terça-feira, 25 de dezembro de 2007

O Barril

Dario Franco


          O ato ecumênico fora encomendado pelas comunidades religiosas católica e evangélica e acatado, depois de idas e vindas até que se vencessem as vaidades disfarçadas em exigências teológicas, bíblicas, canônicas e doutrinárias, pelos seus chefes, porque Zulmira de Chichico, católica praticante, embora casada com marido evangélico, mas não tão fanático, sonhara com uma alma que se dizia atormentada, obrigada que era a empurrar um barril de ouro para o topo de uma ladeira íngreme e repetir incessantemente a ação até ao pagamento total de sua pena, como se Sísifo fosse, mas, alertara a alma do sonho à sonhadora lúcida e influente, que as orações ou exorcismos feitos por pessoas merecedoras das graças divinais ou a posse do barril por um astuto desassombrado abreviariam o seu suplício, e uma vez contado o sonho que tanto impressionara Zulmira que dizia parecia ele real, não faltou quem o decifrasse prontamente ao modo dos egípcios bíblicos e o identificasse, sem dificuldades, ao caso do barril da Ladeira da Rua da Cacimba sobre o qual falavam os antigos e, embora já fizesse muito tempo que a visagem não aparecia naquele sítio e isso, segundo a opinião de alguns, parecia significar que ela desaparecera completamente ou fora a alma libertada da pena, e nesse caso a interpretação do sonho estaria equivocada, ainda assim, diziam, não custava dar uma forçinha à alma necessitada do sonho de Zulmira aonde quer que ela estivesse, naquela ou noutra ladeira não importava, e aproveitar o ensejo para fazer um louvor ecumênico que, por certo, fortaleceria a fé dos fortes e choveria na dos pusilânimes, como acataram finalmente o padre, coadjuvado pelas freiras, e os pastores evangélicos por seus diáconos e conselheiros, e sobre essa deliberação um grupo de intelectuais que se reúne no Recanto Bar comentou a concessão dos religiosos como muito proveitosa e cômoda para eles mesmos, porque ela eliminaria o risco de algum embaixador do divino, tomando sozinho a peito o desafio de libertar a alma e despachar o diabo, e não logrando êxito nessa empreitada em campo minado, ser revelado para a turba não merecedor das atenções divinas o que poderia por em risco, ipso facto, socorria o estudante de direito que integra o grupo do Recanto Bar, os negócios religiosos que andam indistintamente de vento em popa nos dias de hoje.
          Quanto à segunda alternativa dada pela alma do sonho, conforme destacou Zulmira de Chichico, para se livrar da sua pena que era a de um vivo ardiloso tocar no barril e, ganhando a fortuna, libertá-la da agonia, embora não tenha sido deixada completamente de lado, ganhou pouca adesão e restrita repercussão, haja vista as duas fundamentais e únicas exigências rezada pela tradição e sabida por todos os comunas, quais sejam a de não poder falar, o corajoso, nenhum palavrão durante a missão; e a de não ter testemunha presencial do arrojado feito, sob pena de a mina virar pó sem valor, como já tem acontecido e ainda ocorre algures.
          Ainda assim, Zulmira de Chichico recebeu de um sobrinho audacioso e candidato único ao desafio a promessa de tentar a fortuna e, em caso de êxito, prometera generoso o aspirante a rico e a notável, dividir com a paróquia, meio a meio, a tonelada, ou mais, como frisou, do ouro que se avalia ter no barril, no que foi prontamente elogiado pela tia beata e influente e por mais alguns, incluído aí o vigário da paróquia, e chamado de besta por muitos, juntados aí os antipapistas e os assíduos racionalistas cartesianos do Recanto Bar.
