sexta-feira, 21 de março de 2008

De indignatione polītica ou Maquiavel revisitado.


Sobre Sólon
recai a dúvida sobre sua integridade moral
porque
alguns dos seus auxiliares próximos
(ministros)
agiram corruptamente
quando do processo da “descarga”.
Ele sabia ou não sabia?
Cem anos depois,
Aristóteles escreveu sobre esse fato.
Não há indignação no seu registro.

O Houaiss registra o verbete indignação, s.f. como um sentimento de raiva, de cólera; que indignar é indispor, revoltar. O Aurélio diz a mesma coisa. O Caldas Aulete, o Celso Cunha, o Bechara e outros, igualmente. Portanto, sentimento. E emoção se expressa, preferencialmente, no gestual, na palavra, no tom da fala, nos rictos da face. Olhos e boca traçados para baixo: tristeza; para cima: alegria. São as máscaras ícones do teatro.
Mas, a indignação da qual vou me ocupar agora é aquela ligada às questões políticas.
O clichê “não podemos perder a capacidade de nos indignarmos...” ou coisa que o valha, diz respeito à perplexidade que deve ser exibida pelo indignado, na mídia televisiva, que fique isso bem ressaltado, diante da chance de passar a perna no adversário político, que quer dizer a mesma coisa que em face das injustiças sociais e, preferentemente, perante os atos de corrupção praticados por servidores públicos contra o Estado. O fito da indignação é aperfeiçoar a democracia e buscar transparência, tradução corrente para auferir dividendos políticos.
Essa estupefação, todavia, importa frisar, só deve ser manifestada quando a hediondez é praticada em governo de facção oposta ao do indignado. Caso contrário passaria o indignado à categoria de justiceiro, que pertence ao domínio da alcagüetagem, e que não é objeto desta revisita ao florentino.
A indignação política deve ter sempre um objeto material, ou seja, um ato ou atos imorais, e um sujeito indignante. Ilustro: se o vulcão Ruiz soterra cinco mil pessoas de uma só e inesperada cusparada, não há sujeito indignante porque estão no rol dos atributos divinais a onipotência e a onisciência - A Deus nada é impossível, Deus sabe o que faz -. E nesse caso só restam lamentações e providências, não indignação.
Por isso, antes de exibir a indignação, mesmo diante de uma hediondez universalmente consensual, o indignado deve examinar cuidadosamente a envergadura política do sujeito indignante, e traçar estratégia adequada sob pena de pagar mico tendo que usar nariz de palhaço. Por exemplo: se um instituto de pesquisa revelar 58% de aprovação dos eleitores ao sujeito indignante, o indignado deve traçar estratégia muito mais acurada do que exigiria um embate diante de um transgressor mais vulnerável. A metodologia mais indicada para esses casos é a do "mingau quente". Come-se pelas beiradas sem perder o objetivo de chegar ao sujeito indignante que está no centro. O indignado Carlos Lacerda, por exemplo, começou com Tenório e conseguiu suicidar Getúlio Vargas. Já os indignados do mensalão só comeram as beiradas do mingau.
Aquela reação, retomando a indignatio polītica, deve ser manifestada em cima da hora. Sem intervalo temporal entre o crime e a revolta verbal contra ele. Intempestivamente, sob pena de não render dividendo político, digo, aperfeiçoar a democracia. Assim, se uma revista publica, no domingo, a descoberta de um dossiê, por exemplo, a indignação deve ser manifestada já na segunda-feira. Ou para não ser pego de surpresa o indignado pode plantar a notícia num veículo de imprensa e usar um jornalista laranja - isso é fácil - para aparecer depois como indignado e não como denunciante, o que, além de tirar a credibilidade da indignação, funcionaria como um tiro pela culatra.
A magnitude ou gravidade do crime dependerá dessa celeridade e também da convincente retórica raivosa que denuncia a atrocidade. Ela, a retórica, deverá ter o poder de transformar compra de tapioca com cartão corporativo em hediondez inqualificável, e tão inquestionável quanto a existência de deus para o crente. Ou seja, a dialética erística do indignado deve eclipsar qualquer oportunidade de crítica. É ouvir e crer.
Isso faz da indignação o ponto de partida e o de chegada; ela é auto-suficiente porque a sua essência é: denúncia-indignada e condenação do ato a um só tempo. É essa essencialidade que faz o indignado parecer afastado anos luz de qualquer chance de capitulação, porque o distancia, porque o blinda, perante os cidadãos, de qualquer probabilidade de prática da vileza em foco, ou de qualquer outra que venha um dia a ser codificada. O indignado político, como um exorcista, deve parecer pairar, portanto, acima de qualquer suspeita.
A apenação eventual ao sujeito indignante é subproduto da indignação - também chamado de pizza - porque, como já se registrou acima, o objetivo da indignação não é punição, mas o aperfeiçoamento das instituições democráticas ou a transparência administrativa, quer dizer: voto, ou impedimento político do indignante numa eleição futura, ou ainda liberação de recursos para projetos executáveis na base eleitoral do indignado.
