quinta-feira, 31 de julho de 2008

Stabat Mater


Raquel,
Cadê a Hane?
Já foi!
Assim, tão rapidamente?
É! Só me deu tempo de dizer o quanto a queria...
E ela?
Viajou conformemente.
...Sempre chegamos,
Nos encontramos
E partimos sozinhos...
Viver é assim, arrematou, junto à cruz,
A mãe lacrimosa.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Senhor e Senhora Nardoni e Jatobá.

De repente, apenas minimizados o sensacionalismo e a exaustão dos noticiários a que fomos submetidos, a minha ficha caiu e me foi possível lhes escrever, sem esperança que vocês leiam, a respeito do que me incomodava desde o início da segunda tragédia: a vingadora e destituída de toda misericórdia em que vocês também estão mergulhados.
Preciso dizer, logo de saída, que os vejo, e assim vou tratá-los, como eu mesmo me sei, humanos. Isso me dá a dimensão de mim mesmo, capaz de grandezas e de vilezas, e me poupará, quem sabe, da distinção dos pronomes gramaticais que nos identifica pelo gênero.
Alexandre e Anna Carolina, imagino que muitos têm dentro de si um deus vingador. E é só um. Outros um deus misericordioso que também é um só. Outros ainda um deus vingador e outro misericordioso. E, portanto, dois deuses ou um só com os dois princípios: o da vingança e o do perdão, o da clemência. E há poucos que não trazem deuses dentro de si. São somente homens.
Isso é só um jeito, entre enes possibilidades, de se idealizar didaticamente a visão da vida e do mundo. Essa é a que me ocorre agora.
De qualquer sorte, com ou sem deus ou deuses somos todos muito humanos: animais quando comemos, por exemplo, e racionais quando escrevemos ou lemos; animais quando agimos, até com violência, e racionais quando refletimos sobre a ação e a bendizemos ou a maldizemos; animais quando nos vingamos e racionais quando especulamos sobre a justiça; animais quando dormimos ou gritamos de dor e racionais quando nos paramentamos para os ritos, por exemplo.
Semelhantemente à primeira tragédia, a segunda me incomodou também pela dimensão da violência que assacamos contra vocês.
Gritamos por justiça, essa utopia de civilização, com tal fereza que ela se amedrontou porque confundida com vingança, porque eclipsada. Estamos, e nisso sentimos enorme prazer, constrangendo vocês até ao limite do insuportável para apagar uma atrocidade que nos indigna.
E, então, afirmamos a violência para negá-la.
Queremos, com brutalidade, afastar do humano a brutalidade.
É isso que me incomoda. E eu não sei se a misericórdia também tem um lugar no progresso contra a barbárie. Arrisco uma confidência: não creio, a não ser como uma busca vã.
E a violência sobre a qual falo aqui, Alexandre e Anna, é a que se traduz no sensacionalismo dissimulado de informação que garante audiência exclusiva e sobrepuja a do concorrente; a do plantonista curioso, exibicionista e oportunista defronte à casa de vocês, ou em frente das delegacias e presídios; a das manifestações destemperadas; a da delegada, não quando os inquire, mas quando grita contra você um impropério, um desatino; a da oração pública que dá para uns e nega para outros a misericórdia e o conforto dos quais todos nós precisamos – uma missa por vocês, hoje, Alexandre e Anna, como me pesa dizer isto, talvez só seja possível, sem assistentes, por ministro e lugar incógnitos, tamanha a nossa covardia e intemperança -; retomo a violência sobre a qual falava: a do repúdio de outros iguais encarcerados; a do policial que o assemelha com a parede fria; e, por fim, a da convocação social geral à agressão para castigar a brutalidade, e que os impede até de visitar o túmulo de quem muito se quis ou ainda se quer, dependendo de como se vê a morte.
Não imagino inocência naquelas manifestações, Alexandre e Anna, mas quase que as distingo como o alimento que nutre a nossa desumanização e desnutre, míngua e faz raquítica a nossa remota e utópica chance de divinização.
Não os vi pedir clemência. É certo, porque humanos, que vocês pediram no recolhimento, longe de câmeras e de repórteres. Talvez diante dos seus pais ou de um amigo. Nem precisava mesmo que víssemos. Em nome da nossa humanidade deveríamos pressentir essa imensa necessidade que saltava dos seus grandes olhos assustados para o mundo hostil em seu derredor. Mas, em nome da nossa pretensa divinização optamos pela inclemência.
Agora deploro também por vocês porque enxergo, com redobrada nitidez, a nossa coletiva e irremediável condição humana.

domingo, 13 de abril de 2008

Uma questão nominalista.

