quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Conto - A Matança de agosto de 1877





Capítulo I



A Vigília de Alex




          A escuridão da ruazinha do povoado não é maior que a sua quietude.

Já é madrugada desta sexta-feira, 10 de agosto de 1877, o dia infernal que vai nascer para assinalar sua passagem com desespero e sangue nesta aldeia de pescadores chamada de Baía Formosa pelos que a viram pela primeira vez do mar, porque os que nela já viviam a chamavam de Aratypicaba.

         Num passado mais recente ela já foi habitada por machadeiros do pau-brasil e por carregadores de madeira para embarque nas naus francesas, mas, exatamente hoje ela tem a sua existência negada porque a dizem encravada em terras contestadas de uma muito antiga sesmaria.

          Há nove dias, conheceram o furor da contestação.

          As onze casas derrubadas pelos jagunços e pelo dono do Engenho Estrela exibiram a face impiedosa e covarde dos que fustigaram crianças e mulheres enquanto os homens estavam no mar.

No último barraco daquele único arruado que teima em persistir porque já estava ali desde o fim do século XVI, vive Alex, neto do finado Jean Verdurin, um tripulante que se sonhava independente, abandonou um cargueiro francês que contrabandeava pau-brasil, instalou-se nesta terra e navegou livre no mar.

          Nessa madrugada Alex acorda espontaneamente porque a brilhante Vega de azul pálido já descai e está na hora de ir para o porto. Está sozinho porque seu pai integra a comissão que foi reclamar as atrocidades do senhor do engenho Estrela, ao Dr. Tolentino, Presidente da Província em Natal.

          Alex tateia na escuridão, enrola a rede e a engancha na escapa. Vai até a cacimba que abastece o povoado para as suas ablações matinais e, enquanto caminha, espreita cautelosamente o mundo a sua volta como o instante exige.

          Vê no vilarejo a completa quietude e no céu, igualmente silencioso, uma intensa chuva de meteoros que riscam o espaço que hoje expõe completo o seu tapete de estrelas e deixa visível a Via Láctea distante e indiferente ao destino da Terra e ao dos homens que nela vivem.

          Entranhado naquele arruado desde o nascimento, pela primeira vez em seus vinte e dois anos de vida, apreciando extasiado aquela rua e aquele céu, Alex imaginou que tudo está unido, tanto na terra como no céu, pelo silêncio integral.

          E teve a impressão de que se deparara com ele que também está tão presente cá como lá.

          Assombrou-se e, todavia imaginou que aquele silêncio total existe em si mesmo, que ele não é uma mera ausência. E que os ruídos não o quebram ou o eliminam porque ele é como uma malha através da qual, como peixes, os fios de sons se engancham e criam um tecido encorpado, inteiriço e consistente para depois, esses sim, os sons, serem esgotados e rompidos e extinguidos para deixar de novo à amostra o absoluto inteiriço que une todas as coisas: o silêncio absoluto.

          E começou a conceber que o sossego daquela noite ameaçada, sem nuvens e com brisa leve, começava devagar a ser preenchido pelos sons dos homens do mar, seus companheiros, que estão deixando sorrateiramente as suas casas, como fora insistentemente recomendado, e se encaminham para o fundeadouro da grande baía de Aratypicaba donde deveriam, como em todos os outros dias, partir para mais uma faina que dura de sol a sol. Mas, precisamente hoje eles não levam os seus petrechos de pesca.
          Carregam, ao invés deles, armas primitivas num cenário igualmente selvagem.

          Na imaginação de Alex, as malhas infinitas do silêncio foram sendo ocupadas pelos fios das falas monossilábicas daqueles homens e pelos diálogos quase murmurados; pelo canto dos galos madrugadores e pelo uivo triste de um cão que até parece ansioso por um banquete que a insensatez humana apronta; pelo choro de um infante com cólica, quem sabe, e pelo acalanto de uma mãe aflita; pelos barulhos de passos vagarosos que mais denunciam um corpo que ainda se acorda do que anunciam um pescador que vai à luta; pelos pigarros que procuram a afinação das gargantas repousadas e pelos assobios que identificam um companheiro ou sinalizam uma posição; pelas batidas inoportunas e involuntárias das portas e das taramelas; e pelo rangido incomodo dos ferrolhos emperrados pela maresia e que hoje não protegerão os inocentes e as mulheres.
          Combinam-se aqueles sons com outros permanentes, como o do mar que não interrompe seu marulho, e juntos tecem o pano com as tessituras e as estamparias variadas dos dias mutantes.

          Como um profeta, Alex se antecipa à feitura completa que esses lanços imaginários estabelecem e pressente que na urdidura que se tece hoje entrarão mais uma vez os fios ásperos e enodoados do choro e da dor que o destino tecelão não evitará.

