quinta-feira, 15 de maio de 2008

Senhor e Senhora Nardoni e Jatobá.

De repente, apenas minimizados o sensacionalismo e a exaustão dos noticiários a que fomos submetidos, a minha ficha caiu e me foi possível lhes escrever, sem esperança que vocês leiam, a respeito do que me incomodava desde o início da segunda tragédia: a vingadora e destituída de toda misericórdia em que vocês também estão mergulhados.
Preciso dizer, logo de saída, que os vejo, e assim vou tratá-los, como eu mesmo me sei, humanos. Isso me dá a dimensão de mim mesmo, capaz de grandezas e de vilezas, e me poupará, quem sabe, da distinção dos pronomes gramaticais que nos identifica pelo gênero.
Alexandre e Anna Carolina, imagino que muitos têm dentro de si um deus vingador. E é só um. Outros um deus misericordioso que também é um só. Outros ainda um deus vingador e outro misericordioso. E, portanto, dois deuses ou um só com os dois princípios: o da vingança e o do perdão, o da clemência. E há poucos que não trazem deuses dentro de si. São somente homens.
Isso é só um jeito, entre enes possibilidades, de se idealizar didaticamente a visão da vida e do mundo. Essa é a que me ocorre agora.
De qualquer sorte, com ou sem deus ou deuses somos todos muito humanos: animais quando comemos, por exemplo, e racionais quando escrevemos ou lemos; animais quando agimos, até com violência, e racionais quando refletimos sobre a ação e a bendizemos ou a maldizemos; animais quando nos vingamos e racionais quando especulamos sobre a justiça; animais quando dormimos ou gritamos de dor e racionais quando nos paramentamos para os ritos, por exemplo.
Semelhantemente à primeira tragédia, a segunda me incomodou também pela dimensão da violência que assacamos contra vocês.
Gritamos por justiça, essa utopia de civilização, com tal fereza que ela se amedrontou porque confundida com vingança, porque eclipsada. Estamos, e nisso sentimos enorme prazer, constrangendo vocês até ao limite do insuportável para apagar uma atrocidade que nos indigna.
E, então, afirmamos a violência para negá-la.
Queremos, com brutalidade, afastar do humano a brutalidade.
É isso que me incomoda. E eu não sei se a misericórdia também tem um lugar no progresso contra a barbárie. Arrisco uma confidência: não creio, a não ser como uma busca vã.
E a violência sobre a qual falo aqui, Alexandre e Anna, é a que se traduz no sensacionalismo dissimulado de informação que garante audiência exclusiva e sobrepuja a do concorrente; a do plantonista curioso, exibicionista e oportunista defronte à casa de vocês, ou em frente das delegacias e presídios; a das manifestações destemperadas; a da delegada, não quando os inquire, mas quando grita contra você um impropério, um desatino; a da oração pública que dá para uns e nega para outros a misericórdia e o conforto dos quais todos nós precisamos – uma missa por vocês, hoje, Alexandre e Anna, como me pesa dizer isto, talvez só seja possível, sem assistentes, por ministro e lugar incógnitos, tamanha a nossa covardia e intemperança -; retomo a violência sobre a qual falava: a do repúdio de outros iguais encarcerados; a do policial que o assemelha com a parede fria; e, por fim, a da convocação social geral à agressão para castigar a brutalidade, e que os impede até de visitar o túmulo de quem muito se quis ou ainda se quer, dependendo de como se vê a morte.
Não imagino inocência naquelas manifestações, Alexandre e Anna, mas quase que as distingo como o alimento que nutre a nossa desumanização e desnutre, míngua e faz raquítica a nossa remota e utópica chance de divinização.
Não os vi pedir clemência. É certo, porque humanos, que vocês pediram no recolhimento, longe de câmeras e de repórteres. Talvez diante dos seus pais ou de um amigo. Nem precisava mesmo que víssemos. Em nome da nossa humanidade deveríamos pressentir essa imensa necessidade que saltava dos seus grandes olhos assustados para o mundo hostil em seu derredor. Mas, em nome da nossa pretensa divinização optamos pela inclemência.
Agora deploro também por vocês porque enxergo, com redobrada nitidez, a nossa coletiva e irremediável condição humana.
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