, e não tenho receio que digais que sete é conta de mentiroso, exatamente uma semana, insisto, quando dormia nas primeiras horas, ouvi, com a nitidez de um dobre de finados num campanário no silêncio rural, a voz triste e desesperada que me repetiu: Com Cassiano pouco é o cuidado que t’assiste.
      Menos assustado que da primeira vez, retomei o sono e ao alvorecer, depois de tomar um café quente preparado no fogão à lenha, aprontei os arreios na mula Pioneira, acendi uma cigarrilha e parti para a Mata Estrela. Iria caçar duas ou três perdizes e tirar umas varas que empregaria na reforma de uma das paredes da cozinha, estragada pelas chuvas do inverno que findava.
      Voltei à tardinha.
      Porque as lagoas estavam muito cheias em decorrência das chuvas que caiam desde os fins de abril, sem opção, mas não sem desconfiança, tive que voltar pela trilha que vara nas Barreirinhas. Ora, esse caminho eu sempre fizera por considerá-lo mais aprazível, mesmo quando, em algumas circunstâncias, não era o mais curto. Por que agora meu instinto pedia que o evitasse quando ele se apresentava como alternativa única, enquanto minha curiosidade exultava e me atiçava a percorrê-lo?
      Chegando às Barreirinhas tive uma surpresa que me fez soltar o bisaco que trazia na mão com as perdizes que caçara, não para me desincumbir do fardo que era leve, mas pelo susto que o esbarrão travado e o relincho de Pioneira me provocaram.
      Por Deus acreditai! Vi um monte de pedras características das que afloram no mar daquela área, e sobre ele, e este foi o motivo da acuação da mula, estava sentado Cassiano, um conhecido que mora no Sagi.
      Meu Deus! Como não tinha me lembrado dele depois do primeiro e do segundo avisos da voz? Sim! Cassiano. Esse é o único que eu conheço nestas redondezas.
      Ora, Cassiano é um pescador de jeito ardiloso, de fala entrecortada e de olhares esquivos e incômodos.
      Sobre esse pescador contam-se histórias fantásticas de poderes sobrenaturais que ele carrega. Apesar disso, eu nunca me esforçara para entender a origem dessas maledicências que corriam no povoado a respeito desse homem com quem eu mantinha poucos e raros contatos. Dizia-se, por exemplo, não sem se pôr nisso uma boa doze de mistério e de velada censura, que Cassiano tinha o estranho poder de estar presente ao mesmo tempo em lugares diferentes. Ora, isso me cheirava mais a privilégio e nunca o julguei merecedor de tal. Mas, aquele encontro ali seria, então, a manifestação dessa lenda? E as pedras naquele local seria a sinalização da cova onde fora enterrado o baú do qual a voz falara?
      Em casa, esforçando-me para seguir uma argumentação racional, pois só assim poderia interessar Amália pelo tema, tentei ligar o aviso da voz ao lugar presumível donde estaria o baú, o monte de pedras recolhidos da maré e o encontro com o tal Cassiano. Recitei de cor para ela a mensagem do sonho destacando cuidadosamente os trechos que pareciam, no meu entender, dizer respeito àquele encontro inesperado. Busquei, enfim, sensibilizá-la para uma adesão à minha causa.
Todavia, sem demonstrar nenhum entusiasmo pelas minhas alegações, Amália pensativa e tolerantemente, no seu jeito natural, olhando-me nos olhos, e o seu olhar não expressava impaciência, mais parecia de piedade, me aconselhou mais uma vez:
      - Homem tira essa ilusão da cabeça. Nesta revista – e mostrou-me o exemplar número quarenta e dois da Revista Científica que chegara desde a última entrega dos Correios e Telégraphos no mês passado, – li um artigo sobre sonhos, em que se falam dos estudos sobre esse fenômeno que estão sendo feitos em Viena por um médico jovem. O articulista diz que o doutor Sigmund parte do princípio de que tudo o que sonhamos já está dentro da nossa cabeça. É um desejo que nem mesmo nós sabemos bem. Levantou-se, me abraçou daquele jeito que ela sempre faz quando não quer mais debater ou também quando não lhe interessa o tema e aproveitou o ensejo para guardar na estante um compêndio grosso que estivera a folhear e para acender o candeeiro do corredor porque o resto do dia já se fora enquanto conversávamos.