          Já estava, pois, marcada para a primeira sexta-feira do mês a benção ecumênica da Ladeira da Rua da Cacimba, embora não tivesse a escolha do dia do evento qualquer relação com a devoção à Santa Margarida Maria de Alaquoque que inventou a piedade da comunhão das nove primeiras sextas-feiras consecutivas do mês, com garantia de indulgência plenária e embarque sem escalas pro paraíso, como fez questão de justificar o vigário da paróquia, ao modo de quem se acautela contra uma interpretação maledicente futura, ou, simplesmente, empresta importância à sua escolha, porque ninguém a tinha contestado. E à dita benção, continuou o vigário precavido que já tinha tomado a palavra, se seguiria uma procissão em que todos portariam uma vela acesa significando a fé recebida no batismo e o tal cortejo, embalado por cânticos e orações, partiria da Ladeira da Rua da Cacimba até a Santa Cruz das Areias, e os pastores cristãos antipapistas, desconsiderando a competição desleal que é o batismo de bebezinhos ainda na folha e portanto, de quem ainda não crê, disseram daquela sim, mas dessa a gente não participa porque procissão é um costume pagão do romanismo, embora, tentando amenizar a negativa que poderia ser interpretada pelo clérigo católico como resistência à união das igrejas cristãs, o que soaria inoportuno e fora de moda, falaram olhando também para ele ao modo de quem o incluía claramente no pronome explicitado propositadamente, e à maneira de quem diz veja como não temos resistência, vamos todos nós, e repetiram o nós, nos empenhar para libertar da pena infernal, com as nossas orações e imposição das nossas mãos, aquela alma que há tempos não aparece, mas que quando aparecia empurrava o barril ladeira acima toda vez que ele rolava ladeira abaixo e que perturbava o sossego do espírito dos vivos, não com o tilintar do metal nas pedras, que isso diz respeito somente ao embaraço do corpo, explanava agora pastor pentecostal, mas com a cobiça que despertava e se apossava das mentes dos que crêem mas não temem a Deus e que os levava à perdição da alma, e o vigário cristão católico, ensaiando um ecumenismo canhestro, pensou, eles não caíram nessa de procissão, e falou como se tolerante fosse, tudo bem, está certo, se não é possível o todo, a parte já atende à aflição da alma castigada, porque a caminhada teria o fito de fortalecer e de proclamar a fé católica em todo o orbe, do qual as almas dessa insigne capela também fazem parte, e os pastores renitentes cruzaram os braços numa postura de quem diz agora é que a gente não participa mesmo porque ninguém está aqui para botar azeitona na empada de ninguém, e o padre rendido, mas fingindo resignação continuou explanando sua tolerância, está bem, vamos nós católicos sozinhos fazer essa penitência pela salvação da alma do sonho de Zulmira de Chichico e também pela de outras tão necessitadas quanto essa, porque a caminhada é longa e estafante, e o sacrifício dos vivos, feito com reta intenção, poderá ajudar até a uma centena, se tanto houver, pagando pena idiota.
           Esse foi, portanto, o finalmente do acerto da função ecumênica porque até chegarem, o cura da paróquia e os pastores das cinco denominações cristãs, a um acordo teve muita controvérsia, sobretudo quanto a dois aspectos que devem ser ressaltados aqui: o primeiro foi sobre qual seria a função litúrgica própria a ser celebrada, se exorcismo, se execração do local das aparições da visagem ou finalmente se orações pela alma aflita, contudo, como não havia corpo para ser exorcizado nem o local era sagrado para receber tal imprecação, decidiram por uma benção que sempre cabe em qualquer situação, como arrematou o pastor da Assembléia de Deus; já o segundo item era a propósito da origem do ouro que se diz conter o tal barril e que aqui se abrevia a pendenga porque não houve consenso: se era dádiva divina para premiar um merecedor, e o cura católico que defendia ser divina a procedência, fundamentando no argumento que tudo que há no mundo fora criado por Deus, e citava o Gênesis, o fazia tendo bem presente na memória a promessa de um fiel de doar a metade da fortuna à paróquia se fosse contemplado; ou astúcia de Satanás, para ganhar uma alma, como retrucou o pastor dos batistas a quem nada fora prometido, e lembrou como esse anjo das trevas ofereceu ao Filho do Homem, em troca de adoração, os reinos do mundo que não os teria oferecido, está claro, se não fosse ele o incontestável proprietário, conforme está escrito em Mateus capítulo quarto versículos oitavo e nono, e quase dizia dez mas recuou cabreiro, o que gerou a desconfiança dos críticos do Recanto Bar. E essa citação com precisão indubitável tinha também o intuito de mostrar o seu domínio e a sua intimidade com a Palavra e ganhar assim autoridade perante os pares, segundo interpretou Seu Pedro, quando atiçado, sobre a fala do pastor sem promessa, mas sabedor da intenção anunciada pelo sobrinho corajoso de Zulmira de Chichico.