          FXSilva inicia a sua eloquente e repetitiva conversa dizendo que estava pesquisando na net os números achados pelos institutos de pesquisa, ao longo dos últimos dez anos, sobre a economia brasileira e também sobre a popularidade, aceitação, rejeição e aprovação dos governos FHC e Lula. Todos, como insistiu, dados já publicados e, portanto, de domínio público, ressaltava esclarecedor.
          A motivação de FXSilva, conforme explicitou, era reuni-los a outros índices para entender porque o Lula, executando exatamente o mesmo programa do governo FHC, segundo o tucanato, advertiu como para se isentar de uma asneira, tirou o país da fragilidade e do emperramento econômicos em que viveu durante os oito anos daquele governo. Isso lhe parecia, confidenciou perplexo, um paradoxo: o programa que emperra é o mesmo que desemperra?
          Disse que o argumento, segundo o qual, o governo Lula vive a fase da colheita das ações plantadas no governo anterior, lhe soava simplificador e falso. Chegou a falar simplório, mas corrigiu, talvez temendo ferir a suscetibilidade de algum circunstante afinado com o clichê tucano, porque olhou desconfiado para os presentes na pequena roda.
          - Não pretendia publicar o estudo, disse com voz alterada. Era tão somente para eu entender. Somente isso, insistia esfregando as mãos suadas.
          FXSilva fala a seguir que, ouvindo no Jornal Nacional o senador Arthur Virgílio Neto argumentar “se não queriam que vazasse, porque fizeram o dossiê” de repente, se deu conta de que ainda que os dados que ele procurava existissem em apontamentos públicos separados, reuni-los em um novo documento, que ficaria privado, era fazer um dossiê. E que fazer dossiê era um crime até pouco tempo desconhecido para ele. E que esse dossiê poderia ser roubado. Falou roubado com exagerada clareza, soletrou mesmo, rou-ba-do, mas, sem convicção, corrigiu o termo ao modo de quem se sente vencido, e o substituiu por “poderia vazar misteriosamente” e cair na mão de um porteiro ou jornaleiro, nunca se sabe.
          Maliciosamente ele fala que compreendeu que, embora os dados que ele buscava fossem todos já publicados, como os gastos do FHC – no instante em que D. Rute comprava lingerie com cartão corporativo, argumentava com clareza quase obscena, pelo menos uma meia dúzia de brasileiros: um vendedor, um gerente, um contador de firma tomavam conhecimento do fato –, o que ele estava fazendo, foi esta a contundente compreensão, era um crime que poderia lhe custar, não um mandato ou pretensão ao mais alto cargo da república, ou um emprego de ministro, que esses ele não tinha nem teria, mas a lucidez.
Afirma peremptoriamente que, em função dessa descoberta, deletou, então, todas as planilhas salvas na pasta 45S do arquivo Meus Documentos e esqueceu aquele embrião de dossiê.
          Finaliza dizendo que ontem à noite, conversando com Agrício, o jornaleiro da banca da Praça Carlos Gomes, ouviu dele a pergunta: por que Lula, levando a cabo o mesmo programa de FHC, fez o que FHC não conseguiu fazer? Fez o Brasil crescer?
          Assustado, FXSilva diz, com voz miúda, que tem certeza que o jornaleiro é um hacker a serviço do PSDB; que sim, que está lúcido, não tenham dúvidas, pede ofegante; e que aquele raciocínio não poderia ter ocorrido ao equilibrado jornaleiro Agrício porque é, o raciocínio, excessivamente transgressor, abstrato e desinteressante; que uma idéia tão ilógica assim não poderia ocorrer nem mesmo a um jornalista inexperiente da Folha de São Paulo.
          Calou-se por uns instantes. Depois, virou-se para os circunstantes silenciosos e perguntou calmo e ingenuamente:
          - Roubar não é mais crime?
          - É uma questão de nome, respondeu, timidamente, um jovem circunstante de óculos escuros e gola amarfanhada. E acrescentou: a realidade é o nome, o fato é só uma idéia.

sexta-feira, 21 de março de 2008

De indignatione polītica ou Maquiavel revisitado.


