terça-feira, 25 de dezembro de 2007

A Trilha 2.294 - Conto

          A história fantástica e curiosa corria à boca miúda nas rodas da cidade e dividia, momentaneamente, os moradores entre crédulos e céticos, e essa circunstância só aumentava o interesse em ouvi-la e propagá-la, senão para tomar partido ou fazer prosélitos, ao menos para zombar do fato, porque em Formosa se caçoa de tudo, inclusive dos espíritos e dos que com eles se encontram.
          Mas, ouvir o ‘dizem que... ’, assim desse jeito indeterminado ou com sujeito oculto, e esse era o caso da história que dominava os cochichos, até que impressiona, mas não confere credibilidade à coisa narrada, embora seja um santo remédio para a publicidade porque, de um só golpe, libera a imaginação do ouvinte e desonera o boateiro da responsabilidade com a palavra.
          Já ouvir o depoimento da boca de quem viveu o acontecido, e cujo fato se nomeia aqui de coisas do outro mundo pra não se usar a palavra assombração porque assombrosa mesma é a história, se não implica em credibilidade cartorial, tem ao menos a vantagem de se esclarecer o que ficou escondido, encobrir detalhes que ficam inadequados na narrativa e também de se conhecer o sujeito ativo da ação quando a circunstância autoriza ou a conveniência permite.
          No caso em questão, o sujeito, ainda que oculto, existe e está ao alcance de quem quiser fazer proveito de uma boa prosa, mas que se aqui não se lhe declina o nome não é para preservar a fonte da notícia que isto aqui não se trata de trabalho jornalístico, mas é tão somente para evitar que um incrédulo descontrolado venha a achincalhar a reputação do vidente, coisa que já o fazem pelas costas, ou que um crente fundamentalista lhe importune com polidez afetada ou reverências descabidas, salamaleques mesmo.
          No fato que se contava na rua, dizia-se inclusive que, depois da visão, ele agora está diferente: que fala pouco; que tem voz baixa e rouca; que até criou cabelos brancos o que depois se viu que era só pó de resina seca de amescla; e que se nega a conversar sobre o caso da trilha encantada que tem um número cabalístico que muda de acordo com o fôlego, a criatividade e o vocabulário de quem conta e aumenta um ponto, como é dito e sabido, e que com ele, o número enigmático, se preferiu intitular a história que vai escrita.
          Sem suprimir traços do protagonista para não parecer personagem criado ou história inventada, e sem aprofundar informações que poderiam identificar o visionário, convém informar apenas que se trata de um rapaz extrovertido e falante, também conhecido na Formosa pelo seu horror ao toque dos répteis que ele taxa de frio, áspero e asqueroso; pelos seus cacoetes com os números; e pelo seu deboche com histórias do sobrenatural e de aparições.
          Ele não passa no Beco da Tapa desde o dia em que o filho de Dede lhe atirou aos pés uma cobra morta, o que o levou ao hospital tamanho foi o pavor que o ofídio já inerte provocou.
          Gosta de contar passos, por exemplo. Assim, sabe que da sua casa até a escola ele dá exatos mil e quatro passadas; que do Pontal até em frente ao Bar do Cocota ele precisa, em média, de mil quatrocentos e quarenta e quatro braçadas em nado livre; e não deixa uma placa de carro sem deduzir a sua raiz quadrada.
          Sobre histórias do outro mundo, narrativas recorrentes na Formosa e muitas vezes referidas pelas suas tias e pelos amigos, ele sempre as ouvia com sarcasmo e indiferença. Desdenhava até.
          Por exemplo, daquela vez em que D. Nazaré contava uma aparição de Comadre Fulozinha na Mata Estrela, ele não só riu como desafiou a que a menina de branco que vive nos aceiros das florestas, que fuma cachimbo e que presenteia os vivos com entrançados nos cabelos que nem reza forte desmancha, lhe aparecesse se existisse. Coisa que agora ele desconversa com semblante visivelmente encabulado.
Estrelas e galáxias ele perscruta agora depois do ocorrido. Indaga sobre os buracos negros do universo em expansão, que engole até a energia, com uma curiosidade perturbadora.
          Foi também uma curiosidade exacerbada que levou Lúcio de Mira, o boateiro, a um propósito: ouvir da boca do ator principal aquela história delirante. Se Mira não acompanhou o marido, isso se deveu à pura casualidade porque, no mesmo dia e horário, ela marcara com D. Rosa pra fazer uma reza em cima dos rastros de Lúcio pra fechar o corpo dele que poderia se vulnerabilizar.