O aviso que correu ontem à noite pelas casas espaçadas do arruado ainda sem nome aponta claramente para o endereço da tragédia.




Capítulo II


O Encontro no Fundeadouro





          Nesta madrugada de 10 de agosto tudo parece ser feito a meio tom como para não acordar de sobressalto o dia que virá em breve e que não repetirá sua rotina, ou quiçá para não atiçar a fúria de um bando armado de fora da lei que pode estar à espreita, na escuridão da mata que se limita com as casas que restaram, disposto a atacar para lhes degradar a honra e o patrimônio.

          No fundeadouro do norte do arruado, guardado pelos paredões gigantes da baía de Aratypicaba, onde antigamente se aventuraram naus de variadas bandeiras, um pescador já acendeu na areia fofa e seca da praia uma fogueira acanhada que não rivaliza com os bilhões de pontos luminosos que cintilam a distâncias indizíveis e ainda assim aquelas labaredas parecem disputar a atenção com a Estrela Dalva que já descamba para as bandas do ocaso, aumentando o seu fulgor.

          Numa casa de taipa e sem número que fica bem em frente ao mar e a poucos metros da última casa derrubada na semana passada, no pequeno arruado que se alinha pela enseada, um pescador alto, espadaúdo, olhar ingênuo de criança, de cabelos negros escorridos e aparentando entre trinta e cinco e trinta e oito anos, repete o gesto que deve ter se cumprido hoje em outros lares: beija, de per si, os filhos e a mulher, passa cuidadosamente por debaixo das redes dos pequenos, benze-se porque é cristão e caminha rápido e silenciosamente, como ele mesmo recomendara, para o porto onde o aguardam os companheiros.

          A benção que Deus te acompanhe e te dê forças, dada por Isabel, esposa de Francisco Magalhães, o homem espadaúdo conhecido por sua suavidade, pelo seu destemor e pela sua lealdade, não é a mera repetição de uma conveniência ou de um cacoete religioso.

          Aquela mulher sabe que não pode apresar o perigo que se avizinha e deseja convictamente que não falte a certa proteção divina àquele companheiro amado.

          No porto os homens que vão para o mar já se aconchegam ao redor da fogueira e Joaquin Biléo, como faz todas as madrugadas, acomoda, na trempe que está sobre o braseiro, uma lata, amolgada pelo uso, com água, pó de café e açúcar preto para o desjejum que é sempre tomado coletivamente antes da partida para a pesca que hoje não será feita, ao menos por todos os trabalhadores do povoado.

          Quando Francisco Magalhães chegou ao fundeadouro, vestindo sua japona azul marinho que recolhera no mar, presente de um tripulante anônimo de um navio mercante, e o que era fora dos seus costumes, empunhando uma vara de pau-ferro, uma espécie de bastão grosso e fornido, os primeiros goles do café matinal já eram bebidos pelos homens que tinham abandonado seus catres quentes e estavam ali reunidos num ritual que se repetia todas as madrugadas, embora o de hoje fosse apenas um pretexto para um encontro que tem outro destino.

          Alex, acocorado junto à fogueira, levantou-se e, recolhendo o bastão que o pescador de japona azul trazia, entregou-lhe o café numa caneca de ágata branca que permanecera zelosamente reservada, num gesto que traduzia, até para um estranho que intrigado registrasse a cena, uma atenção esmerada a um conviva especial, ou a um líder amado.

          Neste dia as brincadeiras e os risos não complementaram o ritual do despertar ou de despedida como quer Dorinha desde que Nestor saiu numa madrugada dessas e ficou no mar para sempre e a deixou sozinha com os dois filhos pequenos. O clima hoje é de solenidade, circunspecção e expectativa. É melhor até dizer que é também de muita apreensão.

          Francisco Magalhães também não ria como costumeiramente. Desde o dia dois de agosto quando voltou da pesca tinha o cenho fechado, e agora as olheiras apontavam para noites intranquilas e mal dormidas de um homem que perscruta o perigo que ronda a sua gente e que se exige diligência, vigilância e reação; de um homem que cansou dos sobressaltos que as ameaças de expulsão da terra provocam; de um cidadão que sabe distante e inacessível a autoridade provincial desse tão vasto Império e que por isso não tem a quem recorrer; de um homem, enfim, que sente sobre os ombros o peso de um insucesso provável da sua reação, mas ainda assim crê na superação das dificuldades e decide lutar pela terra farta e abençoada onde vive. Sabe que lá fora assola a seca, também impiedosa, que impõe a fome que dizima até anjinhos, e que contra a qual ele nada pode.