           Entretanto, e isto é justo que se diga, houve concordância sobre o pecado da cobiça, no caso o de lançar mão daquele ouro porque isso leva à condenável usura e que, resmungou triunfante o vigário da paróquia, é essa dita avareza classificada e catalogada como pecado capital, junto com mais seis, segundo a doutrina da nossa mãe a Igreja desde o século terceiro desta era, a cristã, é óbvio, comum, a era, aos polemistas portanto.
           A precisa interpretação do sonho de Zulmira de Chichico, na mosca como resumem os populares, gerou um pequeno desentendimento comunitário, mas nada que se possa dizer que criou um impasse: é que muitos têm reclamado a autoria do desvendamento do enigma onírico, no linguajar dos intelectuais do Recanto Bar, entretanto, há um relativo consenso em torno do nome de José, um comerciante próspero e administrador sagaz originário do Sagi, que mexe também com esoterismo, e que agora recebe muito maior inúmero de consultas diárias, sobretudo para dar palpites para o jogo-do-bicho, e que o faz sempre com preços a combinar.
           Estava marcado o ato, como já se contou, e o pretérito imperfeito do verbo não foi colocado ali para definir nenhuma temporalidade, mas para ensejar uma narrativa, ainda que sintetizada, sem omissões, tal qual foi ouvida, porque na quinta-feira, véspera do dia d em que se juntariam papistas e antipapistas congraçados num só objetivo, abençoarem o local e cantar hinos que incomodariam o capeta se ele estivesse pelas cercanias ou envolvido no caso como desconfiavam todos, o barril de ouro, inesperadamente, depois de anos sem aparecer, se antecipou em um dia à liturgia ecumênica planejada para azucriná-lo, e rolou toda a noite ladeira acima ladeira abaixo, lenta ou descontroladamente conforme em aclive ou em declive na ladeira, e essa coisa medonha e barulhenta que estava temporariamente adormecida não só assustou os habitantes do entorno da ladeira porque não viam ninguém a empurrar o tesouro para o topo da ladeira, embora a impressão de que alguém o impelia foi compartilhada por todos, como também surpreendeu a muitos que estavam certos que depois que a ladeira fora calçada com paralelepípedos, a aparição, como se dizia, tinha sido automaticamente relegada a histórias do passado, o que se viu agora que não era bem assim, e que o sobrenatural também tem os seus caprichos, como insondáveis semelhantemente são os desígnios do Todo Poderoso.