          No sábado passado Lúcio o encontrou em casa, lá nos Conjuntos. Ele o recebeu com riso preso, mas com amabilidade, e enquanto se tomavam os cafezinhos que a mãe dele, que aqui se chamará de D. Toinha para esconder a identidade verdadeira dela e do filho, enquanto ela, se repete, servia com esmerada cortesia, na mesa coberta pela toalha sem manchas, trabalhada em labirinto que ela comprara de Maria, a filha do ferreiro, ele narrou, sem interrupções, esta história extraordinária que agora se repassa pra vocês, sem emendas ou interpretações.
          Não se insiste aqui que acreditem, mas se aconselha que, na mata, não façam a trilha 2.294, também chamada pelos ufólogos de subterrânea. Pede-se, igualmente, que não usem as pistas, e não são poucas, que estão nessa trama para tentar identificar o sujeito, o que causaria constrangimento a Lúcio de Mira, que é personagem de nome real, colocado aqui somente para ouvir o episódio e deixar as conjecturas e opiniões para o leitor, pelo menos foi isso que ele asseverou.
          Eis o que ele contou a Lúcio com uma voz cava e levemente tremida para os seus vinte e dois anos – quatro meses e vinte e dois dias, como complementaria o visionário –. E essa idade não é fictícia, mas como tem muita gente vivendo nessa faixa não se acredita que possa ser essa uma cancha para se descobrir o sujeito.
          Disse, pois, que há cerca de três semanas saíra de casa para encontrar-se com uns amigos na Lagoa da Araraquara; que quando entrou na Mata da Estrela, indo pelo Morro do Cuscuz, já passava das dez da manhã, e ele sabia que lá o aguardava a bebida e os tira-gostos fartos que ele também contribuíra para que se arranjassem. Por isso, ia a passo acelerado.
          Mas, na descida sul do morro, naquele ponto onde a trilha se bifurca, quando já contava três mil quatrocentos e vinte e dois passos, por distração, porque não queria perder a contagem, ou fatalidade porque quando a coisa tem que acontecer..., completa D. Toinha, tomou o caminho errado: o da esquerda.     
          Não sabia, por exemplo, que aquele simples desvio iria frustrar o objetivo da sua caminhada, custar dissabores e lhe mostrar que o mundo não é feito somente de coisas que a gente vê. E essa opinião, embora seja dele, é de Lúcio também.
          Contou que depois de mais de meia hora de caminhada acelerada ele percebeu que andava por lugares não habituais ou estranhos mesmo. Embrenhara-se, por exemplo, numa descida que parecia não ter fim. Que desceu ladeira abaixo e desceu muito.
          Contudo, ansioso por encontrar os amigos e se engajar no ‘role’, seguiu em frente, mesmo diante da constatação do engano, sempre na esperança de encontrar um atalhe, um desvio ocasional, uma paisagem familiar quem sabe, que poderia lhe recuperar o tempo perdido com o erro e levá-lo presto à Araraquara.
Meia hora mais no calor escaldante daquela manhã de domingo e, para sua surpresa, deu numa lagoa.
          - Que lagoa é essa? Perguntou-se por que não a identificou. E conhecia razoavelmente, como se gabou, as mais de vinte lagoas incrustadas naquela mata.
          Mas, logo o pasmo virou esperança e a expectativa mudou-se em questão.
          Viu, à distância, um homem com trajes que pareciam típicos de marinheiro, com uma criança, uma menina de cerca de dez anos, como calculou depois. Estavam na outra margem daquela lagoa surgida ali ele não sabia de onde, absortos na contemplação dos campos ou entregues a um serviço que ele não conseguiu destingir, e que sequer deram por sua presença. Criança por ali já era coisa esquisita, marinheiro, então, nem se falar. E essa era uma questão que não teria resposta nem ali nem nunca.
          Aproximar-se deles implicava em fazer um rodeio de uns trezentos metros. Resolveu então gritar, mas foi em vão. Com o vento que soprava naquela clareira natural que a lagoa abria era impossível ouvi-lo.      
          Apressou o passo resolvido a pedir orientação. Depois teve a impressão de que a distância entre ele e aquela gente desconhecida aumentava ou que os dois se afastavam no meio do juncal. Já desconfiado com a presença de um marinheiro dentro da mata, arrepiou-se, mas seguiu em frente, margeando a lagoa, agora correndo apesar da sede e do cansaço que já lhe dificultavam a respiração e trancava o peito atlético.   
          Disse que gritou e gritou mais e mais, mas sua voz já soava fraca. Sentiu que estava perdendo a coragem, mas não desistiu. De repente um tropeço e uma queda na areia branca e escaldante. Rolou em meio às folhas secas e às bromélias abundantes. Extenuado, levantou-se. Nisso, como por milagre, a menina se voltou e o viu. Incontinente, e como por imitação ou impulso animal, o homem de branco se virou também. Ele disse que, como um náufrago que clama por socorro, gesticulou desesperadamente com a camisa em punho pedindo que o esperasse. Eles, o marinheiro e a menina, se detiveram e ficaram a olhá-lo pacientemente e sem admiração.
