terça-feira, 27 de novembro de 2012

Aos educadores




                                                                                                                          Dario Franco



           Por onde começar este artigo?

           Principiar dizendo, por exemplo, que prática e teoria são lados de uma mesma moeda?

          Ora, todo mundo sabe que a prática nasce primeira; e que a teoria é a descrição cabal do como se faz a coisa. Praticam-se inúmeras vezes, experimentam-se, e quando está tudo conforme dizemos aos outros como é que se faz. Então, a resposta para a pergunta: quem nasceu primeiro, a prática ou a teoria, a resposta é: a prática, claro está.

          Mas, não é sobre isso que eu quero escrever. Quero registrar, quero identificar com clareza a filosofia dos que são contra a aprendizagem. Dos que combatem a escola, dos que desvalorizam a educação e, para isso, usam as palavras prática e teoria como termos antagônicos e excludentes. Então, mãos à obra. Vou tentar.

         O enaltecimento da educação se faz com proposições claras. Ela é um valor universal. E até entre os que não frequentaram a escola, a educação é colocada no topo da escala de valores. Mas, o combate à instrução, surpreendentemente, também tem uma filosofia, embora se expresse de modo velado e use termos equívocos.

          É fácil identificar a base dessa filosofia canhestra de exaltação ao analfabetismo pelas proposições e pelas suas conclusões. Uma delas, por exemplo: esses cursos só dão teoria; os alunos saem de lá sem saber fazer nada; entre um trabalhador que sabe fazer e um que fez um curso eu prefiro o que sabe fazer. Ou então: o mestre de obras sabe mais do que os engenheiros. E outras que o leitor facilmente identificará no dia a dia.

         Pois bem, os adeptos dessa filosofia costumam valorizar o amadorismo (o improviso, a meia boca, a gambiarra) em detrimento do profissionalismo, e de exaltar os que sabem fazer uma coisa com desenvoltura sem nunca terem ido à escola em detrimento dos que buscaram a aprendizagem profissional. Se lhes perguntarmos se são contra a educação, responderão estupefatos que não. Mas, não se engane: a boca fala daquilo que está no coração.

          Penso que a adesão à filosofia da desvalorização do saber tem bases múltiplas: para uns é a preguiça intelectual mesmo, para outros é o sentimento interior de incapacidade, mas, para muitos é o modo de garantir uma mão-de-obra barata porque desqualificada.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Os abalos sísmicos em João Câmara

         


         

                 


Já próximo da meia-noite os feirantes, como zumbis silenciosos e decididos, ocupam o cenário que passou todo o dia guardando um odor quase insuportável de sangue podre de peixe. 

Se focado na porta entreaberta da ermida gótica que preside esse cenário, vê-se sair uma figura estranha. Dir-se-ia mesmo suspeita. A cabeça está coberta por um capuz e a veste talar negra que  abriga esse vulto exibe uma silhueta esguia. Muito descarnada, mas dominadora. Arrisca-se dizer que é majestosa. Os passos, de tão leves, parecem sugerir uma flutuação. E isso empresta solenidade.

Aquele vulto atravessa as grades de ferro maciço que protegem a morada de deus e perambula negligentemente por entre as fileiras irregulares de mesas construídas com madeira ordinária e que agora se alinham ao longo dos trilhos da antiga estrada, como se rumassem para a velha estação do trem que não passa mais.

Não assusta ninguém aquele vulto. Nem sei se se pode tê-lo como quase íntimo dos zumbis. É muito possível. O que se diz é que cuida tão somente, parece certo, de perpetuar a sua ainda gloriosa vida e as suas memórias malversadas, a custa da existência precária e dos registros viciados dos feirantes inadvertidos das sextas-feiras.

