quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Teatro - A Matança de agosto de 1877


QUARTA-FEIRA, 26 DE DEZEMBRO DE 2007

Personagens:


João Cunhaú

Filho de João Cunhaú

Celestino Arregaça - Lugar tenente de João Cunhaú

Escravo Jovem

1º Homem

2º Homem

Alex

Francisco Magalhães

Antônio Ferreira – contestador

Germano Mendonça – acendedor da fogueira

Joaquim Porto – Pai de Canindé

Canindé

Gustavo Alexandre

Rosinha

D. Isaura – mãe de Canindé

Clarisse – namorada de Canindé

Praxedes Degolador – jagunço

Vinte e sete homens

Mulheres e crianças

Coro
________________________

I Ato


(João Cunhaú está com o filho no alpendre da Casa Grande do Engenho da Estrela, depois entra Celestino Arregaça, seu lugar tenente.)

Cena I


Celestino Arregaça

(Aproximando-se)

– Bom dia, Seu João Cunhaú. (Virando-se para o filho do Senhor de Engenho) Bom dia, Doutorzinho. (Virando-se para João Cunhaú) Vossa Mercê mandou me chamar?


João Cunhaú

– Bom dia! (indica a cadeira) Sente-se, por favor. Celestino, decidi tirar aqueles pescadores lá de Baía Formosa. Soube que os vagabundos foram a Natal falar com o Presidente da Província para reclamar das casas que a gente derrubou no dia 2 de agosto passado. Apesar de todas as ordens, aqueles vagabundos parecem que não se intimidam. Se aquelas terras ainda não são minhas, deles é que nunca serão. Quero aquela praia desocupada até a margem esquerda do rio Guajú e vou anexá-las às terras do Engenho da Estrela. Aquela enseada vai servir somente para o meu descanso e dos meus amigos. Convidei o Presidente da Província, o Doutor José Nicolau Tolentino de Carvalho, pra passar uns dias na praia. Ele vai vir no final de dezembro quando voltar da visita que vai fazer ao Imperador Pedro II em Petrópolis. Aquela é a praia mais formosa que temos nessa região e eu a quero livre e desimpedida.



Celestino Arregaça

– Se é pra expulsar mesmo, só tem um jeito, Seu João...



João Cunhaú

(interrompendo)

– É disso mesmo que eu estou falando, Celestino. Lembra daquela área aqui ao norte do Engenho? Pois é! Já está livre e toda cercada. Lá em Baía Formosa vai ser a mesma coisa: se os pescadores não querem sair por bem, vão sair como os safados de lá de Oiticica. Vou queimar tudo o que é de maloca e se eles resistirem não vai ficar um pra contar a história. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.



Celestino Arregaça

(em tom bajulatório)

– Infeliz do poder que não pode Seu João Cunhaú. Olhe! Eu trouxe os dois foragidos da justiça que chegaram anteontem pedindo proteção. Eles estão aí fora pra falar com o senhor.



João Cunhaú

– Mande-os entrar.





Cena II

Entram os dois jagunços.

Celestino Arregaça

(Levanta-se e vai até a coxia)

– Entrem aqui! (Dois homens entram, tirando os chapéus, e Celestino apresenta-os a João Cunhaú e ao filho) Este o Doutor João Cunhaú, senhor do Engenho  Estrela e este é seu filho. (Os dois homens se aproximam de João Cunhaú e beijam a mão do Senhor e depois a do filho do Senhor e permanecem de pé)



João Cunhaú

– Estão fugindo de quê?

1º Homem

– Crime de sangue.

João Cunhaú

– Mulheres?

1º Homem

– Não senhor. Ladrão de honra de mulher casada e disputa de terra.


João Cunhaú


– Ah! Bom. Trouxeram as armas?


1º e 2º Homens

– Sim, senhor!

João Cunhaú

– Então, podem ficar aqui no Engenho. Celestino Arregaça depois lhes vai dizer como é a lei aqui. Polícia não entra nas minhas terras e também respeita os que estão debaixo do meu mando. Mas, saiu fora eu entrego às autoridades da Província que sabem o que fazer. Eu não mato assassino. Respeito todos. Só quero que obedeçam as minhas ordens enquanto estiverem sobre a minha proteção. Aqui não vai faltar a vocês nem serviço, nem assistência porque aqui tudo é farto.