          - Por favor, qual o caminho que vai para a Lagoa da Araraquara? Ofegante, perguntou já ao aproximar-se.
          O marinheiro, um homem jovem de pele estranhamente branca; de nariz adunco e de abas largas que se abriam exageradamente a cada movimento da respiração, de cabelos castanhos brilhosos puxados a chocolate e impecavelmente vestido no seu uniforme branco, limitou-se a encará-lo com olhar vago, como se aguardasse a iniciativa da garotinha. Ele tinha no bolso do uniforme de seis botões visíveis – incluindo aí os dois dos bolsos – um pequeno galho de murta e nas mãos o quepe que girava displicente e ininterruptamente entre os polegares e indicadores das mãos excessivamente brancas e limpas e compridas.    
          Não mostrava sinais de fadiga naquele calor e sob aquele sol e, um detalhe que não lhe passou despercebido: a camisa não estava molhada de suor como era de se esperar naquelas condições.
          A guria, num vestido de cor escura indefinida que lhe acentuava ainda mais a esqualidez estranha da pele, tinha olhos negros como azeviche, amendoados ao modo dos orientais e preocupantemente vivazes.     
          Ela também não falou e, como se as palavras fossem dispensáveis ou os simples gestos bastassem, embora aqui elas sejam necessárias para dizer a mímica, com a mão esquerda, porque a direita segurava um punhado de murici já maturado, segurou-o pelo braço, sob o olhar passivo do marinheiro, levou-o para frente de um barranco encimado por um pé de amescla que estava a poucos passos em meio a dezenas de floridos ipês roxos, e lhe mostrou o caminho. Não lhe passaram despercebidas nem a frialdade nem a aspereza da mão que o tocava, porque involuntariamente ele se arrepiou e se encolheu de nojo, como que para se livrar do toque pavoroso que, segundo Lúcio de Mira, o rapaz qualificou de nojento, e que aqui na narrativa, para guardar a precisão entre a coisa falada e a expressão, se preferiu mudar o adjetivo porque a cara dele, quando dizia isso, não era de nojo, mas de pavor porque ele arregalou os olhos e não fez trejeito de asco com a boca como frisou e justificou Lúcio.
          - Mas, não existia nenhum caminho. Ela estava apontando para o tronco da amescla que estava em cima da ribanceira. Insistiu o rapaz que não se deve dizer o nome, e adverte-se que se dizendo assim não se pretendeu aqui fazer nenhuma paráfrase ou intertextualidade com nenhum irlandês ilustre.
          - Por onde? Disse que perguntou espantado, porque não viu caminho, a olhar para o marinheiro que não falava, na esperança de receber dele uma indicação mais razoável ou precisa.
          Mas, foi novamente a menina quem o colocou bem próximo do barranco em frente à árvore e disse com uma voz que tinha um registro de leve sibilo como o das serpentes:
          - Dois passos mais e você sai da trilha 2.294.
          E tão silenciosa como rapidamente desapareceu junto com o marujo, deixando atrás de si um chiado e estalidos de folhas e de galhos secos se quebrando.
          Ele termina a história contando que desesperado subiu o barranco e tentou segurar-se na amescleira, esbranquiçada de resina, para não cair de medo, mas que o tronco abriu-se como uma porta destravada, e ele caiu do outro lado, sem sede e sem cansaço, mas atordoado.
          Ao levantar os olhos viu, a poucos passos, a Lagoa da Araraquara. Eram só dez e quinze da manhã e pelo seu cálculo deveria ser mais de onze horas se não tivesse errado a trilha.
          Pedrinho e outros amigos que o aguardavam na Araraquara, surpreendidos pelo estrondo, a coisa de dez passos, de um baque fofo, como de um corpo que cai na areia, contaram a quem quis ouvir que ele não parecia cansado, que pelo contrário, seu aspecto era o de quem acabara de sair de um banho refrescante, mas que tinha o rosto pálido, o olhar distante, um forte cheiro de amescla no corpo e não dizia nada.
          Trazido para casa pelos amigos, por três dias ele não articulou uma palavra.
          Hoje, ele repete a todo instante: não duvidem dessas coisas. A trilha 2.294 existe.
          Por via das dúvidas, botaram na bifurcação da trilha do Morro do Cuscuz – os ufólogos negam a autoria – uma placa com o aviso: recomenda-se evitar o caminho subterrâneo que leva ao mar.
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