terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Os marinheiros da Rua do Funil - Conto

   Dario Franco 
     


            O fato inaudito, sob segredo de justiça, ainda é investigado pelo Ministério Público, e o Departamento de Matemática e Física Aplicada da Universidade Pública Federal mantém sob as chancelas de “confidencial” e “reservado” um relatório com mais de duas mil páginas produzidas com as pesquisas no campo da antimatéria e que versam sobre mesons-B e suas antipartículas e os antimesons-B. Observações essas que estão sendo desenvolvidas a partir do K2 instalado em BF, numa fortificação que nasce subterrânea na encosta da falésia, entre a Ladeira do Porto pelo lado Norte e a Ladeira da Rua da Cacimba pelo lado Sul e se camufla em residência insuspeita, mas de muito reduzido e seleto acesso.
            Quanto a câmera, que segundo um russo que trabalhava em convênio com aquela universidade, equipada com filtro infravermelho e bio-sensores instalada no terraço da fortificação disfarçada, que apontava diuturnamente para o Pontal e que serviu para a população de galhofa porque se dizia quem foi que já viu câmera fotografar visagem, e que também foi alvo para a pontaria dos moleques importunos que apostam corridas de carrinhos de rolimã na barreira, foi retirada a geringonça, como se falava, à cerca de dois meses e sobre ela não mais se fala.
            O que querem a justiça e a ciência, porque muitos interpretam como sinais dos tempos e ponto final, é encontrar uma resposta plausível e convincente para o caso insolúvel, ao menos por enquanto, que ficou conhecido como o d’Os Marinheiros da Rua do Funil, embora já fosse antigo esse mistério da presença dos homens da armada no local e que muitos incrédulos o tinham como invencionice de alucinados.
             Carlos, um protagonista e testemunha viva do episódio fantástico, ainda reage negativamente sempre que o jargão “queremos justiça”, complementa a notícia de uma hediondez e ganha voz nos telejornais. Para ele esse calão bem que poderia ser traduzido por queremos vingança se se interpretasse o tom em que o ditado soa, e se se dissecasse a afetação odiosa que molda a cara de quem o grita. Não qualifica os dizedores de hipócritas, mas de néscios e de bárbaros e quer distância deles porque os qualifica ainda de linchadores potenciais.
             Ele também torce para que o caso se elucide. Diz que é a única maneira de barrar olhares e comentários maledicentes que se ouvem pelos cantos, agora com menor intensidade, é forçoso que se diga, por que o imbróglio já saiu da ordem do dia para dar lugar ao caso do barril de ouro que é outra história que rola solta.
             Nada na praia apontava para o extraordinário no dia da aparição e do desaparecimento fatídicos e controversos.
            O verão era vivido plenamente e evoluía conforme o esperado. Nem a maré de sizígia da lua cheia de janeiro, aguardada por turistas, pescadores e surfistas se furtou, e na antevéspera do plenilúnio o mar se enfureceu e ribombou no Pontal e no Picão se dizendo pronto para o formidável espetáculo em que o homem desafia a onda e o mar celebra seu conúbio com a prancha.
             O mar está bombando em BF.
             E essa notícia da turbulência do mar, com ondas primorosas no julgamento dos entendidos em surf, voou rápida e eficientemente para Recife, João Pessoa, Natal e alhures:
             Em terra, claro, estava deflagrada a curtição.
           Na noite daquela sexta-feira de janeiro, a chegada dos surfistas criava na cidade um clima de celebração festiva, de encontro alegre de esportistas em competição, de congraçamento de velhos e de novos amigos manifestados pelos uhuus repetidos à exaustão.
             As barracas da praia que se perfilam no Pontal, os alpendres das poucas casas ainda desabitadas dos veranistas retardatários e o albergue de Regina abarrotaram-se de pranchas, mochilas e redes coloridas que se cruzavam como numa trama.
            O lual na areia da praia da Rua da Cacimba dessa mesma noite reuniu muitas convidadas, nativos e visitantes congraçados em torno de uma fogueira, como num ritual indígena ou pagão em que não faltaram, o cauim, o cachimbo da paz, nem as loas e oferendas ao poderoso, sereno e impetuoso Netuno, estabelecedor da ordem.