Sobre Sólon
recai a dúvida sobre sua integridade moral
porque
alguns dos seus auxiliares próximos
(ministros)
agiram corruptamente
quando do processo da “descarga”.
Ele sabia ou não sabia?
Cem anos depois,
Aristóteles escreveu sobre esse fato.
Não há indignação no seu registro.

O Houaiss registra o verbete indignação, s.f. como um sentimento de raiva, de cólera; que indignar é indispor, revoltar. O Aurélio diz a mesma coisa. O Caldas Aulete, o Celso Cunha, o Bechara e outros, igualmente. Portanto, sentimento. E emoção se expressa, preferencialmente, no gestual, na palavra, no tom da fala, nos rictos da face. Olhos e boca traçados para baixo: tristeza; para cima: alegria. São as máscaras ícones do teatro.
Mas, a indignação da qual vou me ocupar agora é aquela ligada às questões políticas.
O clichê “não podemos perder a capacidade de nos indignarmos...” ou coisa que o valha, diz respeito à perplexidade que deve ser exibida pelo indignado, na mídia televisiva, que fique isso bem ressaltado, diante da chance de passar a perna no adversário político, que quer dizer a mesma coisa que em face das injustiças sociais e, preferentemente, perante os atos de corrupção praticados por servidores públicos contra o Estado. O fito da indignação é aperfeiçoar a democracia e buscar transparência, tradução corrente para auferir dividendos políticos.
Essa estupefação, todavia, importa frisar, só deve ser manifestada quando a hediondez é praticada em governo de facção oposta ao do indignado. Caso contrário passaria o indignado à categoria de justiceiro, que pertence ao domínio da alcagüetagem, e que não é objeto desta revisita ao florentino.
A indignação política deve ter sempre um objeto material, ou seja, um ato ou atos imorais, e um sujeito indignante. Ilustro: se o vulcão Ruiz soterra cinco mil pessoas de uma só e inesperada cusparada, não há sujeito indignante porque estão no rol dos atributos divinais a onipotência e a onisciência - A Deus nada é impossível, Deus sabe o que faz -. E nesse caso só restam lamentações e providências, não indignação.
Por isso, antes de exibir a indignação, mesmo diante de uma hediondez universalmente consensual, o indignado deve examinar cuidadosamente a envergadura política do sujeito indignante, e traçar estratégia adequada sob pena de pagar mico tendo que usar nariz de palhaço. Por exemplo: se um instituto de pesquisa revelar 58% de aprovação dos eleitores ao sujeito indignante, o indignado deve traçar estratégia muito mais acurada do que exigiria um embate diante de um transgressor mais vulnerável. A metodologia mais indicada para esses casos é a do "mingau quente". Come-se pelas beiradas sem perder o objetivo de chegar ao sujeito indignante que está no centro. O indignado Carlos Lacerda, por exemplo, começou com Tenório e conseguiu suicidar Getúlio Vargas. Já os indignados do mensalão só comeram as beiradas do mingau.
Aquela reação, retomando a indignatio polītica, deve ser manifestada em cima da hora. Sem intervalo temporal entre o crime e a revolta verbal contra ele. Intempestivamente, sob pena de não render dividendo político, digo, aperfeiçoar a democracia. Assim, se uma revista publica, no domingo, a descoberta de um dossiê, por exemplo, a indignação deve ser manifestada já na segunda-feira. Ou para não ser pego de surpresa o indignado pode plantar a notícia num veículo de imprensa e usar um jornalista laranja - isso é fácil - para aparecer depois como indignado e não como denunciante, o que, além de tirar a credibilidade da indignação, funcionaria como um tiro pela culatra.
A magnitude ou gravidade do crime dependerá dessa celeridade e também da convincente retórica raivosa que denuncia a atrocidade. Ela, a retórica, deverá ter o poder de transformar compra de tapioca com cartão corporativo em hediondez inqualificável, e tão inquestionável quanto a existência de deus para o crente. Ou seja, a dialética erística do indignado deve eclipsar qualquer oportunidade de crítica. É ouvir e crer.
Isso faz da indignação o ponto de partida e o de chegada; ela é auto-suficiente porque a sua essência é: denúncia-indignada e condenação do ato a um só tempo. É essa essencialidade que faz o indignado parecer afastado anos luz de qualquer chance de capitulação, porque o distancia, porque o blinda, perante os cidadãos, de qualquer probabilidade de prática da vileza em foco, ou de qualquer outra que venha um dia a ser codificada. O indignado político, como um exorcista, deve parecer pairar, portanto, acima de qualquer suspeita.
A apenação eventual ao sujeito indignante é subproduto da indignação - também chamado de pizza - porque, como já se registrou acima, o objetivo da indignação não é punição, mas o aperfeiçoamento das instituições democráticas ou a transparência administrativa, quer dizer: voto, ou impedimento político do indignante numa eleição futura, ou ainda liberação de recursos para projetos executáveis na base eleitoral do indignado.