2º Homem

– Já conhecemos a fama do senhor e assevero que Vossa Mercê não vai se arrepender de nos dar guarida e proteção.



João Cunhaú



– Agora podem sair e aguardem as ordens que vão ser levadas por Celestino. (Os dois homens saem. Entra um escravo jovem trazendo uma bandeja com café e serve aos três)



João Cunhaú



– Celestino, hoje é terça-feira. Escolha um bando de uns trinta homens e na sexta-feira, antes do raiar do dia, vamos botar aqueles ordinários de Baía Formosa pra correr. Se resistirem pior pra eles. (Durante essa fala, um escravo jovem que está servindo o café, faz um gesto de quem está atento àquele aviso.)



Filho de João Cunhaú



– Pai, eu quero sua licença pra também integrar o bando.



João Cunhaú



– É isso o que eu espero de você, meu filho. Você já é um homem e é quem vai herdar tudo isso. Por isso, é preciso aprender como é que se administra a vida e um engenho. Depois, tem outra coisa: eu não quero filho cobarde.



Filho de João Cunhaú

(Diz risonho ou jocoso.)



– Pena que eu vá começar matando cobardes.



Celestino Arregaça

(em tom bajulatório.)



– Aquilo é um bando de cobardes mesmo. Dá até pena gastar munição com gente frouxa. E além de cobardes, miseráveis. Com qualquer conversa a gente leva eles no bico. Magote de passa fome. Até um litro de mel de furo ou uma penca de banana compra a honra deles.



João Cunhaú



– É! Mas, deve ter alguém incentivando aqueles canalhas a me desafiar. Na sexta-feira quero me livrar daqueles miseráveis metidos a libertos.



Filho de João Cunhaú



– Na sociedade brasileira só cabem mesmo senhores e escravos. Esse povo metido a livre que nem é senhor nem escravo vai atrapalhar o futuro do Brasil. Lá no Rio de Janeiro tem um bocado de políticos querendo acabar de vez até com a escravatura. E o próprio Imperador e a sua filha, a Princesa Isabel, estão de acordo com essas idéias de gente irresponsável.





João Cunhaú



– Depois que assinaram essa tal de Lei do Ventre Livre eu não duvido mais de nada. Não sei o que os cafeicultores do Sul estão esperando que não botam o imperador Pedro II e toda a família real pra correr. Estão esperando primeiramente que o Imperador faça a reforma agrária, como ele mesmo está anunciando, pra depois agir?



Filho de João Cunhaú



– Esses políticos, como Joaquim Nabuco lá de Pernambuco, ficam pregando o fim da escravatura. Só fazem isso porque não têm engenho nem lavoura de café. Se tivessem pensariam antes como iriam fazer pra pagar tanto serviço.



João Cunhaú



– Mas, por hora, deixemos isso pra lá, meu filho, que isso é conversa pra gente tratar com os políticos daqui da Província que dependem de nós. Por hora vamos acabar com esses intrusos que se instalaram aqui nas nossas terras. (Levanta-se e dirigindo-se a Celestino, continua)

Celestino, tome todas as providências para a nossa ida a Baía Formosa na sexta-feira que vai cair no dia 10 de agosto, É um mês bom pra gente riscar Baía Formosa do mapa. Vamos partir com o nascer do dia e à noite já quero dormir com a certeza de que aquilo ali já é o quintal do Engenho da Estrela. (Apagam-se as luzes. Cai o pano.)



Cena III



(À beira-mar. Um pescador acende uma fogueira e coloca sobre uma trempe uma lata que contem água, café e açucar. Lentamente, começam a chegar outros pescadores. Trazem cacetes e facas. Aproximam-se como se estivessem espreitando alguma coisa na escuridão. Um grande silêncio é guardado. Pequenos sons de vozes. Palavras quase inaudíveis são ditas entre os pescadores. )



Alex

(Sentado ao lado da fogueira que está sendo preparada. Levanta-se e caminha para o proscênio. Falando para o público como se meditasse. E enquanto ele fala vão entrando, silenciosamente, os pescadores que vão sentando-se em forma de círculo.)



– Parece que o mundo todo está calado!