      Durante quase um ano não toquei mais no assunto. Mas, agora que se avizinhava o São João, tomado por um forte e repentino interesse que me fez quebrar o propósito de olvidar a visagem – não creio que fosse ambição o meu empenho –, fui ter com Joca Professor no Sagi disposto a contar-lhe o sonho e lhe pedir ajuda. Queria dele mais do que a cumplicidade e o aval para as minhas convicções, desejava também as rezas que ele aprendia com o vigário da Penha quando o ajudava na celebração das missas mensais nas capelas do Sagi e da Formosa. Fórmulas sagradas para eu me suceder bem naquela empreitada, livrar a minha alma das armadilhas do Maldito e o corpo das bisbilhotices de Cassiano. Precisava de rezas como a que ele dera a seu pai para livrá-lo de um desafeto que morava na Pituba e que ele usou e que logrou vitória. Queria, enfim, a cópia do salmo, e essa foi a fórmula, que rezava o ab hómine iníquo et doloso érue me do qual eu não sabia o número, nem de cor o seu teor completo.
      Acertamos para a lua cheia daquele mesmo junho, como recomendado pela voz do sonho – “E a noite certa deve a Lua presidir, Astro que alinha o cosmo enquadra a Terra, o Hades.” –, minha incursão em busca do baú cheio de ouro. Lembro-me bem, era o dia vinte e cinco. A caminho, vi e a Lua que vinha rebentando por trás das dunas recobertas de cajueiros, imponente e completa. Joca, que estivera atento aos passos de Cassiano, informara-me, ainda pela manhã, que, como estava previsto, o intruso rumara mesmo por mar para Cabedêlo na madrugada daquele dia.
      A oportunidade estava dada e a sorte lançada como se dizia antigamente. Já próximo da meia-noite estava eu subindo a falésia das Barreirinhas quando avistei, a cerca de dez metros, denunciado pelo clarão da Lua, o vulto de um homem, envolto numa fumaça branca, sentado exatamente sobre as pedras que marcavam o presumível local da rica botija. Não me envergonho, minhas pernas fraquejaram. Acudiu meu pensamento um valhamedeus que foi mais um grito preso pelo pavor do que uma oração no peito de um aterrorizado, e no instante mesmo em que eu rogava a proteção divina ouvi a voz mole e cavilosa de Cassiano:
      - Fazendo o que aqui a ess’hora da noite? Caçando escaravelho em grota d’invernada?
      E com jeito dissimulado, e a guisa de justificação, sem esperar minha resposta, lá mesmo sentado, ele tomou a iniciativa de me dizer que uma pane no barco o fizera ficar à deriva por todo o dia e que há menos de uma hora dera ali na praia das Barreirinhas; que estava descansando, antes de rumar para casa à cata de meios para o conserto do barco, e pensando qual a providência que tomaria para deixar a embarcação em segurança naquele porto imprevisto e de poucas condições. Enquanto ele falava, eu me mantinha a uma distância de uns dez metros e vi surgirem, por trás dele, dois homens que eu julguei serem pescadores que também tripulavam o barco agora avariado. Pareciam exaustos e inquietos e não trocaram nenhuma palavra, além de um formal boa noite dado de longe. Até hoje não sei quem eram eles porque nunca os reconheci.
      A advertência reiterada da voz, “Com Cassiano pouco é o cuidado que t’assiste” ganhava, naquele instante, uma dimensão que eu não calculara ou não previra ou não entendera. Cassiano parecia, na sua vigilância, orientado ou protegido mesmo por uma força sobre-humana. E me acorreu à mente a revelação da voz: “Da legião dos demos que o protege pertence Cassiano, intruso que se esmera e ronda a espreita do feliz que o resiste.
      Pois, a pane no bote, a correnteza que o levara até ali, quando era muito mais factível que ela o desviasse para Pirangi do Sul, e a presença dele naquele lugar e naquela hora não pareciam obra do acaso.  
      Então, desconversei como o nervosismo que o inesperado me permitiu. Mas, o intruso tinha um riso de mofa que eu ouvia a intervalos, como se adivinhasse o meu verdadeiro intento. Incomodado por aquele riso insinuador, baixei os olhos, me virei e dei-lhe as costas fingindo um súbito interesse por alguma coisa que chamasse minha atenção no mar. Mas, imediatamente, como se o seu corpo não estivesse submetido às das leis da física, Cassiano, que até então não tinha se levantado do monte de pedras onde o encontrei sentado, surgiu na minha frente no instante mesmo em que eu levantava a vista. Pensei que era miragem ou que eu estava perdendo o senso. Despedi-me apressado e rumei para casa e durante todo o trajeto não ousei por nada olhar para trás. Estava apavorado.