Nesse sentido, a indignação é exponencialmente eleitoral para o indignado. Poderá render uma candidatura e até um mandato. Ou uma CP(M)I-comissão parlamentar (mista) de inquérito - que no mercado da indignação vale por mil horários eleitorais gratuitos e, de quebra, sem os entraves do calendário da legislação eleitoral.
A indignação de Cícero nas Catilinárias, claro, não se enquadra nesse campo porque a escolha dos senadores na res pūblica romana tinha caminhos diferentes dos nossos, e também porque o que Catilina estava armando mesmo era golpe de Estado.
A indignação política, obedecendo a todos os cânones que a integra, derruba qualquer governo. A negligência a qualquer um deles, ao contrário, faz o feitiço se virar contra o feiticeiro.
Faço aqui, por uma questão de delimitação de campo, a classificação de dois tipos de indignação política: a fortuita, ocasional, circunstancial e a permanente.
Embora, tanto a indignação política fortuita como a permanente tenham como objeto material a transgressão de uma ética, a ocasional se circunscreve ao fato que a circunstância gerou, enquanto que a permanente independe de fato imediato. É uma atitude de vida, ou, em outros casos, uma conveniência temporária. Mas, tanto num como noutro caso a intolerância deve ser a marca inconfundível. O intolerante político permanente, por exemplo, deve ser céptico em relação a qualquer outro ponto de vista que difira do seu. Não o digo radical porque seria uma impropriedade, por isso, céptico mesmo.
Como sentimento, a indignação política, se permanece, vira máscara, e, portanto uma dissimulação. E o disfarce que se esculpi com a indignação política é o do ódio, da raiva, da revolta.
Por isso, o indignado político deve se interditar o riso. Mas, se ele aflorar deve ser cáustico, duro, desdenhoso, mordaz ou satírico. E triste até. Deve ficar na superfície da camuflagem. Não sair de dentro.
A máscara da indignação política não aceita a manifestação de nenhuma outra emoção. É como se outros iguais anseios, o da alegria, o da compreensão do mundo, o da tolerância, o da negociação, ou o da paciência, o do orgasmo, por exemplos, não existissem. Há nisso um incômodo para o indignado permanente. Pois, uma vez camuflagem, a curiosidade natural de quem ouve a retórica exemplar incide no foco: como será a verdadeira face, aquela que está por traz do disfarce do indignado político?
Convém informar que há controvérsia conceitual entre a práxis da indignação política permanente e a ideologia de esquerda. E a querela se assenta no seguinte ponto: enquanto a prática inclui a indignação permanente como nota intrínseca à ideologia de esquerda, a teoria nega essa essencialidade.
Uma ilustração: só conheci a senhora Heloísa Helena, através da mídia, e já na sua vida pública, com mandato. Primeiramente em sua atuação nas CPIs, adiante pelas suas falas como candidata à presidência da república e mais recentemente no prolongado caso Calheiros em que sua participação não foi menos midiática. E a sua indignação, diante da vigente ética política brasileira, me pareceu do tipo permanente, uma atitude diante da vida, e que a sua presença no cenário político deveria negar, a qualquer custo, a adesão ao que a indignava, e negar também uma provável contradição entre o não tolerar, mas, ainda assim, revestir-se com a política para combater a ética que vige na política, porque a omissão se alinhava ao “insuportável” padrão ético político brasileiro. Um conflito, por certo, de muito difícil administração.
Improvável negar, assim, que o gestual, incluindo aí o tique do pigarro tísico, da senhora Heloísa Helena é o do indignado político permanente e intolerante. Caso em que a indignação se transforma em máscara e gruda irremediavelmente na face do indignado. As especulações, veiculadas pela imprensa, sobre o voto da então senadora Heloísa Helena no caso do processo contra Luiz Estevão e o de caixa dois do PSOL, por exemplos, vêm da curiosidade de se conhecer o verdadeiro rosto do mascarado.
Mas, por que a sua indignação permanente não lhe rendeu dividendos políticos, digo, não melhorou as instituições democráticas? Qual cânone ela desobedeceu?
Já o senador Arthur Virgílio Neto, para fazer mais uma ilustração, eu o conheci, já parlamentar, deputado federal pelo Amazonas, no tempo em que a sua indignação deveria ser apenas circunstancial, a que cessa com o fato censurado, porque não me lembro dele indignado. Mas, sim diplomático, simpático, compreensivo, firme nos seus propósitos, mas tolerante. Agora, no Senado da República, para fazer oposição, se esculpiu uma máscara: a do indignado político conveniente, e provavelmente temporário. Posando de vestal, embora caricato (tem um tique nos ombros menos perceptível que um pigarro tísico), está até parecido com a raivosa senhora Heloísa Helena das Alagoas. Logrará êxito? Ou estará desobedecendo ao mesmo cânone da primeira ilustrada?