Tem sossego aqui na Terra e lá no céu também.

É como se o silêncio unisse tudo de lado a lado.

Imagino o silêncio como se ele fosse uma caçoeira gigantesca

Com as bóias lá no céu e a chumbada aqui na terra.

E aí os sons,

como os peixes,

se engancham nas malhas do silêncio

e acabam por tecer um pano colossal.

Eu sei que não temos como evitar,

mas hoje os fios da dor, do choro e da tristeza

vão ajudar a fechar as malhas desse silêncio.

São fios tão ásperos, e tão cheios de nódoas...

que o pano que vai ser feito hoje é feio como a morte.

Mas, eu sei que esses fios de sons depois se acabam

e ficam só as malhas da gigantesca caçoeira

que vão receber outros fios de sons

e formar um novo dia.



Coro

(instalado no meio da platéia.)



– O silêncio é a nossa testemunha!

A história será nosso juiz!



(Alex volta devagar e silenciosamente e senta-se ao lado da fogueira. Nesse momento entra Francisco Magalhães com um porrete na mão. Alex pega o porrete que ele traz e lhe entrega uma caneca com café. Ele senta-se na areia segurando a caneca com a mão direita e a esquerda ele apóia no chão. Enquanto toma o café ele fala.)





Cena IV



Francisco Magalhães

(Olhando altivamente o grupo)



– Formosences, esta é a nossa terra. (Bate com o pé nu na areia fofa.)

Aqui vivemos livres e é aqui que estão nascendo e crescendo os nossos filhos.

Nossas companheiras estão felizes, nossos filhos são saudáveis, e a fome não nos assalta.

Somos afortunados. (Interrompe a fala, corre novamente os olhos arregalados nos olhos muito atentos de todos os presentes e, quase que segredando, pergunta)

Vocês amam Baía Formosa? (Faz pausa, mas não se houve resposta, só o assentimento veemente de cabeças)

Se a amamos vamos defendê-la. Vamos estabelecer eternamente aqui o nosso lar.

Não vamos permitir a desonra que vai nos envergonhar depois. (Junta as mãos tendo apoiados agora os braços sobre os joelhos.)


Antônio Bandeira


– Francisco Magalhães, o que é que está acontecendo? Porque você nos faz essa pergunta? Ora, quem é que não ama a terra em que nasceu? Tem alguma coisa ameaçando a gente? Ameaça maior, Francisco Magalhães, não será a gente perder um dia de maré pra ficar aqui ouvindo esse seu lenga-lenga?

Um Pescador


– A palavra tem que estar junto com a atitude, Toinho. Atitude sem palavra vale, mas a palavra sem atitude não tem nenhum valor. É sentimento falso.


Francisco Magalhães



– Escutem isto: anteontem á noite, atendendo a um chamado, eu e Alex fomos, até quase perto do rio Curimataú. Um escravo do Engenho da Estrela, gente da cozinha de João Cunhaú, veio nos encontrar e avisou que João Cunhaú vem hoje, sexta-feira, com um bando armado para expulsar a gente daqui e queimar as nossas casas dizendo que elas estão dentro da propriedade dele.

Que vai fazer conosco do mesmo jeito que fez com os moradores de Oiticica. Que o bando, chefiado pelo próprio João Cunhaú, vai sair do Engenho da Estrela antes do alvorecer. E disse que assistiu a toda a conversa que João Cunhaú teve com Celestino Arregaça. Que a coisa é certa. Por isso proponho: se amamos a nossa terra vamos defendê-la.



Antônio Bandeira



– Defender como, Francisco? Com pedaços de pau? Você está maluco? Os homens do Engenho têm armas de fogo e já são acostumados a matar. O melhor que a gente pode fazer é fugir se quisermos ficar vivos e procurar outro lugar pra ir viver e criar nossas famílias.



Francisco Magalhães



– Toninho, nós temos três armas: a fé, a inteligência que Deus nos deu e a nossa valentia. Nós não somos covardes, Toninho.



Antônio Bandeira



– Não se trata de covardia, não Francisco. Você não está vendo que se a gente se meter com eles vamos todos morrer? Eu vou fugir agora com a minha família e quem tiver juízo me acompanhe. (Levanta-se e é seguido por mais dois que estavam sentados ao lado dele.)



