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sábado, 19 de janeiro de 2008

A 18Km

Dario Franco - maio de 1999.

          Quem pega a BR 101 no sentido Natal-João Pessoa, lá pela altura do km 98, logo depois de Canguaretama, se depara com uma indicação: Baía Formosa a 18 km.

          Cedam à curiosidade!

          Entrem e sigam atentos pelo asfalto que veste o braço sinuoso.

          O arcaísmo, formosa, acaba na toponímia que é debitada aos portugueses setecentistas, não creio que por enlevo, como interpretou Cascudo, senão para o registro da dominação linguística também, porque para os da “língua geral”, que já estavam lá em 1500, era Aratypicaba, e para os de hoje é só Bêefe. O moderno chega até lá com muita discrição e conserva os elementos que definem a base do rito dos sentidos – há quem não perceba, mas há ali sim um culto sensualista –.

          As araras, papagaios, periquitos e jandaias já são raros. Fogem agora do barulho dos buges. Mas as lagoas ainda estão lá. São mais de vinte que resistem como tesouros espoliados, em um pouco mais de dois mil hectares de Mata Atlântica, que ainda hospeda as exuberantes e recatadas orquídeas e as variadas e previdentes bromélias. E estão lá também um resto de pau-brasil, de sucupira, de gameleira, de peroba, e de cajarana e de pau-d’arco e de maçaranduba e de vesgueiro e de palmeiras e de pau d’óleo e de jatobá sebastiana e da perfumada amescla.

          Dizem que o odor quase acre que a mata exala vem dos espíritos que lá vivem. Muitos até nem se arriscam a andar ali sozinhos nas horas mais quentes do dia. Eles, os espíritos, dizem, “vagam – ao meio-dia – a procura do amor”. São coisas que dizem... Mas, o melhor é guardar reservas sobre essas coisas. Os odores podem muito bem vir da murta, do murici, do guajirú, da cajarana, do goiti, do cambuin, da angélica, do ingá, da guabiroba, do araçá, do grajaú e de outros tantos frutos que nascem na mata e que são cuidados por Comadre Fulozinha.

          A muita cana que se descortina no primeiro trecho da estrada é meio de vida. Como está alterada agora aquela paisagem, meu Deus! Não tem mais fadas nem curupiras, mas homens no eito.

          Contudo, um João, neto de um Cabral de Melo, já dessas bandas de cá, viu assim:

                                        “Se venta no canavial

                                         estendido sob o sol,

                                         seu tecido inanimado

                                         faz-se sensível lençol.”

          Pois bem! Quando descerem um vale, murado por imponentes dunas vestidas de vegetação, já depois do rio da Bomba, aonde vão os que querem ouvir o vento ou trocar cumplicidades com as iaras, fiquem muito ligados. Formosa vai aparecer na próxima descida.

          No platô superior, um mar de telhas avermelhadas, quase escondidas sob as árvores urbanas, contrasta com a nudez explícita do oceano, azul como penas de arara, que se avista da colina. Dali desse outeiro o mar não tem voz. Mas, ruge à aproximação. Talvez de vaidade por se sentir mirado. Há momentos, porém, em que o seu resmungo é como um cochicho de confidências.

          Da Colina da Tentação sigam, desarmados, sem resistências, dispostos à rendição, pelas ruas que lhes levam à Baía de Aratipycaba que outrora serviu de porto para os franceses embarcarem o pau-brasil pra Europa e que continua ancoradouro até hoje. Na descida tem uma praça, a dos Pescadores, que é um mirante.

          De cima, se vê uma marina que hospeda hoje os barcos pesqueiros de uma gente que se fez íntima do gigante salgado e que com ele compartilha a vida. Esse ponto é um convite ao diálogo silencioso, ou melhor, à pura contemplação – vi um dia um pescador sentado na barreira. O corpo imóvel. Olhos e ouvidos, voltados, acho que, pras bandas de Dakar, em completo repouso. Eles nunca contam o que veem nem o que ouvem –.

          As ladeiras – do Porto, da Cacimba, e do Presídio – levam à praia onde estão os seguidores do Sol. Sim! São religiosas mesmo as suas rotinas. Vestem-se para o culto com as suas próprias peles de bronze aveludado e de pêlos como ouro-velho. Os torsos, ancas e colos são como que esculpidos. Modelos que, penso, inspirariam Andy Warhol.           
          Nuns o traço definido do músculo rijo, noutras a brandura da forma ensejando promessas. Disfarçam todos o ritual sagrado com discretos, mas insinuantes andares, com repousos estratégicos, com vôlei, surf capoeira jogada nas noites com lua e rum.

          São muitos. Os dali mesmo e os que chegam de todos os lugares. Não têm nomes e de tão discretos, chegam a ser quase acanhados. E há ainda os seguidores de Netuno. Estão invariavelmente com as pranchas e por isso é fácil identificá-los. No Pontal celebram o deus e entoam uma litania de huhus!

          Podem se envolver com essas tribos porque tudo pode acontecer, bastando que se esteja aberto para os sentidos.

          Sopra ali na praia um vento que em geral vem do Sul. De tanto carinho que o seu roçar imprime, o corpo tende, primeiro à lascívia e depois ao sono. O que traz essa brisa consigo? Se decidirem saber sigam pela paia com destino ao rio Guajú que dizem tem águas que restauram. Fica perto. Mas, é já no limite com a Paraíba. Logo depois do Sagi.

          Nesse caminho, bem depois do Farol do Bacupari, lá pelas Barreirinhas onde um dia largaram um tesouro que ainda está intocado, as praias desertas, virgens e quase selvagens convidarão vocês como as sereias obstinadamente chamaram por Odisseu.

           Cedam à curiosidade!



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