           Na mesma noite em que o barril ressurgiu D. Rosa, a rezadeira católica fervorosa e praticante, a mais afamada das benzedeiras do lugar, estava bem ali, na descida da Rua Nova, ao alcance do povo na hora que ele bem entendesse ou precisasse, e o caso foi de necessidade extrema como qualquer um poderá julgar, foi chamada, pois, a rezadeira, às pressas, para uma reza de improviso com folhas de liamba e pinhão roxo que ela mesma catou no quintal da sua casa que não é molestada por polícia que sabe que ali o uso da folha tem exclusiva finalidade religiosa, e que foi um santo remédio a tal mandinga, como substantivou depois um pastor enraivecido, porque quando ela, após ter pedido que quem soubesse rezasse o Credo em voz baixa, e, com os olhos fixos no céu, ter feito a elevação solene de um copo d’água barato e fosco de tanto uso, mergulhou o ramo de poderosas folhas mistas no seu cálice ordinário e aspergiu de cima da barreira o tal barril de ouro gritando com voz esganiçada Vade retro, Satanas, o pipoco que se ouviu e o cheiro de enxofre que se espalhou pelos arredores e que foi sentido até no porto, como noticiam os que testemunharam, e que não foram poucos, fez cessar completamente a aparição que já estava importunando e, para alguns, também fez parecer ter acabado de vez a dúvida quanto à origem daquela riqueza e revelado o Malvado como proprietário inconteste. E diz-se alguns porque há quem negue ter sentido o tal cheiro que é tido e sabido como característica do Maligno, e batam o pé dizendo eu estava lá e o pipoco, sim, esse eu ouvi, mas não senti cheiro nenhum, isso é só conversa do povo que por sua vez contra argumenta perguntando em que posição você estava, contra ou a favor do vento, e então?
           Contudo, o consenso sobre a eficiência e o poder da reza da benzedeira não teve opositores entre os tantos que presenciaram o exorcismo, e D. Rosa, após ter botado o resto da água no tronco de uma árvore que estava ali ao seu lado e de ter atirado o ramo da reza entre os arbustos da falésia, passou indiferente em meio aos curiosos, levando o copo vazio como quem carrega displicentemente um cetro e com a dignidade excelsa e a sobriedade altiva de uma rainha respeitada pelos seus súditos, conforme opinião dos intelectuais do Recanto Bar, ou como uma feiticeira debochada e atrevida desafiando a divindade, como opinou muito depois o representante do bispo diocesano. Porém uma coisa que todos falam e, por isso, não se deve omitir, é que não lhe faltaram, naquele instante, reverências, vênias respeitosas e olhares de orgulho nacionalista, como se dissessem nunca duvidei da categoria da nossa velha benzedeira.
            Parece não haver nenhuma dúvida entre os populares quanto ao que todos pretenderam com aquela reza de emergência e ministra sem credenciais e paramentos: primeiramente, porque todos estão certos que a reza fora tão somente para atender a uma situação crítica, um paliativo enfim, enquanto não se fazia a intervenção definitiva e programada para a sexta-feira que seria o dia seguinte; e em segundo lugar, porque nunca ninguém sequer imaginou, longe de nós tal desatino, diziam, em substituir ou atropelar o também tradicional serviço eclesiástico que já desembarcou aqui com o Cabral, por isso mesmo, mais apropriado para um caso que já se arrasta há séculos sem que nenhuma autoridade competente, e aí se referiam aos religiosos, tenha tomado a iniciativa de dar um basta naquilo, como se está fazendo agora por iniciativa e piedade populares, é bom que se diga, e concessão arrancada a fórceps dos graduados, senão para libertar a alma do supliciado, ao menos para dar sossego aos vivos sacrificados que precisam trabalhar no dia seguinte, repetiam compulsoriamente, mas não sem restrições, os autores da idéia de convocar, desavisadamente, a benzedeira que julgavam inofensiva, e quando se confessavam pecadores equivocados o faziam como quem é instado a mostrar arrependimento e pedir perdão para não ser retaliado pelos influentes líderes religiosos.
           O caso de Argemiro, sobrinho de Zulmira, que incentivado por meia dúzia de atiçadores, queria por a mão no barril para ganhar a fortuna, porque segundo a tradição quem o tocasse lavava a burra, não merece maior comentário porque, desestimulado prudentemente pelos mais velhos que diziam que ninguém poderia testemunhar aquela ousadia que era almejada por muitos, e que se tal coisa acontecesse a fortuna se reduziria a nada, e as adjacências da ladeira neste instante estavam apinhadas de vigilantes curiosos e assustados, o filho de Sinhô desistiu da empreitada, embora corra a boca pequena que foi por medo mesmo que ele não consumou o ato porque o moço gaguejava muito, coisa nunca esperada de um rapagão de um metro e oitenta e conhecido como arrojado, e suas pernas tremiam feito vara verde, segundo a
analogia que prevaleceu entre os cronistas no dia seguinte, e que mesmo sendo, a tal comparação, uma fórmula já consagrada e batida, diz perfeitamente o estado lastimável em que se encontrava o pobre rapaz que sempre foi tido como corajoso, e essa fama tinha respaldo sólido até entre os marmanjos do seu círculo.