Nesse sentido, a indignação é exponencialmente eleitoral para o indignado. Poderá render uma candidatura e até um mandato. Ou uma CP(M)I-comissão parlamentar (mista) de inquérito - que no mercado da indignação vale por mil horários eleitorais gratuitos e, de quebra, sem os entraves do calendário da legislação eleitoral.
A indignação de Cícero nas Catilinárias, claro, não se enquadra nesse campo porque a escolha dos senadores na res pūblica romana tinha caminhos diferentes dos nossos, e também porque o que Catilina estava armando mesmo era golpe de Estado.
A indignação política, obedecendo a todos os cânones que a integra, derruba qualquer governo. A negligência a qualquer um deles, ao contrário, faz o feitiço se virar contra o feiticeiro.
Faço aqui, por uma questão de delimitação de campo, a classificação de dois tipos de indignação política: a fortuita, ocasional, circunstancial e a permanente.
Embora, tanto a indignação política fortuita como a permanente tenham como objeto material a transgressão de uma ética, a ocasional se circunscreve ao fato que a circunstância gerou, enquanto que a permanente independe de fato imediato. É uma atitude de vida, ou, em outros casos, uma conveniência temporária. Mas, tanto num como noutro caso a intolerância deve ser a marca inconfundível. O intolerante político permanente, por exemplo, deve ser céptico em relação a qualquer outro ponto de vista que difira do seu. Não o digo radical porque seria uma impropriedade, por isso, céptico mesmo.
Como sentimento, a indignação política, se permanece, vira máscara, e, portanto uma dissimulação. E o disfarce que se esculpi com a indignação política é o do ódio, da raiva, da revolta.
Por isso, o indignado político deve se interditar o riso. Mas, se ele aflorar deve ser cáustico, duro, desdenhoso, mordaz ou satírico. E triste até. Deve ficar na superfície da camuflagem. Não sair de dentro.
A máscara da indignação política não aceita a manifestação de nenhuma outra emoção. É como se outros iguais anseios, o da alegria, o da compreensão do mundo, o da tolerância, o da negociação, ou o da paciência, o do orgasmo, por exemplos, não existissem. Há nisso um incômodo para o indignado permanente. Pois, uma vez camuflagem, a curiosidade natural de quem ouve a retórica exemplar incide no foco: como será a verdadeira face, aquela que está por traz do disfarce do indignado político?
Convém informar que há controvérsia conceitual entre a práxis da indignação política permanente e a ideologia de esquerda. E a querela se assenta no seguinte ponto: enquanto a prática inclui a indignação permanente como nota intrínseca à ideologia de esquerda, a teoria nega essa essencialidade.
Uma ilustração: só conheci a senhora Heloísa Helena, através da mídia, e já na sua vida pública, com mandato. Primeiramente em sua atuação nas CPIs, adiante pelas suas falas como candidata à presidência da república e mais recentemente no prolongado caso Calheiros em que sua participação não foi menos midiática. E a sua indignação, diante da vigente ética política brasileira, me pareceu do tipo permanente, uma atitude diante da vida, e que a sua presença no cenário político deveria negar, a qualquer custo, a adesão ao que a indignava, e negar também uma provável contradição entre o não tolerar, mas, ainda assim, revestir-se com a política para combater a ética que vige na política, porque a omissão se alinhava ao “insuportável” padrão ético político brasileiro. Um conflito, por certo, de muito difícil administração.
Improvável negar, assim, que o gestual, incluindo aí o tique do pigarro tísico, da senhora Heloísa Helena é o do indignado político permanente e intolerante. Caso em que a indignação se transforma em máscara e gruda irremediavelmente na face do indignado. As especulações, veiculadas pela imprensa, sobre o voto da então senadora Heloísa Helena no caso do processo contra Luiz Estevão e o de caixa dois do PSOL, por exemplos, vêm da curiosidade de se conhecer o verdadeiro rosto do mascarado.
Mas, por que a sua indignação permanente não lhe rendeu dividendos políticos, digo, não melhorou as instituições democráticas? Qual cânone ela desobedeceu?
Já o senador Arthur Virgílio Neto, para fazer mais uma ilustração, eu o conheci, já parlamentar, deputado federal pelo Amazonas, no tempo em que a sua indignação deveria ser apenas circunstancial, a que cessa com o fato censurado, porque não me lembro dele indignado. Mas, sim diplomático, simpático, compreensivo, firme nos seus propósitos, mas tolerante. Agora, no Senado da República, para fazer oposição, se esculpiu uma máscara: a do indignado político conveniente, e provavelmente temporário. Posando de vestal, embora caricato (tem um tique nos ombros menos perceptível que um pigarro tísico), está até parecido com a raivosa senhora Heloísa Helena das Alagoas. Logrará êxito? Ou estará desobedecendo ao mesmo cânone da primeira ilustrada?
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