Um Pescador

(em tom jocoso)


– Mas, fujam pro lado do Guajú. Pro lado do Curimataú vocês podem se encontrar com o bando de João Cunhaú, e isso poderá ser ruim para os formosences. (Ouvem-se risos)


Coro

– Nós amamos a nossa terra!



Cena V



(Após a saída dos três homens os presentes baixam as cabeças e ficam em completo silêncio. Vêem-se meneios de cabeça desaprovadores. Diminui a claridade da cena e um foco cai sobre Francisco Magalhães que, depois de alguns segundos continua.)



Francisco Magalhães

(Olhando para os que ficaram)



– Então, se amamos Baía Formosa, vamos nós mesmos defendê-la porque não temos como contar com o governo da Província do Rio Grande do Norte.



1º pescador



– Está certo, Francisco Magalhães! Nós já estamos cansados de ameaça de expulsão da nossa terra. Semana passada derrubaram nossas casas. Um dia a gente tem que dar um basta nisso.



2º pescador



– Chega de humilhação! A gente sempre respeitou todo mundo, mas eles pensam que respeito é covardia.



3º pescador

(um homem de idade)



– Francisco Magalhães, você sabe que eu não sou homem de fugir. Mas, as minhas pernas fraquejam e o reumatismo me ataca os braços. Meus dois filhos homens não vão se furtar a defender a terra deles. E que tarefa eu posso fazer para ajudar a minha terra e a dos meus filhos? Eu não vou fugir do meu dever.



Francisco Magalhães



– Temos uma manobra a fazer. Alguns homens sairão para a maré para pescar normalmente. O bando de João Cunhaú vem por cima da Baia de Aratypicaba e vai ver o movimento das jangadas saindo do porto. João Cunhaú e os jagunços vão pensar que nós estamos desavisados.



Joaquim Porto


– É! E também amanhã não vai faltar abastecimento.


Francisco Magalhães



– Joaquim Porto, você ficará encarregado de escolher os homens para essa tarefa. De preferência os mais velhos e os que estiverem sem condições de luta. Mas, preciso que você fique em terra. E os que ficarem para a resistência escondam suas jangadas em grotas e moitas seguras.


Canindé


- Seu Francisco, meu pé está inflamado e a minha perna ainda está inchada, mas eu tenho condições. Estou doido pra fazer um jagunço falar fino. (risos baixos)


Francisco Magalhães

– Seu pai já está encarregado de selecionar os que vão pra pesca, Canindé. Siga a orientação dele.

Bem! Agora são mais ou menos umas quatro e meia da madrugada, quando o sol nascer todas as mulheres, crianças e velhos deverão sair para se abrigarem em segurança na encosta do morro mais alto do Bacupari.

Ali nas Queimadas tem um cajueiro que dá para abrigar e camuflar nossas famílias.

A retirada vai ser por um caminho por dentro da mata. Alex fez a trilha caminho comigo ontem à tarde e será ele, portanto, quem conduzirá toda a gente em completo silêncio e lá permanecerá com ela para trazê-la ordenadamente depois do embate em que sairemos vitoriosos com a graça de Deus.

(dirigindo-se a Juvêncio Tanoeiro) Juvêncio Tanoeiro se encarregará de ir às Queimadas avisar a hora do retorno.

Todas as casas deverão ficar de portas e janelas escancaradas para dar a impressão que os habitantes fugiram.

Todos os fogareiros devem ficar apagados e todos os candeeiros sem querosene e sem pavio para não ajudarem ao inimigo.

Se algum de nós tombar na luta, o encargo da provisão das viúvas e dos órfãos até alcançarem a idade adulta será divido pelos sobreviventes.


Um Pescador


– E nós vamos encontrar o bando de João Cunhaú lá no porto?



Francisco Magalhães


- Não! Nós somos apenas quinze. E vamos sair de casa pela beira da praia e deixar os rastros bem visíveis para atrair o bando e vamos ficar lá na ponta da enseada do arruado, já na curva de onde se vê o Bacupari. Vamos armar uma cilada pra eles. Se eles decidiram nos atacar, nós vamos escolher o local da refrega.


Um Pescador


– Mas, ali é muito cheio de pedra, Francisco.