             No segundo patamar da cidade acidentada, a Praça Eliza Carlota, ou simplesmente a Praça, que durante todo o ano dormita sob a luz pardacenta de um poste solitário; que guarda uma apatia de belvedere esquecido; que alcovita encontros furtivos de adolescentes enamorados; e que acolhe o ócio rotineiro e sem perspectiva dos desocupados e dos bêbedos, acordou e repercutiu a notícia alvissareira e se embalou também nos muitos decibéis calibrados nos carros que se concentravam no largo.
            O vai-e-vem de gente jovem se encontrando, os abraços efusivos e os risos espalhafatosos e estridentes ampliavam aquela agitação e davam o tom à partitura da celebração.
           O verão é mesmo uma estação pungente!
           Há quem despreze ou não dê ouvidos ao presságio, mas para alguns parecia haver naquela movimentação nervosa, alguma coisa de incômodo ou de dissonante. Para esses era como se a noite tramasse algo de insólito, qualquer coisa de anormal ou, quem sabe, um tanto de trágico se não fosse essa uma palavra exagerada.
          - Estou com um pressentimento ruim. Nirinha disse isso assim a esmo, mas ao seu lado, Eisinha dizendo vira essa boca pra lá tentou espantar o presságio, mas não evitou que Claudia, se dizendo arrepiada, repercutisse a intuição, e num gesto tão espontâneo quanto gracioso, cruzou os braços como para fechar o corpo ou como para se acautelar de um mal que parecia iminente.
          Entre os muitos surfistas que acorreram a BF nessa temporada, dois estavam ali pela primeira vez: Carlos, de cabelos negros e longos, e Wobber, de ombros largos, olhos verdes e tatuagem – o tridente de Netuno - no braço.
           Não eram de todo estranhos ou raules, como nomina a tribo, mas chegados de Henrique, um freqüentador assíduo de BF desde o tempo em que Fábio Gouveia dava os primeiros passos ou as primeiras pranchadas no Presídio que agora chamam de Pontal.
           Tinham chegado à noite anterior e ao amanhecer da sexta-feira já se lançaram ao mar para inaugurar o dia ou fazer o terral, conforme ainda a língua da tribo, e essa primeira sessão fora como que o batismo no Pontal onde o mar rugia como fera contida a tentar a escapada.
          E à noite, depois do lual, eles, como tantos outros, quiseram estender as comemorações e subiram até ao belvedere que hoje está apinhado.
          Pelas onze e meia da noite a movimentação, como tudo na vida, já se amainara e o recolhimento dos celebrantes já definia um andamento pianíssimo, quase rallentando, na melodia da comemoração.
          Henrique, o veterano, disse aos chegados que iria esticar a noite com a gata que estava ao seu lado, e Wobber, o de olhos verdes, com um riso que indicava mais aquiescência do que conformação limitou-se a desembarcar a prancha que estava no banco traseiro do bugge. Depois, numa atitude de quem explora um território ou dá asas à curiosidade, dirigiu-se a pé, sempre na companhia de Carlos, o de cabelos longos, para a Rua do Funil que fica contígua à Praça Eliza Carlota.
          A Rua do Funil é como uma ponte entre a ação que exaure as forças e o repouso catalisador das angústias da vida breve. É uma rua simples, mas com vocação para a contemplação, o reservado e o oculto.
           Dali se descortina um horizonte vasto de mar azul onde não escapam as luzes distantes de Barra de Cunhaú e de Pipa e o vai-e-vem de barcos pesqueiros que chegam abarrotados do Alto dos Pargos, do Caculo ou da Gaveta, ou arribam do porto que se esconde na majestosa baía de Aratypicaba que um dia teve o nome trocado por formosa, e que não se deve ter por motivo menor desse rebatizado a conveniência de se assinalar com nome luso, na carta náutica dos exploradores do pau-brasil, o ponto preciso do interesse mercantil do empresariado do Reino, para não se correr o risco de pagar mico repetindo, boquiaberto, interpretações convenientes de enlevação estética, porque os navegadores portugueses de antanho não estavam nem aí para o êxtase poético, mas muito aqui para espalhar, sem conversa e sem canto, “as armas e os barões assinalados”.