Um homenzinho desfigurado, frequentador da feira, que foi sempre visto na companhia daquela figura esranha, jaz agora ao longo dos trilhos de ferro, entortados pela falta de uso. A cabeça inerte daquele corpo está voltada para os lados da cadeia de serras altas que marcam o lado oriental dessas paragens crestadas. Posta assim, ela cria a impressão de uma mitra colossal esmagada contra os flancos. Os braços alinhados ao cumprido do corpo quase dizem que a vida se esvaiu dali sem resistência, quem sabe, até com prazer como dizem que ocorre nos martírios. Não tinha filhos o homenzinho que esta noite foi a última companhia do vulto suspeito. Tinha dedicado a vida a celebrar uma ceia em memória e a pedido do vampiro: hoc quotiesqunque feceritis, in mei memoriam facietis.

O rosto dele está exangue. Está mais descorado do que o dos bêbedos que perambulam de madrugada acompanhando o vulto vagabundo.

Os feirantes indiferentes aos restos da noite já se alegram com a chegada barulhenta dos consumidores.

Foi nessa hora que o vulto, agora revigorado pela transfusão consentida, recolheu-se no interior da ermida gótica. Ele esgueirou-se furtivo, agora mesmo, pela meia porta aberta da sua morada.

Por todo o dia ele será apenas uma lembrança distante. Um nome invocado como um socorro, como uma ajuda, ou como uma proteção ilusória.

 É. Mas, seu repasto de sangue vivo acabou mesmo próximo das 4h30 da matina. Nunca é precisa essa hora de findar. Define-a a tênue claridade traiçoeira, que prenuncia os raios do Sol, insuportáveis de tanta luz, inconciliáveis com a vida eterna, ameaçadores da letargia.

Aquele vulto abrigou-se nessa ermida gótica há quase cem anos, mas não esqueceu os mais de dois mil passados nas cavernas inferiores, lá nas proximidades da mansão dos mortos onde um dia foi hóspede por três dias. Visita-as em intervalos casuais. Promove a restauração dos espaços corrompidos e a faz com barulho, com tremor, com sismos, estrondos assustadores. A terra treme. As rochas se fendem. Tudo como lá no Gólgota.

Na sexta-feira passada deu três grandes estrondos em João Câmara. A parede da casa de D. Isaura rachou de alto a baixo. O sismógrafo da Universidade registrou abalos de 3.2 na escala Richter.








terça-feira, 9 de outubro de 2012

A reeleição de Nivaldo




                                                                                                                              Dario Franco

          A eleição deste ano de 2012 em Baía Formosa-RN bem que poderia ter sido o confronto entre duas forças: a do passado e a do novo tempo. O passado com toda a sua história de atraso e de incapacidade, e o novo com a visão de levar Baía Formosa para o futuro. E nesse caso teria vencido a força do novo tempo.

          Temo, entretanto que isso não tenha acontecido. Que o confronto tenha se dado entre o antigo e o antigo. E nesse caso os bacuraus teriam sido derrotados.

          Senão vejamos: no período pré-eleitoral as forças antigas tentaram reunir-se num bloco único: araras e bacuraus contra Nivaldo, o novo. A luta interna do pretenso bloco, entretanto estrangulou o sonho do todos contra um. E dividiram-se. Os araras correram para o palanque do Nivaldo e os bacuraus compuseram-se com o moço da farmácia. Até emplacaram um vice para clareza de qualquer analista. Até disseram que o Adeilson era o novo, mas a sombra da foto do candidato não deixava nenhuma dúvida: era o antigo mesmo. O antigo modo de administrar que ancorou Baía Formosa num passado distante, e não permitiu a evolução da vida social, da educação, da economia e de tudo mais. O jeito, enfim, de administrar mantendo o atraso. Já os araras, mesmo não conseguindo uma participação mais emblemática, contentaram-se com uma participação menos retumbante, mas não menos satisfatória, e la ficaram de olho no futuro, de olho no próximo pleito, de olho em 2016.

          Mas, elegendo Nivaldo o eleitorado pode ter dito que quer sair do atraso. Que quer avançar.
         Nesse caso, cabe, pois a Nivaldo preencher o vazio sucessório que o circunda. O vazio que nesse pleito permitiu o ressurgimento das forças vencidas há quatro anos. Garantir, enfim, o programa de trabalho que ele iniciou e que estará ameaçado.