Francisco Magalhães


– Por isso mesmo aquele é o melhor lugar pra nós. Pra eles, ao contrário, vai ser um verdadeiro presídio para os cavalos. (Francisco Magalhães se levanta e todos se levantam também, fica parado por um instante, bate uma mão contra a outra e depois começa a abraçar um a um os companheiros que vão deixando o palco enquanto as luzes se apagam).


Cena VI


Interior de uma casa de pescador. A mulher, ajudada pelo marido, prepara a retirada para as Queimadas. Estão presentes crianças e os vizinhos entram e saem. A movimentação é rápida e as falas devem formar um burburinho incompreensivo de vozes.



Canindé

(entra, claudicando, trazendo um cesto com objetos indistintos)


– D. Isaura, minha mãe disse pra botar nesse cesto as vasilhas com água pra servir pra todo mundo.


D. Isaura

(dirigindo-se para Canindé e apontando para um canto da cena)


– Pegue aquelas ali que já estão cheias.


Canindé


– D. Isaura, obrigado. Vou recolher as vasilhas nas outras casas.


Gustavo Alexandre

(entrando com Rosinha)


– D. Isaura, ta precisando de ajuda? Lá em casa já está tudo pronto.


Rosinha

(tomando uma criança que D. Isaura está vestindo)


– Deixe que eu termine isso. Não esqueça de jogar água no fogareiro, esvaziar de gás os candeeiros e enterrar os pavios que na volta a gente vai precisar.



D. Isaura

(Virando-se para Gustavo Alexandre)


– Vocês viram pra onde Antônio Ferreira rumou com os outros? Queira Deus eles não façam uma desgraça contra nós...


Gustavo Alexandre

(interrompendo)


– Tomaram o rumo sul. Aurélio e Vicente estão vigiando os passos deles e já informaram a Francisco Magalhães que eles estão seguindo pras bandas do rio Guajú. Podemos ficar tranqüilos que eles não vão entregar a gente pra João Cunhaú.


Marido de D. Isaura

(virando-se pra Gustavo)

– E as casas deles ficaram abertas? Se eles deixaram fechadas é bom ir lá abrir pra não serem incendiadas. Porque se eles resolverem voltar depois...


Gustavo Alexandre

(saindo da cena)


– Eu vou lá verificar isso.


Alex

(entrando na cena)


– Pessoal, está na hora. As mulheres e as crianças e os velhos já estão se juntando ali atrás, debaixo da mangueira. Vamos sair pras Queimadas já já que é pra dar tempo a gente chegar lá sem atropelo e antes do bando chegar. Francisco Magalhães pede que os homens se reúnam agora em frente à casa de Aristides. (Todos começam a se retirar, as luzes começam a se apagar, e o silêncio a imperar)


Cena VII

O cenário é o da batalha. Francisco Magalhães verifica a distribuição dos homens por entre as pedras e as árvores.


Francisco Magalhães

(no meio de um círculo ele dá as últimas instruções e encoraja o pessoal)

– Pessoal, cada um lute pensando na sua família. Se fracassarmos aqui nossos filhos e nossas mulheres cairão nas mãos deles. E nós não podemos, por medo ou por covardia, permitir isso. Nós não temos nada a perder, por isso o que fizermos aqui é ganho. Eles vêm para nos matar, não se esqueçam disso. Nós temos que nos defender. Por isso, não se deve ter pena. Se o nosso coração amolecer eles vencerão, e Baía Formosa será riscada do mapa como quer João Cunhaú. Pensem, insisto, nas suas famílias e lutem por elas. Pensem em Baía Formosa e lutem pelas gerações que virão depois de nós para que sintam orgulho da gente e não vergonha.

Agora é aguardar. Cada um na sua posição deve estar atento a qualquer movimento lá pras banda do arruado. Quando o bando entrar aqui, (e indica o centro da cena) você Rufino, que vai estar já na retaguarda deles, dará o primeiro grito. É isso que vai ser a senha para começarmos a atacar.

(Os homens ocupam seus lugares)


Gustavo Alexandre

(rindo)


– Ta tremendo, Rufino?


