domingo, 13 de abril de 2008

Uma questão nominalista.

          FXSilva inicia a sua eloquente e repetitiva conversa dizendo que estava pesquisando na net os números achados pelos institutos de pesquisa, ao longo dos últimos dez anos, sobre a economia brasileira e também sobre a popularidade, aceitação, rejeição e aprovação dos governos FHC e Lula. Todos, como insistiu, dados já publicados e, portanto, de domínio público, ressaltava esclarecedor.
          A motivação de FXSilva, conforme explicitou, era reuni-los a outros índices para entender porque o Lula, executando exatamente o mesmo programa do governo FHC, segundo o tucanato, advertiu como para se isentar de uma asneira, tirou o país da fragilidade e do emperramento econômicos em que viveu durante os oito anos daquele governo. Isso lhe parecia, confidenciou perplexo, um paradoxo: o programa que emperra é o mesmo que desemperra?
          Disse que o argumento, segundo o qual, o governo Lula vive a fase da colheita das ações plantadas no governo anterior, lhe soava simplificador e falso. Chegou a falar simplório, mas corrigiu, talvez temendo ferir a suscetibilidade de algum circunstante afinado com o clichê tucano, porque olhou desconfiado para os presentes na pequena roda.
          - Não pretendia publicar o estudo, disse com voz alterada. Era tão somente para eu entender. Somente isso, insistia esfregando as mãos suadas.
          FXSilva fala a seguir que, ouvindo no Jornal Nacional o senador Arthur Virgílio Neto argumentar “se não queriam que vazasse, porque fizeram o dossiê” de repente, se deu conta de que ainda que os dados que ele procurava existissem em apontamentos públicos separados, reuni-los em um novo documento, que ficaria privado, era fazer um dossiê. E que fazer dossiê era um crime até pouco tempo desconhecido para ele. E que esse dossiê poderia ser roubado. Falou roubado com exagerada clareza, soletrou mesmo, rou-ba-do, mas, sem convicção, corrigiu o termo ao modo de quem se sente vencido, e o substituiu por “poderia vazar misteriosamente” e cair na mão de um porteiro ou jornaleiro, nunca se sabe.
          Maliciosamente ele fala que compreendeu que, embora os dados que ele buscava fossem todos já publicados, como os gastos do FHC – no instante em que D. Rute comprava lingerie com cartão corporativo, argumentava com clareza quase obscena, pelo menos uma meia dúzia de brasileiros: um vendedor, um gerente, um contador de firma tomavam conhecimento do fato –, o que ele estava fazendo, foi esta a contundente compreensão, era um crime que poderia lhe custar, não um mandato ou pretensão ao mais alto cargo da república, ou um emprego de ministro, que esses ele não tinha nem teria, mas a lucidez.
Afirma peremptoriamente que, em função dessa descoberta, deletou, então, todas as planilhas salvas na pasta 45S do arquivo Meus Documentos e esqueceu aquele embrião de dossiê.
          Finaliza dizendo que ontem à noite, conversando com Agrício, o jornaleiro da banca da Praça Carlos Gomes, ouviu dele a pergunta: por que Lula, levando a cabo o mesmo programa de FHC, fez o que FHC não conseguiu fazer? Fez o Brasil crescer?
          Assustado, FXSilva diz, com voz miúda, que tem certeza que o jornaleiro é um hacker a serviço do PSDB; que sim, que está lúcido, não tenham dúvidas, pede ofegante; e que aquele raciocínio não poderia ter ocorrido ao equilibrado jornaleiro Agrício porque é, o raciocínio, excessivamente transgressor, abstrato e desinteressante; que uma idéia tão ilógica assim não poderia ocorrer nem mesmo a um jornalista inexperiente da Folha de São Paulo.
          Calou-se por uns instantes. Depois, virou-se para os circunstantes silenciosos e perguntou calmo e ingenuamente:
          - Roubar não é mais crime?
          - É uma questão de nome, respondeu, timidamente, um jovem circunstante de óculos escuros e gola amarfanhada. E acrescentou: a realidade é o nome, o fato é só uma idéia.
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