           Ora, ressaltar o arrependimento de Argemiro, depois que a assombração cessou naquela noite, qual seja o de não ter seguido seu intento, só vale a pena para destacar a conclusão a que Seu Pedro chegou, e mais uma vez despertou a cobiça de Argemiro e de tantos outros que dizem agora cheios de bravata na próxima eu vou.
            Ora, explanava Seu Pedro, se se quer dar um ponto final na aparição perturbadora nada melhor do que resgatar a fortuna e libertar a alma do castigo de ter que empurrar ladeira acima um barril pesado toda vez que ele desce desembestado e sem governo, no que foi aclamado como o único lúcido neste hospício de aparições. E de quebra, teorizava Seu Pedro convencido da lucidez do seu juízo, ainda se dispensaria a intervenção eclesiástica em coisas duvidosas, se eliminaria o risco de controvérsias doutrinárias inoportunas que não se somam ao esforço católico em direção ao ecumenismo, e se teria também a vantagem de se ter um rico entre nós para ajudar aos necessitados, desprezados pela prefeitura que ele critica lúcida e logicamente, com preciosos e contundentes silogismos, sempre que lhe dão oportunidade de opinar.
           Todavia, um fato em todo esse imbróglio mereceu a atenção de todos.
Trata-se da retaliação dos religiosos papistas e antipapistas, imediatamente unidos, sem precisão de concílio nem de acordos, contra os fiéis, depressa achacados de anátemas, heréticos e feiticeiros, porque procuraram, como justificam aqueles, fora dos ensinamentos catequéticos e contra as proibições bíblicas, a cura transversa para os males do espírito ou da salvação das almas, e rechaçaram veementemente as insinuações simplistas e maledicentes de competição mercadológica entre as igrejas aventada por um estudante de marketing no Recanto Bar onde se reúnem os materialistas.
            E o desagravo dos pastores e do padre se manifestou impetuosa e primeiramente na negativa de realizarem a função programada, com empenho e alguns desentendimentos é bem verdade, qual seja a de abençoar o sítio, palco das aparições, e de orar pela alma atormentada pelo Perverso, na primeira sexta-feira como já foi dito, e que para tal solenidade, já tinha sido preparado até um estrado de quatro metros por três e um e meio de altura que serviria para destacar da turba ignara os graduados religiosos, e decorado, esse palanque, com muita pompa para impressionar, quem sabe, a Satã que pode estar por trás dessas aparições diabólicas e que detesta toda pompa porque o faz lembrar-se da que perdeu com a circunstância da revolta ainda no começo do mundo, conforme está escrito e em boa hora lembrado por Seu Pedro.
             Se a negativa da função religiosa frustrou e revoltou a população que em represália, numa ação rápida e desautorizada, desmontou o palanque e deu nova e mais útil serventia à madeira ali usada, como avaliam os sem religião que freqüentam o Recanto Bar, ninguém imaginaria que o pedido de excomunhão de D. Rosa que o pároco anunciara já ter encaminhado ao bispo diocesano, criaria um tão generalizado tumulto entre os católicos e também entre os evangélicos solidários, e se os pastores não se manifestaram contrários àquele desatino, diziam os evangélicos antipapistas, foi por falsa cautela ou prudência inoportuna, que isso não era hora de se negar acolhida ou de se fechar as portas a quem precisa, dizia o transparente e ingênuo irmão Josafá, mormente para uma acolhida tão estratégica do ponto de vista da repercussão positiva para nós e negativa para eles segundo a matemática do proselitismo, que o diácono Melquíades dissimuladamente corrigiu por estatística da conversão, mas os leigos católicos, desafiando a hierarquia eclesial e agradecendo a solidariedade dos protestantes antipapistas, diziam, D. Rosa é nossa e quem tem que ser cortado da nossa comunhão é o padre porque a nossa rezadeira mostrou que tem merecimento e intimidade com as coisas divinais, expulsando, sem empáfia, sem paramento e sem blábláblá, mas só com três palavras e algumas gotas d’água, o Demo que escraviza aquela pobre alma, que em vida não deve ter sido boa bisca, obrigando-a a arremeter um peso incalculável, mas, como balizam os mais velhos, não é menos do que uma tonelada de ouro bruto, ladeira acima, sempre que lhe dá a veneta de exibir poder para amedrontar os mortais assustadiços.