            É ali também onde rapazes vaidosos e fúteis, como falam as meninas que ficam com eles, malham disfarçadamente os corpos brônzeos que exibem presunçosos como naturais heranças genéticas, para um público feminino crítico que os tacha de camarões ao modo de quem diz que não têm nada na cuca, numa versão amena, ou que só têm merda na cabeça, numa variante menos coquete.
          E é também, essa rua bucólica e enigmática, cenário de histórias do mundo das almas.
Naquela noite infausta essa alameda, ornada de hibiscos variegados, fora escolhida mais uma vez como palco da manifestação e da imposição contundentes do oculto.
          Indiferentes às celebrações ou por causa delas, quem sabe, os espíritos voltaram ou apareceram como é mais usual se dizer. E desta vez dividiriam, com seus quefazeres insondáveis e surreais, o antes e o depois das vivências mágicas dos moradores tranqüilos de BF, porque ninguém na cidade, nem mesmo os catalogadores de assombração, conhecera ou ouvira falar de uma aparição tão lesiva à vida e ao patrimônio.
          Sentados na mureta que dá para o declive da falésia e entrega aos olhos a vastidão do mar, Carlos e Wobber comentavam a sessão de surf daquela tarde. Exaltavam as condições perfeitas do mar e, em particular, as longas ondas roladas à direita, quando foram despertados pelo marchar cadenciado de um pelotão de marinheiros circunspetos e de postura rija.
          O grupo apareceu pelo lado sul, lá onde a entrada da ruazinha é mais aberta para depois se afunilar, e que por isso mesmo lhe batizaram conformemente, e vinha organizado em definida formação de sete por três, sob o comando empertigado e viril de um sargento atarracado, de peito estufado e de cabelos brancos.
          Ainda que abafada pela folhagem exuberante da papoula gigante que centenariamente pontifica na ruazinha e que amedronta a molecada, a luz do poste coadjuvava o clarão da lua cheia, e se não abonava nitidez, ao menos conferia plástica ao cenário fantasmagórico onde luziam fivelas e botões polidos nos uniformes engomados e imaculadamente brancos dos militares em marcha.
           Sob o olhar atento dos pobres surfistas desavisados, o bando avançou, fez evoluções numa ordem unida precisa e gritada altivamente, em que não faltaram os direitas e os esquerdas volver, marche, alto, cobrir e descansar. Quando o pelotão fez alto em frente à papoula colossal que estava ali no alinhamento de uma cerca rústica e frágil que mal servia para isolar um local ou definir uma propriedade, a pancada firme dos coturnos no calçamento da ruazinha, e aqui não se exagera porque foram muitos ouvintes que se assustaram com o estrondo, poderia ter acordado os dorminhocos num raio de duzentos metros ou mais.
            Mas, por temor ou porque não ouviam mesmo o tropel do grupo estranho de marinheiros, ou talvez porque a rotina embota o interesse, o certo é que nenhuma janela se abriu e nenhuma luz se acendeu no interior das casas da ruazinha, como viria a observar intrigado e inconformado perante o juiz, numa audiência processual, o surfista Carlos.
             Porque não conheciam aquela rua de casas singelas, nem as tradições e muito menos as histórias de assombração que há muitos anos corriam de boca em boca entre os moradores de BF, os dois surfistas imaginaram e entenderam a aparição insólita como um ritual de troca de guarda ou de rendição de turno, e julgaram que ali poderia haver uma caserna, um destacamento da Marinha, ou coisa que o valha. E foi esse entendimento nascido da ignorância que os manteve atentos e sem amedrontamentos a todos os movimentos ordenados pelo comandante e seguidos pelos embarcadiços, até a formação da fila indiana com os vinte e um marinheiros.
              Em cadência à vontade, os marítimos começaram a avançar na direção do tronco da papoula e, como lenços em mãos de prestidigitadores, a desaparecerem misteriosamente.
            E mais que de repente, o comandante atarracado e circunspeto que se postara na retaguarda da fila, abandonou o posto e avançou rápido e decidido em direção àqueles espectadores desassombrados, porque parvos, e a um passo de Wobber sacou-lhe dos braços a prancha que ele segurava displicentemente com tamanha brusquidão, eficiência e decisão que não restou ao surfista incauto senão a indignação travada pelo pasmo que não foi pequeno, como se pode deduzir.