          Sentado na areia branca da praia, Francisco Magalhães tomou o seu desjejum calado e nenhuma voz foi ouvida nesse tempo. Os sorvidos, amplificados nas canecas, nas quengas de coco e nas latinhas com café, foram os únicos sons que se ouviram durante a sessão deste alvorecer de 10 de agosto.

           Apoiando a mão esquerda no chão e repousando o outro braço sobre o joelho da perna direita que tinha a planta do pé cravada no solo, Francisco Magalhães olhou altivamente os conterrâneos focados pelas chamas amareladas da fogueira e falou baixo em meio a um mutismo que só a gravidade do momento o instalou:

          – Cidadãos de Baía Formosa, esta é a nossa terra – e bateu com o pé enorme e nu na areia fina e fofa. Depois prosseguiu:

          – Aqui vivemos livres e é aqui que estão nascendo e crescendo os nossos filhos. Nossas companheiras estão felizes, nossos filhos saudáveis, e a fome não nos assalta. Então, não somos afortunados? Interrompeu a fala, correu novamente o olhar infantil nos olhos muito atentos de todos os presentes e, com voz suave, quase segredando, perguntou:
          – Vocês amam esta terra?
          Cada homem sentado naquela roda ao redor de um fogo tênue sabia do que o líder estava a falar; cada pescador sabia da insegurança que era morar naquelas terras reclamadas, griladas e apropriadas por latifundiários ao arrepio da lei; cada habitante já vivera uma perseguição como se fosse um invasor; cada formosence conhecia a fúria e a ganância de fazendeiros que queriam invadir Baía Formosa, anexá-la às suas fazendas e transformar a sua gente em andarilhos sem pátria; cada morador conhecia a humilhação de mendigar um feixe de varas para erguer uma parede; e cada cidadão, enfim, ali sentado conhecia histórias de outros que morreram ou tiveram que arribar para não morrer.
          Por isso, o sim que não se ouviu, porque era preciso guardar o silêncio, foi tão veementemente estampado nas faces daqueles homens alumiados pela fogueira. E isso acendeu a convicção da resistência e contaminou a quase todos.







Capítulo III

Francisco Magalhães Convoca a Resistência





          Sentado junto aos outros companheiros na areia branca da praia, Francisco Magalhães prosseguiu a sua fala.

Se a amamos, continuou Francisco, vamos defendê-la. Vamos estabelecer eternamente aqui o nosso lar. Juntou as mãos tendo apoiados agora os braços sobre os joelhos, e quase como num sussurro continuou:

          – Escutem isto: anteontem à noite, atendendo a um chamado, seguimos eu e Alex até a meio caminho da margem direita do rio Curimataú. Um escravo jovem, João Gualtério, da cozinha do Engenho da Estrela veio nos encontrar e avisou que João Cunhaú, revoltado pela reclamação que se foi fazer dele ao presidente da Província, vem hoje com um bando armado para nos expulsar daqui e queimar todas as nossas casas dizendo que elas estão dentro da sua propriedade porque é o herdeiro, reconhecido pela justiça, de André de Albuquerque Maranhão Arco-Verde. Que esse é o plano. Mas, que se houver resistência da nossa parte ele jura que não deixará sequer um vivo para contar a história. Disse mais, que se sobreviver alguma criança, escapará sem orelha. Vai riscar para sempre Baía Formosa do mapa.

          – Mas, defendê-la como Francisco? Nós somos pouco mais que três vintenas e só temos aqui uns três clavinotes. Minha casa não foi derrubada, mas eu não vou encarar a morte.

          Antônio Bandeira perguntou isso porque discordava da reação por entender inglória uma luta tão desigual como aquela. Pois, de que valeriam cacetes e facas diante das armas de fogo do poderoso e ganancioso senhor do Engenho da Estrela? Dessa excepcional desvantagem o que poderia restar senão a dor e a derrota para os formosences? Mas, Francisco respondeu à indagação do companheiro num tom de voz baixinho, mas cheio de convicção e compreensão:

          – Temos três, Toninho. A fé, os talentos que Deus nos emprestou e que nos cobrará de volta e a valentia. Contudo, ouviu um retruco:

          – Valentia e arma são coisas que não se podem comparar, Francisco. Vivos, nós poderemos cuidar das nossas famílias. Deus não quer o nosso sacrifício. Nós podemos nos render ou fugir agora. Vivos, poderemos buscar outra terra para prosperar.