           De nada adiantou a explicação do enviado do bispo fundamentando no Código do Direto Canônico o crime de D. Rosa contra a doutrina e a fé, qual seja, o de misturar palavras sagradas com bruxaria, ainda que o resultado tivesse sido satisfatório, mas rendeu-se a contragosto, porque ninguém se rende por gosto, ante o alarido de protesto da assembléia que lotava a capela acanhada porque lhe veio à mente que já não há, infelizmente, condições para imposições soberbas e dogmáticas como nos tempos da Sacra Congregação da Inquisição Universal, num mercado aberto em que todo dia nasce uma igreja e se enche de adeptos, e num mundo político onde a democracia, como coisa do Demo que a palavra parece até dizer, mas não diz, mina quase que irreparavelmente as instituições monárquicas eclesiásticas, e findou, o núncio do bispo, negociando, com os fiéis exaltados, a comutação do pedido de excomunhão pelo afastamento do sacramento da comunhão por um ano e o abandono imediato da prática do esoterismo, que substituiu na bula, por pressão dos fiéis insatisfeitos e ameaçadores, a expressão prática da bruxaria, no que D. Rosa, chorando, agradeceu a tolerância, mas a assembléia só engoliu essa por atenção à benzedeira, porque diziam os integrantes do conclave, ela nunca foi bruxa como caluniou o representante diocesano, e como é que nós vamos nos desembaraçar quando ocorrer um caso de mau olhado ou de espinhela caída, mas alguém acalmou os ânimos quando cochichou para um vizinho de cadeira que a proibição se restringia à D. Rosa e para isso a gente sempre tem um jeito a dar, o que depois um estudante de sociologia freqüentador do Recanto Bar protestou inflexivelmente contra essa tolerância dizendo hoje é D. Rosa e amanhã é D. Eliza, e assim por diante.
           Dois adágios populares, mesmo batidos e carentes de exatidão, poderiam ser pinçados para enquadrar o episódio a que se assistiu oito dias depois: o primeiro é a voz do povo é a voz de Deus e o segundo, o feitiço sempre vira contra o feiticeiro, mas que nesta narrativa preferiu-se substituir o segundo, que também foi ouvido, pelo Deus escreve certo por linhas tortas para não ferir susceptibilidades ou mesmo não dar margem a interpretações distorcidas e maliciosas de alguma testemunha presencial e agora leitor ocasional.
            Era quinta-feira e já passava um pouco da meia-noite quando um som que ainda era distante, mas que lembrava o do tilintar do barril de ouro, rolando nas pedras irregulares do calçamento, começou a acordar novamente os moradores assustados do entorno da Ladeira da Rua da Cacimba.
           Por alguns minutos as casas permaneceram fechadas, e os notívagos que jogavam conversa fora, acompanhados por um litro de cana que misturavam com refrigerante quente, na Praça Eliza Carlota, ali pertinho da Ladeira da Rua da Cacimba, aguçaram os ouvidos e uníssonos se alarmaram: será o barril sendo empurrado ladeira acima? Mas, permaneceram tensamente paralisados em suas posições a se entreolharem assustados como se pensassem será que estamos ouvindo visagem mesmo ou é a cana que está dando revertério?