domingo, 16 de março de 2008

Revestido

Necessitei-me caminhar.
Despi-me das vestes costumeiras
Que me costumo impor,
E assim nascido
E com passo-meta-em-vista,
Fui
(acompanhando o balanço do mar)
Pisando na renda-espuma
Da barra da saia do mundo.

Vi praia rasa
Em mar azul,
Vi movimentos,
Vi gente viva,
Vi vida circulando
Com farrapos coloridos
Em dança perene,
Vi aurora morta
E vi ocaso vivo.
Por isso, estou revestido,
E minha face
Tem traço de vida.

Natal-RN - 1966.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O humor confuso do dia-a-dia. O telefonema.

O telefone tocou quebrando abruptamente o silêncio do apartamento de um único vivente, e ao alô da voz nitidamente grave, acentuada ainda mais pelas cordas recém-despertadas, e curiosa, a voz, claro está, ao modo de quem pensa quem será que está me ligando a estas horas, uma fala claramente aguda do outro lado, sem bons dias e sem mais alôs, exclamou como que surpresa:
- Eleuza?
- Não! Respondeu calmamente desiludida a voz masculinamente barítona, e a seguir desligou.
Novo trinado, e o identificador de chamadas exibiu o número 3404 5159, o mesmo mostrado a pouco. Ao pois não pode falar da voz repousada, uma fala aguda, ainda que desafinada - parecendo trêmula -, do outro lado, tentando parecer calma e gentil, avançou:
- Liguei para esse número faz pouco e parece que a linha caiu?
- Não caiu. Eu desliguei, minha senhora! Respondeu a voz grossa e agora em tom impaciente.
- É que a Eleuza faz unhas... Miou do outro lado a fala quase explicativa.
- Minha cara, a Eleuza fala grosso? Interrompeu o baixo grave.
- Olhe, eu sou uma senhora de setenta e dois anos...
- Então ligue para o número da Eleuza, minha irmã, estou à cata de uma mulher de sessenta. E desligou.

sábado, 19 de janeiro de 2008

A 18Km

Dario Franco - maio de 1999.

          Quem pega a BR 101 no sentido Natal-João Pessoa, lá pela altura do km 98, logo depois de Canguaretama, se depara com uma indicação: Baía Formosa a 18 km.

          Cedam à curiosidade!

          Entrem e sigam atentos pelo asfalto que veste o braço sinuoso.

          O arcaísmo, formosa, acaba na toponímia que é debitada aos portugueses setecentistas, não creio que por enlevo, como interpretou Cascudo, senão para o registro da dominação linguística também, porque para os da “língua geral”, que já estavam lá em 1500, era Aratypicaba, e para os de hoje é só Bêefe. O moderno chega até lá com muita discrição e conserva os elementos que definem a base do rito dos sentidos – há quem não perceba, mas há ali sim um culto sensualista –.

          As araras, papagaios, periquitos e jandaias já são raros. Fogem agora do barulho dos buges. Mas as lagoas ainda estão lá. São mais de vinte que resistem como tesouros espoliados, em um pouco mais de dois mil hectares de Mata Atlântica, que ainda hospeda as exuberantes e recatadas orquídeas e as variadas e previdentes bromélias. E estão lá também um resto de pau-brasil, de sucupira, de gameleira, de peroba, e de cajarana e de pau-d’arco e de maçaranduba e de vesgueiro e de palmeiras e de pau d’óleo e de jatobá sebastiana e da perfumada amescla.