          Francisco Magalhães viu, então, Antônio Bandeira convocar os presentes para a fuga, levantar-se e ser seguido por dois outros. Mas, uma voz que saiu de um pescador que estava sentado na roda advertiu os desertores a não empreenderem uma fuga para o Norte. O aviso tinha um tom carregado de desconfiança e sarcasmo como se o encontro provável com o bando de João Cunhaú, o senhor do Engenho Estrela, pudesse resultar numa traição. Ignorando o riso que aquela advertência provocara, e sem se intimidar diante da debandada humilhante, sem perder o tino nem a compostura porque, ao deixar o comunicado da vinda iminente do bando para esta madrugada se precavera contra o medo que gera o acovardamento e açula a traição, Francisco Magalhães prosseguiu:


          – Agora estamos por volta da quarta hora da madrugada, logo mais, depois que o sol aparecer na linha do horizonte todas as mulheres, crianças e velhos deverão estar abrigados e em segurança mais ao sul, na encosta do morro mais alto que é coberto por bacuparis e que agora estão floridos. Na ilharga dessa duna há um cajueiro capaz de abrigar e camuflar nossas famílias. Seu Venâncio que está com mais de noventa anos e já não anda será levado numa rede por voluntários. Todas as casas deverão ficar de portas e janelas escancaradas como a indicar que os moradores fugiram e todos os fogões apagados e todos os candeeiros vazios e sem pavio para não servirem ao inimigo. A retirada até lá não será pela praia, mas por dentro da mata. Alex fez esse caminho comigo ontem à tarde e será ele, portanto, quem conduzirá toda a gente em completo silêncio e lá permanecerá com ela para trazê-la ordenadamente depois do embate em que sairemos vitoriosos com a graça de Deus. Germano Mendonça se encarregará de ir ao acampamento das mulheres avisar a hora do retorno. Se algum de nós tombar na luta, o encargo da provisão das viúvas e dos órfãos até alcançarem a idade adulta será dividido pelos sobreviventes.

          Não fosse a cautela contra o barulho que se instaurara, certamente, se teriam ouvido os gritos de está certo, concordamos, é isso que tem que ser feito, que teriam libertado do peito a coragem daqueles pescadores resistentes. Mas, o só assentimento enérgico das cabeças permitiu ao líder prosseguir:

          – Oito homens sairão para o mar e pescarão normalmente como se nada estivesse acontecendo. Isso insinuará para o bando de João Cunhaú, que vem por cima da Baía de Aratypicaba e avistará todo o movimento no mar, que a vida aqui em Baía Formosa transcorre sem alteração e que nós estamos desprevenidos. Essa manobra garantirá também o nosso abastecimento para amanhã. E continuou:

          – Joaquim do Porto, que integrará o grupo da resistência, se encarregará de escolher o grupo que vai para a pesca e que deverá ser composto pelos mais velhos e pelos que estiverem sem condições de luta. Os que ficarem para a resistência escondam seus batéis em grotas e moitas seguras.

          – Meu pé está inflamado e a minha perna ainda está inchada, mas eu tenho condições, Seu Francisco.

          Isso foi dito por Canindé de dezessete anos, filho de Joaquim do Porto que se acidentara há dois dias quando, despescando um curral, fora ferroado por uma arraia. Francisco, olhando compassivamente nos olhos do rapaz que tem nos lábios um riso aberto, ouviu atento à ponderação, mas não a comentou como se deixasse a decisão para quem ele já delegara a tarefa da seleção dos abastecedores. Depois prosseguiu:

          – Todos os outros homens, e somos quatorze em condição de combate, se armem com o que dispuserem em suas casas ou na mata. Sei que não temos armas de fogo. Seguiremos nessa maré seca pela beira da praia ao longo da rua, deixando os rastros longe do alcance da maré, para dar a entender aos invasores que fugimos por ali. Se eles decidiram nos atacar, então nós escolheremos onde será a refrega. Estaremos, então, às sete horas, na ponta sul que fecha a enseada do arruado. Lá cada pedra que a maré já descobriu nesse mês será para nós um escudo ou tocaia, cada árvore um esconderijo. Para eles aquela ponta pedregosa será um verdadeiro presídio para os cavalos que não poderão se movimentar com liberdade e deixarão os cavaleiros à nossa mercê. O que vai valer é a nossa valentia.

Por um instante, como se rezasse ou quisesse se assegurar de que não esquecera nenhum ponto da estratégia, parou de falar e ficou de olhos voltados para o céu coberto de estrelas. Depois se levantou, bateu fortemente uma mão contra a outra, e abraçando a cada um dos homens que estavam ali, fez desse gesto uma aliança de lealdade. Tomou seu bastão de pau-ferro e caminhou apressado de volta para ajudar a sua mulher.

          Começou uma movimentação nervosa de pescadores a rumarem para suas casas e de outros a empurrar jangadas e batéis para a água ou para as moitas e grotas; e de providências de embarque e de acomodação de petrechos para a pesca que vai durar até ao entardecer, sabe Deus.