           A descida desenfreada do cobiçado e assustador barril ladeira abaixo definiu o som e varreu toda suspeita.
           Aí as luzes das casas que dormiam começaram a se acender e as janelas e portas, como olhos e bocas, se abriram para ver e lamentar o desatino da alma que empurra o barril de ouro ladeira acima, e os conversadores da Praça se posicionaram alvoroçados atrás dos postes cegados pelas atiradeiras dos moleques e sob os terraços escuros das casas e das lojas onde enamorados furtivos se desenroscam, como espiões que querem ver sem serem vistos, ou como crianças tímidas alarmadas com o desconhecido.
           Alguns desinformados dos bastidores da provação vexatória e intolerante, como criticam todos repercutindo a opinião dos intelectuais que se reúnem no Recanto Bar, promovida pelo vigário e pelo representante diocesano, por que passara D. Rosa, não perderam tempo, e foram incontinentes chamar a rezadeira prestigiada pelas potências divinais e ouviram de cara um não convicto e solene seguido de um não tem quem me faça mover uma palha, que a bem da verdade um ramo, todos sabem, bastaria, ou nem isso como se saberá adiante.
            Nem os apelos agora repercutidos na porta de sua casa pelos pastores antipapistas, por D. Clotilde, coordenadora da pastoral catequética, e até pela Irmã Viridiana, superiora da Congregação de Santa Margarida Maria de Alaquoque, sensibilizaram D. Rosa que disse ninguém assume o peso do castigo, embora dividam os clamores e emprestem solidariedade, e formou-se então, ante a negativa peremptória da rezadeira, uma embaixada de notáveis religiosos e leigos e saíram madrugada a fora buscar o padre na cidade vizinha que é a sede da paróquia, e o padre acordado pelo alarido, ressuscitou a idéia da benção ecumênica, negada como represália, porque assim não se quebrariam os cânones e se exercitaria a tolerância, no que foi aplaudido calorosamente pelos embaixadores que diziam, como não tivemos essa imaginação de voltar atrás com a palavra sendo esse um caso justificável de quebra de palavra?
            Na Ladeira da Rua da Cacimba, diante da massa que já se aglomerara, embora já fosse madrugada, o barril infernizava a vida dos moradores e protagonizava o espetáculo de subir lentamente e descer desembestado a ladeira, quando o grupo dos graduados religiosos e alguns leigos notáveis chegados da cidade vizinha desembarcaram na Praça e se dirigiram para o topo da ladeira para iniciar a função, debaixo do tilintar sem trégua do barril e da grande expectativa dos presentes que agora já incluía até moradores da distante Rua de Seu Péla..
           O silêncio que se fez quando começou a cerimônia, aventou depois Carlos Augusto sentado à mesa com amigos no Recanto Bar, bem que poderia ter sido quebrado pelos primeiros acordes do Also sprach Zarathustra que comporia perfeitamente a magnificência do rito que se prenunciava, mas foi o canto insosso de ‘segura na mão de Deus e vai’ que abriu as orações que duraram por mais de meia hora e que se viu serem inócuas ou sem merecimento os rezadores, porque o barril, como quem dizia tô nem aí, continuava a rolar no mesmo ritmo e com a mesma persistência, e o grupo de notáveis papistas e antipapistas, sob o olhar desconfiado da multidão que já abandonava a piedade e a unção e começava a rir da cara deles, num brevíssimo concílio, ali mesmo no topo da ladeira sinistra, e que depois o bispo diocesano qualificou-o de conciliábulo, decidiu o grupo, pois, chamar a D. Rosa sem credenciais canônicas e sem saberes teológicos para socorrer os ilustres hierarcas do baixo clero que estavam em maus lençóis, haja vista que desafiados nas suas autoridades por um barril mal-ouvido, embora significante.