Rufino


– Mas lhe garanto que não é de medo. E essa voz fina? É o que? Quero ver agora se você é o valente que se gaba. Quero ver se a história de botar polícia pra correr na Penha vai se confirmar... (risos)


2º Pescador


– Sebastião, tem gente aqui acocorado que parece até um sapo. (risos)

3º Pescador (gracejando)


– Cuidado com os cavalos de João Cunhaú...


4º Pescador

– Antes de um deles pisar em mim o jagunço que estiver montado nele já vai estar no chão. (Começa-se a ouvir trotes distantes.)


Francisco Magalhães

– Escuta aí, gente! Devem ser eles. Estão chegando.

(sonoplastia – trote distante de cavalos. Depois vai se aproximando. Ouvem-se mais próximo tiros e vozes e batidas de porta) (Todos os pescadores na cena se escondem completamente)

Cena VIII

As vozes serão escutadas fora da cena. No palco os pescadores estão todos entocados e em completo silêncio.


Celestino Arregaça

(a voz é ouvida fora da cena)


– Os covardes devem ter sido avisados e fugiram Seu João Cunhaú. O arruado está abandonado. Não tem mais nem fogo aceso. Talvez tenha sido melhor assim porque a gente poupa tempo e munição.



João Cunhaú


– Celestino, e esses rastros aqui na praia? Estão indo na direção sul.


Uma voz

– E não faz tempo que fugiram! Foi nessa maré de hoje porque as pegadas ainda estão vivas.

Outra voz

– Eles devem estar fugindo para a Província da Paraíba.

João Cunhaú

– Avançar, pessoal. Vamos alcançar esse bando de covardes. Agora nem fugindo eles escapam da minha fúria. Podem se esconder até no inferno que eu os tiro de lá. Celestino, a ordem é não deixar um vivo nem pra contar a história. Quero todos mortos. É matança mesmo ou eu não me chamo João Cunhaú, senhor do Engenho da Estrela. Vamos riscar os formosences safados do mapa.


Celestino Arregaça

– Pessoal, vamos em frente seguir as pegadas dos covardes. (gritando como se o doutorzinho estivesse distante) Doutorzinho! Doutorzinho!Venha aqui pra retaguarda, fique aqui ao meu lado e ao do seu pai.

Praxedes, tome a dianteira e dirija a coluna.


Cena IX


(Os jagunços entram montados pelo centro da cena que está livre de pedras grandes e de árvores, embora algumas pedras pequenas sejam vistas. Os homens não impunham as armas porque estão desavisados e não esperam a emboscada. As espingardas e os revólveres estão a tiracolo e na cintura.)

Rufino

(Saindo rapidamente de trás de uma pedra ou árvore, grita e ataca o último cavaleiro que está na retaguarda e entra em luta enquanto o jagunço tenta tirar a espingarda das costas. Canindé, mancando de uma perna, ataca outro jagunço, bate na perna dele. )

(A sonoplastia executa a Abertura 1812 de Tchaykoviski. A música começa baixa, vai subindo e permanece como fundo durante toda a luta)  (O jagunço , cai, bate com o rosto numa pedra e não consegue se levantar porque está com a perna quebrada. Esconde-se por trás de uma pedra.
Simultaneamente outros pescadores atacam os homens de João Cunháu e são também atacados.

Canindé parte pra cima do filho de João Cunhaú. Esta mancando e está com o porrete na mão. Um jagunço aponta uma arma para as costas de Canindé. )


Francisco Magalhães (gritando)

Canindé!!

(O jagunço atira em Canindé .) (Canindé rodopia e cai morto com os olhos abertos e o rosto voltado para o céu.)
(Francisco Magalhães ataca o jagunço que atirou em Canindé e dá-lhe uma porretada na cabeça.)

(O jagunço cai morto com a cabeça esfacelada.)

(Um jagunço avança para um pescador. O pescador com uma faca, fura a barriga do jagunço que cai agonizando com os intestinos na terra.)

(Outro jagunço aponta uma arma para as costas de Gustavo Alexandre que está em luta corporal com um jagunço ruivo.)

(O filho de João Cunhaú aproxima-se pela retaguarda de Francisco Magalhães e quando está apontando a arma para as costas de Francisco Magalhães recebe um golpe de foice no pescoço. Esguicho de sangue. O corpo do filho de João Cunhaú cai por trás de uma pedra.)