          Nas casas os choros de crianças de colo que não entendiam a quebra da rotina; os latidos dos cães de estimação rondando pela casa; e a azáfama das mulheres a encher mamadeiras, a improvisar bilhas com água, a fazer trouxas, a acordar crianças, a preparar um rancho que não se sabia para quanto tempo, significava mesmo a ruptura entre o passado e o futuro dos moradores da outrora Aratypicaba.

          Não era o abandono do território nem a fuga para outro destino, pois aquela já era a terra prometida, mas uma retirada estratégica que lhes garantiria, sabe Deus, uma permanência sem sustos, uma posse sem contendores, se não definitiva agora, ao menos para os que nascerão depois.

          A aurora, num céu azul e limpo, anunciou com ventos fortes, o dia que vai marcar a vida e a memória de um povo, e o Sol, girando na direção de Hercules, se levantou para iluminar o cenário do embate e testemunhar a refrega.






Capítulo IV

Alex Avista o Bando de João Cunhaú






          O Sol já ia alto. Eram cerca de dez e meia da manhã e no povoado de Baía Formosa, diferentemente de ontem, continuava o mesmo sossego planejado que nascera com este dia: ninguém tomando banho ou coletando água na cacimba do arruado; nenhum tráfego de mulheres lavando os penicos na maré; nenhum pregão de vendedor de fervilhado; nenhum grito histérico de mãe chamando o filho que já se demora demasiadamente na maré; nenhuma costumeira comunicação gritada entre as cabanas; nenhuma conversa de vizinhas nos quintais; nenhum movimento, enfim, a não ser o de um cão vadio e sem dono que perambulava lá no porto à cata de vísceras de peixe e o dos vôos das gaivotas que já povoam o ancoradouro.

          As batidas provocadas pelos ventos desse agosto nas janelas e nas portas das habitações, largadas estrategicamente, poderiam induzir um visitante que aportasse ali naquela ocasião que chegara ao fim do mundo, ou numa cidade fantasma, não fossem os sinais que a retirada recente exibia.

          No sopé do morro coberto de bacuparis brancos de tantas flores, todas as crianças e todas as mulheres guardavam, com destemida e controlada vigilância, a quietude dos que se escondem de um predador violento e sanguinário.

          Então, Alex escalou por dentro da vegetação abundante a duna mais alta ali vizinha ao acampamento e do topo de um frondoso jatobá procurava divisar qualquer movimento para os lados da extensa barreira da Baía de Aratypicaba. Cerca de uma hora depois que seus olhos atentos varriam o horizonte, ele divisou lá naquela baía, por entre a vegetação mais baixa, um grupo de homens a cavalo que já vinha descendo o morro que dá no porto. Inquietou-se. Desceu da árvore que lhe servia de mirante e, esgueirando-se apressadamente pela encosta da duna, voltou ao acampamento das mulheres que estava sob sua responsabilidade, chamou Isabel e comunicou a sua desobediência e o abandono imediato daquele posto: vou me juntar aos outros, D. Isabel. Vou lutar.

          Tinha no rosto a decisão de arcar com a consequência do seu gesto perante o comandante e nas mãos a foice que trouxera para abrir caminhos e que agora usaria para alarmar o senhor do engenho Estrela. Isabel tentou ponderar, mas não se furtou a substituí-lo na tarefa distribuída pelo líder horas antes porque pressentiu naquela contra decisão um presságio bem aventurado, e disse enérgica: vá com a benção do Deus dos exércitos.


          Escondidos na ponta sul da enseada, em frente à qual nasceu o povoado, e atentos como se espera no mar a fisgada numa linha, estão quatorze homens distribuídos segundo uma lógica de ataque: sete aquartelaram-se nas últimas pedras, já na curva que avista a ponta do morro alto coberto de bacuparis e os outros sete estão alojados entre as árvores da mata que desce da barreia e que encosta-se às primeiras pedras da praia.

          A entrada do labirinto está livre até ao meio.

          Assim dispostos, lembram mais crianças num jogo de esconde-esconde. Ouvem-se até pilhérias e bravatas, mas se enganaria quem julgasse frouxidão, imperícia, ou negligência nesses homens decididos a rechaçar, a qualquer custo, a agressão.

          Próximo do meio dia, o som crescente do tropel de cavalos pela praia começou a se somar a todos os outros que, desde a madrugada, tecem a fantástica malha do silêncio imaginada por Alex e anunciou o esperado.

          É um bando de mais de trinta homens armados de espingardas e revólveres. São liderados pelo homem gordo e branco de quarenta e dois anos que é o senhor do engenho Estrela.