          Bem, já circula em Baía Formosa a notícia que Lúcia Coragem será a indicada pelo Nivaldo. Sendo isso verdade, Nivaldo já estaria refém dos araras. Uma pena. Mas, ainda dá tempo fazer do novo modo de administrar o centro da questão sucessória. O negócio é unir em um só governante as bandeiras de “trabalha pelo povo" e a de "trabalha pela cidade”.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Roteiro do Brasil




Capítulo XIII*



          Não é bem que passemos já do rio da Parahiba, onde se acaba o limite por onde reside o gentio Pitagoar, que tanto mal tem feito aos moradores das capitanias de Pernambuco eTamaracá e á gente dos navios que se perderam pela costa da Parahiba até o rio Maranhão.

          Esse gentio senhorêa esta costa do Rio Grande até o da Parahiba, onde confinaram antigamente com outros gentios, que chamam os Caytés, que são seus contrários e se faziam cruelisssima guerra uns aos outros, e se fazem ainda agora pela banda do sertão onde agora vivem os Caytés e pela banda do Rio Grande são fronteiros dos Tapuias, que é gente mais domestica, com quem estão ás vezes de guerra e ás vezes de paz, e se ajudam uns aos outros contra os Tabajàras, que se avisinham com elles pela parte do sertão.
         Costumam estes Pitagoares não perdoarem a nenhum dos contrários que capitavam, porque os matam e comem logo. Este gentio é de má estatura, baços de cor, como todo gentio, não deixam crescer nenhuns cabellos no corpo senão os da cabeça, porque em elles nascendo os arrancam logo; falam a língua dos Tumpinambás e Caytes; tem os mesmos costumes e gentilidades, o que declaramos ao diante no titulo dos Tupinambás. Este gentio é muito belicoso, guereiro e atraiçoado, e amigo dos Francezes, a quem faz sempre boa companhia, e industriado delles inimigos dos portuguezes. São grandes lavradores dos seus mantimentos, de que estão sempre providos, e são caçadores bons e taes flecheiros que não erram flechadas que atirem. São grandes pescadores de linha, assim no mar como nos rios de água doce. Cantam, bailam, comem e bebem pela ordem dos Tupinambás, onde se declarará miudamente sua vida e costumes que é quase o geral de todo o gentio da costa do Brazil.


* SOUZA, Gabriel Soares - Tratado Descriptivo do Brazil – 1587 - Roteiro Geral com largas informações de toda a costa do Brasil. In Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brazil. Volume 14. p. 30


sábado, 8 de setembro de 2012

A Enseada Iluminada




Dario Franco



            Estavam em Barra de Cunhaú e poderiam muito bem ter empreendido a viagem de volta, no rumo norte, como fora previsto. Deveriam estar no hotel em Natal às 22h00 para o jantar agendado com os outros integrantes da comitiva de negócios. Seriam brindados com a voz cosmopolita de Marina Elali, num repertório de baiões brejeiros.

            Foi uma visão inesperada que aguçou a atenção do pequeno grupo de empresários e por pouco não cancelou o festim mimoseado com os acordes de Gonzagão.

            Em meio à escuridão que chegou depois do lusco-fusco, há alguns quilômetros dali, uma gigantesca falésia apareceu iluminada. Era majestosa como uma catedral gótica, bela como um templo clássico, esplêndida como um santuário natural e colossal como as coisas que nos fazem apequenados. As luzes brancas e vermelhas que se projetavam na parede fantástica caíam de volta no mar encrespado e o balouçar ininterrupto dos fulgores refratados na água da grande baía criava uma sensação surreal e única e embevecedora.

            Diante do fascínio dos visitantes perante a visão espectral, o garçom do bar, com a intimidade e o enfado dos que se habituaram ao extraordinário, respondeu: é Baía Formosa.