      Está claro que desisti do empreendimento por aquela vez.
      Confesso-vos que fiz mais duas tentativas, sem sucesso é preciso que eu diga, de lançar mão da fortuna que ganhara sem comprometer a minha alma. Mas Cassiano, o “intruso que se esmera”, era tão real quanto a voz que me advertira contra o fuçador.
      Dizem que as crianças afugentam os espíritos dos invejosos. Então, na última vez que tentei tirar a botija, sob os protestos racionalistas de Amália, levei a minha pequena Gasparina, cuja inocência poderia me servir de escudo contra a perseguição daqueles que me rondam e me espreitam para frustrar o meu intento.
      Mas, ai de mim, a caminho das Barreirinhas, pouco antes do Bacupari, já quase às dez e meia da noite, deparei-me com Joca Sacristão que vinha para a Formosa buscar socorro para Cassiano que caíra doente repentina e misteriosamente e parecia até agonizar.
      Homem, será o Benedito? Pensei com os meus botões. E decidi: é agora ou nunca. Escanchei minha filha nos ombros e apertei o passo pela praia de maré cheia. Quando deu onze e meia da noite eu estava ao pé das Barreirinhas e vi, pela primeira vez, o pilão de alças que a voz me dera como sinal e a corrente[1] que, saindo do ventre da falésia majestosa, se derramava nele.
      Nunca duvidara, Deus é testemunha, mas aquela visão como que sepultou qualquer resquício de incredulidade que por ventura tivesse sobrevivido em mim. Iniciei a subida pela encosta sul e já bem próximo da meia-noite eu aguardava, no cimo da Barreirinha, ao lado das pedras trazidas da maré, só o encontro dos ponteiros para o serviço final. Depois dali eu e os meus descendentes teríamos uma existência abastada sem o comprometimento da minha alma.
      Embora a lua já fosse alta, o vento ainda açoitava forte, e a minha menina reclamou do frio. Abriguei-a na japona quente e a protegi entre as minhas pernas.
      Dessa vez, tudo parecia tramar para o sucesso. O intruso não apareceria ali. Estava prostrado. Que Deus me perdoe a má palavra.
      Mas, maldição das maldições! De repente ouvi na noite enluarada um tropel crescente de burros e uma algaravia de vozes nervosas e de risos descontrolados.
      Eram Pedro, Tiago e João de Akika que iam para a mata tirar uma peça de cupiúba ou bambu para servir de calão à rede em que seria levado o corpo de Cassiano que acabara de passar dessa pra melhor.     
      Persignei-me mecanicamente três vezes, não sei se por reverência à morte, ou porque estava diante de um acontecimento que me pareceu estranho ou diabólico mesmo.
      – O negócio foi feio! Foi um berro alucinado que se ouviu lá no Guajú e em seguida um suspiro comprido de quem parece que não queria ir e que o fez sentar-se alvoroçado de olho arregalado, mas bateu de volta como se tivesse sido puxado, murchando logo, feito um balão sem vento. E acabou. Pedro noticiava a morte do pescador ainda admirado, querendo ouvir, talvez, um issoacontece que se diz quando falta assunto, ou alguma coisa que lhe desse a compreensão do incomum assustador. Mas, nem o assombro que aquele jeito esquisito de morrer causara naqueles homens e em mim mesmo me tirou do letargo que a decepção cravara no meu rosto.
      Ofereceram-me da pinga que levavam e partiram. Acredito que seguiram convencidos de que o meu desapontamento vinha também do sentimento pela morte do abelhudo.
      Como para exorcizar o azar ou retomar o curso normal da vida, de costas para a corrente do vento forte que açoitava, protegendo com o chapéu a chama do fósforo, acendi uma cigarrilha e baforei para me aliviar.
      Uma gigantesca nuvem espessa tampou a lua e barrou o seu clarão como se estivesse a passar um pano no passado, e o mar completou o ciclo de sete ondas e parou um átimo tempo para, quem sabe, virar a página dessa história.
      Na sua delicada candura, minha filhinha Gasparina atirou-se ao meu pescoço e, depois de um suspiro profundo e sincopado que estivera preso no peito por força da tensão, disse melancolicamente como se entendesse toda a extensão do meu vexame e do meu desapontamento:
      - Fica triste não, papai. Quando eu crescer eu venho tirar essa botija pro senhor.

[1] Dizem que o líquido ferruginoso que escorre, até hoje, pela falésia das Barreirinhas, seria dessa corrente de ferro. Nota da digitadora.
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