          O homem jovem ao seu lado é o seu filho que aprende com o pai a administração inescrupulosa nestas terras-de-ninguém onde a força é a lei e o arbítrio senhorial a justiça. Aproximam-se celeremente do povoado esvaziado de gente.
          Na ponta sul da enseada do arruado imprensado entre o mar e a mata, os ouvidos atentos dos pescadores entocados escutaram primeiramente o galope acelerado dos animais e a seguir a quebra de ritmo do tropel e as patadas irregulares e assustadiças dos cavalos dominados.

          De repente ouviram-se gritos, gargalhadas, batidas de portas, estouro de potes e tiros de espingardas disparados para o alto como uma intimidação ou comemoração antecipada de vitória.

          – Os covardes devem ter sido avisados. Fugiram todos. Poupamos munição e tempo. João Urbano disse isso a João Cunhaú, mas ele retrucou alvoroçado:

          – Vejam estes rastros – e apontou para praia marcada pelos pés descalços dos pescadores.
          – Vamos em frente! Esporeou o cavalo e ordenou o avanço do bando para ponta da enseada e seguiu na retaguarda em companhia de seu filho e de Celestino Arregaça, seu conhecido lugar tenente. Não sabia o senhor de engenho que ali os esperava a resistência em um labirinto de pedras dispostas irregularmente que imobilizaria os cavalos e deixaria os homens atônitos numa batalha corporal em que armas de fogo valem pouco e a valentia vale muito. Isso, seguramente, não estava na estratégia do seu ataque porque planejou molestar covardes ignorantes.

          Cumprindo a ordem, o bando avançou em galope rápido, mas, pelas condições do terreno, adentrou vagarosamente pelo centro do amontoado de pedras. Quando os jagunços perceberam que os rastros não prosseguiam pela praia, que a fuga não era fuga era estratagema, já foi tarde. Estavam embaraçados com seus cavalos entre as pedras da ponta do recôncavo, um verdadeiro presídio, como mais tarde o jagunço Praxedes Degolador se justificaria para os filhos, e expostos miseravelmente, em completa e vexatória desvantagem tática, ao ataque dos resistentes que avançaram determinados a deter a ação e a dizimar o inimigo.

            Um grito pela retaguarda, o estouro surdo de um corpo que cai, e um cavalo desgovernado e sem cavaleiro disparou mata adentro. Um bandoleiro fora atingido por uma cacetada de Canindé, o filho adolescente de Joaquim do Porto, e jazia no chão com a perna quebrada e o rosto esbagaçado pela ponta de uma pedra. Estava deflagrada a refrega. O que se ouviu e se viu a seguir foram gritos, disparos, pancadas, fugas de cavalos e quedas como num inferno.

          Um jagunço do bando apontou a espingarda contra Canindé, que pulando numa perna só, cacete em punho, ia impetuoso na direção do filho de João Cunhaú. Um tiro dado pelas costas fez a primeira baixa entre os pescadores. Canindé rodopiou e caiu de olhos abertos e vidrados com o rosto limpo e imberbe voltado para o céu como se olhasse o caminho da sua nova morada.

          Se o grito de Francisco Magalhães não alertou Canindé a tempo, a porretada do bastão grosso e fornido de pau-ferro que o assassino levou na testa e que lhe abriu o crânio fez a primeira vítima fatal entre os homens de João Cunhaú.

          Em meio à gritaria e à fúria que a morte do jagunço provocou, a investida contra os pescadores pareceu desproporcional, e o segundo homem de João Cunhaú jazeu com os intestinos expostos na areia que se manchou de fezes e de sangue.

          Um homem de barba e cabelos ruivos, já sem o seu cavalo, mas ainda com a arma em punho, tentava tomar distância na água e já mirava Gustavo Alexandre que estava ali, a dois metros, como alvo fácil ou vítima consumada. Mas, Gustavo afundou rápido num mergulho e não teve dificuldade em surpreender o inimigo. Segurou-o pelos tornozelos de botas encharcadas e puxou por baixo d’água as pernas do ruivo, e se envolveu numa luta corporal em que a espingarda que o ameaçava já não participou. Atracado ao contendor conseguiu ficar de pé quando, alertado pelo grito do pescador João Gonçalves, viu, a dez metros, uma arma que lhe apontava o peito ou a cabeça. Num reflexo de animal que defende a vida, girou rápido o corpo, saiu da mira, e fez do sarará contendor o escudo que recebeu no peito a descarga fatal do fogo-amigo. O jagunço afundou na água rasa e não subiu mais. No mesmo instante Gustavo sentiu uma estocada forte nas costas. Recebera o tiro que ele não sabe de onde partiu e que faria sua Rosinha sofrer. Mesmo ferido ele arrastou-se até a margem e fez de uma pedra seu escudo e seu amparo porque já não tinha condições de luta.