                Interrompido o choque breve que o inusitado cria, Wobber moveu-se em perseguição ao marujo lesto, com o decidido intuito de reaver seu patrimônio.
              Alcançou-o quando ele já entrava, não por uma porta, mas no tronco mesmo da papoula que não guardava qualquer fresta ou tampo móvel camuflado de passagem secreta, como as autoridades policiais e os cientistas constaram já na manhã do sábado.
            Conforme disse no depoimento, Carlos que se manteve atento viu embasbacado, a poucos metros, o amigo, agarrado à prancha, desaparecer junto com ela e com o último militar, como nos efeitos especiais dos filmes de ficção com alienígenas em que os cinegrafistas, usando truques, simulam o irreal ou a dimensão da antimatéria que muitas vezes é uma geléia nojenta e viscosa e sempre verde.
            Sozinho e a poucos passos do tronco da papoula, desconsertado diante do mistério, Carlos desprezou as conveniências que os bons modos impõem e gritou. E berrou forte mesmo.
              Um morador despertado do seu descanso que ouvisse aqueles urros desesperados poderia imaginar uma tragédia ou, conhecendo bem aquela gente, debitar aos desvarios ou à estupidez da juventude inconseqüente. Mas, o urro de Carlos não tinha nome nem decência. Parecia o rugido de um desesperado que não alcança o ilusório e ainda assim está diante dele.
               Disfarce mal engrendado para uns, reação conforme para outros, esse berro foi mais tarde seu álibi e sua matriz de argumentação, e a base da tese dos seus defensores.
             O instante seguinte foi de correrias e falas nervosas que quebravam o torpor inalterável da Rua do Funil. Portas e janelas se abriram, e os poucos remanescentes da festa na Praça contígua acorreram curiosos ao local.
             Romper a cerca rude e olhar por trás da papoula mágica foi o ímpeto que só o medo a custo retardou. Retardou, mas não impediu que Carlos e os curiosos avançassem na esperança de encontrar, senão a prancha e os marinheiros da Rua do Funil, ao menos o surfista transtornado, o que já era de boa monta.
             Mas, foi em vão.
             Não fosse o gato de Neguinha que, despertado da madorna pachorrenta pela importunação dos espíritos ou pode ter sido também pelo tumulto súbito dos festeiros apavorados, se arqueava e se eriçava no seu imperativo ritual de alongamento, e não fossem também os rasgos dos vôos rasantes dos morcegos e das aves noturnas e o chiado dos besouros no matagal, do outro lado da cerca débil reinava a mais absoluta calmaria, da qual se diz que chega sempre depois das tempestades.
           Também o silêncio que chegou com a bonança, e que convém ressaltá-lo aqui, era igual aos que se sentem nos mosteiros cistercienses, embora o uso tenha consagrado o qualificativo sepulcral, e que aqui se evita conformá-lo assim para não induzir um eventual leitor viciado em literatura policial a conclusões malévolas e descabidas, e, portanto, insustentáveis do ângulo jurídico.
            Wobber fora encantado como interpretam muitos.
            Já para a justiça e para a ciência, isto é certo, ele está desaparecido.
            O que não se sabe é se o surfista solitário que aparece à meia-noite das sextas-feiras de lua cheia a singrar magistral e elegantemente nas ondas do Pontal tem os olhos verdes e o tridente de Netuno tatuado no braço, não obstante muitos afirmarem já o ter visto e apostarem que sim que é ele mesmo com certeza, ainda que a câmera com filtro infravermelho e bio-sensor que serviria aos cientistas para fundamentar, como prova cabal e definitiva, a tese da corporalização dos espíritos a partir da antimatéria e usando o método da kirliangrafia, até ser desativada, ainda não tinha conseguido registrar, exceto a de um gigantesco mero, a imagem da aparição objeto de estudo, e isso é inteiramente desprezível para os pesquisadores amadores de BF, porque, repetem eles, quem foi que já viu máquina ter merecimento pra ver espírito?
             Na próxima sexta-feira de lua cheia o Pontal vai ficar novamente repleto de curiosos desassombrados, e os terraços das casas e pousadas da falésia que dá vista para o mar vão abrigar os tímidos de binóculos que temem a ridicularia, mas não perdem a curiosidade.
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