             Sem se fazer de rogada diante da gravidade do que lhe expuseram os religiosos, mas com muita humildade, D. Rosa assentiu na colaboração, catou rapidamente seus ramos no quintal e, em camisa do pijama e com os cabelos desfeitos pelo travesseiro e esbranquiçados pelo tempo, ajuntou-se no topo da ladeira aos ministros mal-sucedidos e desapontados, se postou discretamente por trás da muralha de religiosos que presidiam o ofício inócuo e, com a garantia que nada de mal vindo da jerarquia católica lhe sucederia, pediu baixinho aos graduados religiosos que todos rezassem em silêncio o Creio em Deus Pai, mas os pastores evangélicos disseram que não que isso é profissão de fé católica haja vista que a certa altura a fórmula reza creio na santa igreja católica, e o padre papista interferindo alvoroçado, em tom acomodatício e bajulatório, acrescentou, deixemos isso pra lá, caríssima irmã, porque eu mesmo já fiz isso agorinha mesmo e não tive êxito, e D. Rosa, vendo que naquele grupo, engessado por doutrinas, questiúnculas, jerarquias e vaidades, não iria fazer brotar a compaixão humana, nem a piedade cristã indispensáveis para o caso, deu dois passos à frente por entre as frestas da muralha de religiosos que ela abriu a custo, e que a escondia do povo, apareceu, franzina e desgrenhada, perante a multidão, já sem seu cálice ordinário e sem a ramagem de liamba e pinhão roxo, objetos do seu rito, que o padre lhe tomara sem que nem ela percebesse no preciso momento em que ela dava as duas passadas, e ele fez isso com o intuito de lhe barrar o sucesso como asseguram muitos, e D. Rosa, dirigindo-se, ao povo piedoso e sensível à dor da alma apenada, fez em voz alta o seu pedido a que todos rezassem em voz baixa o Creio em Deus Pai, e o zunzunzun que corria no meio da massa cessou, e em seguida D. Rosa, com os braços magros e pelancudos estendidos para o alto porque eles não seguravam mais nada, e com toda a sua unção e a sua fé simples, conforme a opinião do povo, bradou o Vade retro, Satanas que está no versículo décimo do capítulo quarto de Mateus, informação sonegada pelo pastor dos batistas, mas pesquisada e descoberta pelos intelectuais do Recanto Bar, e, alegria das alegrias, o estrondo e o cheiro de enxofre, que se temia não acontecer por falta do ramo e da água, impactaram a multidão porque foram bem mais fortes que da primeira vez, como que para dizer não duvidem do poder nem do saber dessa velhinha.
          Até o padre que tentara gerar o fiasco, abortado por um poder maior do que o dele, segundo a expressão de Seu Pedro, chorando, ninguém soube o porquê, esqueceu momentaneamente a superioridade que ostenta como integrante da jerarquia católica e embarcou entusiasmado, abandonando impensadamente a postura e o decoro clerical, na onda de aplausos que irrompeu espontaneamente, forte e sem controle, no meio do povo, e se os pastores cristãos antipapistas não se regozijaram também publicamente ao menos não tiveram coragem de esboçar, perante a multidão, cara de repúdio para não perderem fiéis, mas não escaparam da censura quando se justificaram que não tinham aplaudido porque tinham as mãos ocupadas com a Palavra e ouviram a resposta, bem que a poderiam ter metido debaixo do sovaco, e isso não era desrespeito, como pode parecer, porque é assim mesmo que eles a conduzem quando põem a gravata para ir ao culto, como observou Seu Pedro.
            Irmã Viridiana, assumindo a coordenação do cortejo que vai proclamar a fé católica, atacou com o canto 101 do Louvemos ‘segura na mão de Deus’, também entoado nos préstitos fúnebres, e foi seguida por quatro gatos pingados, enquanto a massa se retirava fazendo lorota, e D. Rosa, a benzedeira, despenteada e em camisa de pijama já era vista abrindo a porta da sua casa para retomar seu descanso merecido, porque amanhã ela vai prosseguir no trabalho da encomenda dos vinte metros de renda de bilro para entregar no sábado, e com o dinheiro pagar o papel de água na segunda-feira.
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