Capítulo V

João Cunhaú Foge Apavorado






          Quando Afonso, o filho dileto de João Cunhaú, aproximou-se pela retaguarda de Francisco Magalhães decidido a eliminá-lo traiçoeiramente e desbaratar o grupo dos resistentes, Alex que chegava do acampamento das mulheres, não teve tempo de pensar e com um pulo e um único golpe de foice fez voar pelos ares o chapéu e o revólver do agressor e tingir de sangue, com um esguicho espantoso, o chão espezinhado por homens e cavalos, que aparou o corpo inerte do estudante que era o herdeiro de engenho Estrela e que não vai concluir seu curso de direito no Rio de Janeiro. Surpreso, Francisco Magalhães ainda viu Alex se afastar num pulo ágil para não ser lavado pelo jorro carmim do pescoço quase decapitado do filho do senhor de engenho.

          João Cunhaú, sem acreditar no que vira, ouviu o baque estrondoso, surdo e sem eco do corpo do filho que ficou encoberto de suas vistas porque caiu atrás das pedras.


          Completamente desnorteado e sob visível desvantagem tática, a única e possível reação do sanguinário João Cunhaú foi gritar, alarmado, a ordem de recuar, talvez para recompor um novo ataque. Mas, o bando de homiziados, se já não tinha fugido para não se passar por covarde, preferiu reinterpretar a ordem do senhor e, seguindo Celestino Arregaça, bateu em retirada deixando atrás de si um companheiro ferido, quatro mortos e João Cunhaú desesperado em desabalada carreira no seu puro sangue, tentando alcançar a caravana que se distanciava determinada a não mais voltar àquele inferno.

          No cenário caótico do embate, um homem, sem cavalo e sem arma, levantou os braços em rendição quando viu o seu grupo abandoná-lo. Estava desamparado e imaginou correr, mas a perna quebrada estancou seu sonho. Sentiu-se como num presídio. Arrastou-se até a uma rocha negra e irregular, recostou o corpo e manteve os braços levantados numa atitude que não se sabia se era de rendição ou de pedido de clemência, ou as duas coisas juntas.

          Lá no acampamento das mulheres aproximou-se devagar e mansamente um cavalo alazão. Estava selado, com a pata dianteira enroscada nas rédeas, e um cantil semiaberto preso aos arreios exalava o cheiro da aguardente que fora o revigorante do bandido que o animal abandonara. Isabel e as outras mulheres não sabiam como interpretar a aparição: se como descuido do cavaleiro que poderia estar escondido ali no mato a espreitá-las pronto para um ataque, ou se como um sinal alvissareiro da vitória dos formosences.

          Alex, que chegava de volta para render o posto, dirimiu a dúvida. Ele tinha na camisa branca pequenos respingos de um vermelho escuro ressaltado pelo suor, e no peito a notícia quase a explodir pela boca. Mas, anunciou calmo e manso: eles fugiram. Só não impediu o alvoroço das mulheres. E as crianças, enquanto eram tomadas nos braços pelas mães eufóricas, também celebravam com alarido o que não compreendiam exatamente.

          Alex olhou em volta, avançou quatro passos e colocando a mão no ombro de uma adolescente que lhe mirava e tinha no rosto um sorriso e nos cabelos negros um ramo de minúsculas flores silvestres, afastou-se com ela do burburinho e sussurrou-lhe alguma coisa que não se ouviu. O primeiro impulso da moçinha que já não ria foi sacar do cabelo o ramalhete como se não tivesse mais sentido o seu adorno e chorou desconsolada. D. Isaura, a mãe de Canindé, que acompanhara de viés o afastamento dos dois, reinterpretou pelos sinais a tragédia que se anunciava e correu desesperada ao encontro de Clarisse para misturar seu desatino a dor da menina inconsolável.


          Quando o pescador Germano Mendonça chegou ao acampamento das mulheres com a ordem de regresso já encontrou uma fila indiana pronta para a volta ao lar definitivo.

Nas primeiras horas da tarde, na linha do horizonte que se enxerga da ponta da enseada pedregosa, ali onde as mulheres se postam todos os dias ao entardecer a espreitar temerosas, mas cheias de esperança a volta dos maridos, começaram a aparecer precocemente as primeiras velas das jangadas que saíram naquela madrugada para a pesca e que só deveriam retornar ao entardecer.

          É bem verdade que no pesqueiro em alto mar a tensão e a ansiedade ocuparam as conversas e as conjecturas dos homens encarregados do abastecimento. A clara supremacia dos agressores não autorizava nenhum otimismo. E se o receio do insucesso não dominou completamente os espíritos daqueles homens isso se deveu unicamente à confiança que tinham se acostumado a depositar no pescador Francisco Magalhães.