(Cessa a Abertura 1812 de Tchaykoviski.)

João Cunhaú (gritando)

– Recuar!

(Os capangas recuam saindo de cena – sonoplastia: trote de cavalos fugindo e se distanciando. Depois completo silêncio. Toca um trecho – o alvorecer - de Dança Macabra de Camile Saint-Säens.)

(Praxedes Degolador sai se arrastando com a perna quebrada e as mãos para cima, rendido.)

(Pescadores começam a ocupar o centro da cena. Recolhem Gustavo Alexandre que está vivo.)

(Passam ao lado do corpo de Canindé.)
(Joaquim Porto pai de Canindé, está chorando ao lado do corpo do filho em companhia de Francisco Magalhães e de outros pescadores.) 
(Outros pescadores recolhem os quatro corpos mortos dos jagunços e os enfileiram debaixo de uma árvore.)

(Trazem o jagunço de perna quebrada e o acomodam em um canto da cena ao lado dos quatro corpos dos jagunços mortos.)

Morrem as luzes.


Cena X

(Porto. Uma fogueira com uma lata prepara o café. Um círculo de pescadores em volta.

Conversam. Não estão assustados e a conversa é alta.)


1º Pescador

– Eu quase não acreditei quando vi o bando de João Cunhaú fugindo com medo da gente. Eta! Magote de covardes. (risos)


2º Pescador

– Francisco, naquele dia de madrugada, você disse que a gente tinha três armas. A fé e a valentia eu entendi logo, mas a inteligência como arma eu só entendi depois. Se a gente não tivesse ficado ali naquela ponta, eles é que estariam cantando vitória agora.


3º Pescador

– Se Francisco Magalhães fosse militar a patente dele seria de general.

4º Pescador
– Quando eu vi o jagunço, Praxedes Degolador, com as mãos pra cima e a perna quebrada eu tive até pena do desgraçado. Ele pensava que a gente era covarde pra atacar um homem sem condições de luta.

5º Pescador

– Os filhos dele, quando vieram buscá-lo, nem acreditaram que ele tinha sido tratado como gente. Ficaram até agradecidos. Aquele é um que nunca mais pisa aqui pra molestar pescador.

2º Pescador

– Se Gustavo Alexandre e Canindé estivessem aqui agora estariam rindo e caçoando com a gente. Ainda sinto falta das brincadeiras deles.

4º Pescador

– Chorando, Rosinha diz que Gustavo morreu sorrindo no colo dela.

5º Pescador

– Eu também tenho pena da tristeza de Clarisse. Ela ainda fala de Canindé como se ele tivesse ido pra uma viagem...

6º Pescador
(apontando para o céu)

- Aquelas duas estrelas que estão brilhando lá em cima são eles olhando pra gente aqui em baixo. Eles estão com Deus! Estão felizes.

7º Pescador

(olhando para o céu, grita emocionado)


– Canindé, Gustavo, vocês são mártires da nossa liberdade. Nós formosences faremos tudo para sermos dignos e merecedores do sacrifício de vocês.


Coro

(está fora da cena, posicionado em lugar junto à platéia)

– Na terra livre nascem homens libertos.

Alex

(sentado ao lado de Francisco Magalhães  que tem os olhos fixos em Alex, depois de um breve silêncio).

– Na madrugada daquele dia 10 de agosto, quando eu acordei, notei que o céu e a terra estavam em completo silêncio.

Aí eu imaginei que o silêncio existe e ele é como uma rede de pesca: cheio de malhas. Aí os sons vão aparecendo e, como peixes, vão se emalhando nele. E assim formam uma espécie de tecido que une o céu e a terra.

Naquela madrugada eu já imaginava que iriam se enganchar na malha do silêncio os sons destorcidos e feios do choro e da morte.


Francisco Magalhães

(levantando-se com os outros companheiros)

– Nós lutamos para garantir a nós mesmos e aos nossos descendentes um território livre. Tenham certeza de que a morte de Canindé e a de Gustavo não foram em vão.

Tomara, Alex, que no futuro os fios dos sons que vão tecer esse pano que une o céu e a terra sejam coloridos e alegres.

Coro

– Baía Formosa terra da liberdade!

                                                                          FIM

























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