          Dizem que o odor quase acre que a mata exala vem dos espíritos que lá vivem. Muitos até nem se arriscam a andar ali sozinhos nas horas mais quentes do dia. Eles, os espíritos, dizem, “vagam – ao meio-dia – a procura do amor”. São coisas que dizem... Mas, o melhor é guardar reservas sobre essas coisas. Os odores podem muito bem vir da murta, do murici, do guajirú, da cajarana, do goiti, do cambuin, da angélica, do ingá, da guabiroba, do araçá, do grajaú e de outros tantos frutos que nascem na mata e que são cuidados por Comadre Fulozinha.

          A muita cana que se descortina no primeiro trecho da estrada é meio de vida. Como está alterada agora aquela paisagem, meu Deus! Não tem mais fadas nem curupiras, mas homens no eito.

          Contudo, um João, neto de um Cabral de Melo, já dessas bandas de cá, viu assim:

                                        “Se venta no canavial

                                         estendido sob o sol,

                                         seu tecido inanimado

                                         faz-se sensível lençol.”

          Pois bem! Quando descerem um vale, murado por imponentes dunas vestidas de vegetação, já depois do rio da Bomba, aonde vão os que querem ouvir o vento ou trocar cumplicidades com as iaras, fiquem muito ligados. Formosa vai aparecer na próxima descida.

          No platô superior, um mar de telhas avermelhadas, quase escondidas sob as árvores urbanas, contrasta com a nudez explícita do oceano, azul como penas de arara, que se avista da colina. Dali desse outeiro o mar não tem voz. Mas, ruge à aproximação. Talvez de vaidade por se sentir mirado. Há momentos, porém, em que o seu resmungo é como um cochicho de confidências.

          Da Colina da Tentação sigam, desarmados, sem resistências, dispostos à rendição, pelas ruas que lhes levam à Baía de Aratipycaba que outrora serviu de porto para os franceses embarcarem o pau-brasil pra Europa e que continua ancoradouro até hoje. Na descida tem uma praça, a dos Pescadores, que é um mirante.

          De cima, se vê uma marina que hospeda hoje os barcos pesqueiros de uma gente que se fez íntima do gigante salgado e que com ele compartilha a vida. Esse ponto é um convite ao diálogo silencioso, ou melhor, à pura contemplação – vi um dia um pescador sentado na barreira. O corpo imóvel. Olhos e ouvidos, voltados, acho que, pras bandas de Dakar, em completo repouso. Eles nunca contam o que veem nem o que ouvem –.

          As ladeiras – do Porto, da Cacimba, e do Presídio – levam à praia onde estão os seguidores do Sol. Sim! São religiosas mesmo as suas rotinas. Vestem-se para o culto com as suas próprias peles de bronze aveludado e de pêlos como ouro-velho. Os torsos, ancas e colos são como que esculpidos. Modelos que, penso, inspirariam Andy Warhol.           
          Nuns o traço definido do músculo rijo, noutras a brandura da forma ensejando promessas. Disfarçam todos o ritual sagrado com discretos, mas insinuantes andares, com repousos estratégicos, com vôlei, surf capoeira jogada nas noites com lua e rum.

          São muitos. Os dali mesmo e os que chegam de todos os lugares. Não têm nomes e de tão discretos, chegam a ser quase acanhados. E há ainda os seguidores de Netuno. Estão invariavelmente com as pranchas e por isso é fácil identificá-los. No Pontal celebram o deus e entoam uma litania de huhus!

          Podem se envolver com essas tribos porque tudo pode acontecer, bastando que se esteja aberto para os sentidos.

          Sopra ali na praia um vento que em geral vem do Sul. De tanto carinho que o seu roçar imprime, o corpo tende, primeiro à lascívia e depois ao sono. O que traz essa brisa consigo? Se decidirem saber sigam pela paia com destino ao rio Guajú que dizem tem águas que restauram. Fica perto. Mas, é já no limite com a Paraíba. Logo depois do Sagi.

          Nesse caminho, bem depois do Farol do Bacupari, lá pelas Barreirinhas onde um dia largaram um tesouro que ainda está intocado, as praias desertas, virgens e quase selvagens convidarão vocês como as sereias obstinadamente chamaram por Odisseu.

           Cedam à curiosidade!