          Contudo, o retorno antecipado não se devia ao nervosismo. Lá no Alto dos Pargos, o pesqueiro para aonde acorrem os pescadores das circunvizinhas, o mar estivera imune aos ventos frequentes de agosto e a correição que começara há dois dias abarrotou de ciobas as jangadas dos pescadores de Cabedelo, de Vila Flor e de Baía Formosa.

           No cenário do prélio os abraços entre os resistentes não era de comemoração, mas de dor.

Joaquim do Porto, amparado por Francisco Magalhães, jazia inconsolável ajoelhado ao lado do corpo do filho, o herói adolescente que agora parecia dormir.

          Ao lado do corpo passou um grupo de pescadores que levava Gustavo Alexandre para casa. Ele respirava com dificuldade, mas ainda tinha o domínio da vida e seus olhos aflitos não se furtaram a ver Canindé deitado na areia, iluminado pelo sol coadjuvante que conferia crueza à tragédia, e velado pelo choro ainda inconformado do pai desesperado. E Gustavo viu que o adolescente impetuoso ainda tinha os braços espontaneamente atirados acima da cabeça como uma criança despreocupada que se entrega ao sono, e notou que o vento, agitando os seus cabelos claros, criava a impressão de vida no corpo morto.
          A vinte passos do círculo dos homens que guardavam aterrados o adolescente pescador quatro corpos inertes e abandonados, que não atraíam sequer curiosos, estavam dispostos um ao lado do outro debaixo de uma cajarana frondosa. Mais tarde se acenderiam velas, eles seriam reclamados pelos seus e, já no sábado de manhã, voltariam em redes para Canguaretama pela enseada da grande Baía de Aratypicaba.

          O estranho de perna quebrada e supercílio exageradamente aberto fora trazido pelos pescadores e acomodado provisoriamente debaixo da mangueira florida onde as meninas da vila brincam de roda nas noites de luar. Estava muito pálido e atemorizado.

          Depois Ieda, a enfermeira da vila, seria encarregada por Francisco Magalhães de lhe improvisar um curativo na face e uma tala na perna. E foi assim que Praxedes Degolador, um fora da lei, foi devolvido dois dias depois, junto com o seu cavalo alazão, aos filhos assustados que vieram buscá-lo e que entraram na vila desfraldando panos brancos para se dizerem em missão de paz.

          Entretanto se recusaram, peremptoriamente, a reconduzir quatro cavalos largados na fuga pelo bando de agressores.







Capítulo VI

Triunfa o Sonho de Francisco Magalhães






           Quando Rosinha chegou a casa, egressa do acampamento das mulheres, nem notou a lama que a água do pote estourado fizera no chão de barro batido, pois, já encontrou, cercado pelos amigos, o seu companheiro Gustavo Alexandre prostrado no girau onde tantas vezes os dois se aninharam e que a pressa da manhã o tinha deixado descoberto e descuidado. O pescador estava lúcido, mas já não falava quando olhou a amada.
           Finou-se com a cabeça no colo de Rosinha quando o sol já descambava. Chorando, ela diz que ele morreu sorrindo.

          Por entre as rochas negras da ponta da enseada, contavam-se armas e botas e cartucheiras e chapéus largados na areia encharcada pela sangria, e cães oportunistas se banqueteavam com as vísceras e o sangue que a estupidez humana produzira.
          E a maré providente, se tingindo ela mesma de vermelho, já lavava o ror de sangue que se talhava nas pedras e aplainava a areia da ponta sul da enseada que os moradores agora a chamam de Presídio.
          No ritmo que as tragédias impõem, a vida foi retomando o seu curso.

Hoje Alex acordou livre e espontaneamente porque estava na hora de ir para a pesca e, já no porto da grande Baía de Aratypicaba, enquanto aguardava as providências de Joaquin Biléo para o ritual do despertar, sentado ao lado de Francisco Magalhães que lhe ouvia atento, repassou pormenorizadamente a poesia do silêncio que é emalhado pelos sons que se quebram e se extinguem e são substituídos ininterruptamente.

          Francisco Magalhães, como um aprendiz de vate, imagina e quer para o futuro uma urdidura em que nela predominem os fios sedosos e multicoloridos da alegria.


          O sorriso esboçado pelos dois era discreto porque o luto ainda pesava, mas sugeria o desejo de que se cumprisse o vaticínio porque a alegria da liberdade já se instalara novamente nas cabeças.

          E à noite, enquanto as crianças, acanhadamente, ensaiavam sorrisos e improvisavam cantigas, sentados na praia de areia branca, mulheres, homens e velhos desse arruado que depois vai se chamar Rua da Cacimba comentavam essa história da Matança de Agosto.






fim



















      




















    
Postar um comentário