            E ainda porque perguntado discorreu sobre os cerca de oito ou dez quilômetros que os separava do coração daquela enseada. A maré alta e os veículos impróprios frustravam o acesso pela praia. Restavam, por certo, os percursos pela BR-101 e a RN 062.

            Acordei com o rasgo estridente de uma moto enlouquecida por um piloto inconsequente. Mas, agora despertado, aquele sonho me parecia tão real como se verdade fosse.

            Contei aos circunstantes que encontrei ali no largo onde D. Zeza nos premia com sopas quentes e tapiocas aprazíveis e únicas como a nossa baía que eu a batizei de Aratypicaba, e perguntei: seria possível tal projeto? E as barreiras iluminadas não emprestariam mais valor a esse singular patrimônio cênico-paisagistico? E não levariam também, noite adentro, até aos olhos de quem se achasse em Barra de Cunhaú, Sibauma, Pipa e algures a divulgação da nossa beleza maior? E não confeririam identidade àquele recôncavo?

            Indago agora a você que me lê: seria possível?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Os Plágios sobre Baía Formosa



                                                                                                                               Dario Franco


          Quem busca informações sobre Baía Formosa na internet, sobre a sua história ou sobre seu turismo, por exemplos, vai aos poucos percebendo a repetição dos dados. Constato isso depois de ter visitado mais de duas dezenas de sites. Concluo, entretanto, que essa reprodução, por si só, nada significa além de sugerir talvez a escassez de fontes secundárias para a pesquisa. 

         Mas, há dois aspectos, os que dizem respeito à origem e a história de Baía Formosa, que tornam essas cópias viciadas um estorvo: o primeiro é a omissão dos créditos, a falta de referências das bibliografias consultadas, ou em outras palavras, a apropriação da idéia, da palavra, o plágio enfim; já o segundo é a informação desvirtuada, equivocada.

          Depois de algumas leituras percebe-se estar diante de um texto já lido em outro site ou blog, sem, contudo ter sabido o autor das letras ou se o informe corresponde à verdade.

         Afinal, quem escreveu o quê? Há de se perguntar. E vale o escrito?

          Para demonstrar essa perplexidade, faço aqui duas ilustrações sobre aqueles aspectos. Para o primeiro, coleto um dado da história propriamente dita, a matança de agosto de 1877, e para o segundo, o topônimo Aratypicaba.

          1)O escritor Luis da Câmara Cascudo publicou, em 1968, pela Fundação José Augusto, o livro Nomes da Terra. No verbete Baía Formosa, na página 164 da Edição Sebo Vermelho - Natal, ele fala sobre a matança de agosto de 1877.

          O mestrando Carlos José Cavalcanti de Lima, na sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN, em 2004, sobre o mesmo episódio, a matança de agosto, cita Morais (Carlos César Cavalcanti de Morais) e transcreve o texto do autor de Terras Potiguares publicado pela Editora Dinâmica-Natal em 1998 ;


          Apresento abaixo os dois textos. Neles destaquei em negrito as similitudes.

          O texto de Câmara Cascudo, publicado em 1968 é este, mantida a ortografia original:

         “O acontecimento mais notável na memória popular foi a matança de agôsto de 1877.   João de Albuquerque Maranhão Cunhaú, (1835-1896). Senhor do engenho da “Estrêla” , latifundiário poderoso, à frente de grupo armado veio à Baía Formosa desalojar dos ranchos alguns ou todos os moradores, alegando posse indevida e dizendo-se proprietário da enseada. O pescador Francisco Magalhães e quatorze homens, com facas e cacêtes, enfrentaram a escolta agressora em luta furiosa, havendo seis mortes, inclusive a de um rapaz, filho de João Cunhaú. Houve processo, e o próprio Chefe de Polícia, Dr. Francisco Clementino de Vasconcelos Chaves, efetuou a prisão do acusado, mandante e participante da chacina. Submetido a júri em Canguaretama, foi absolvido em 1878. Até princípios do Séc. XX era assunto de referência obrigatória na região. Vila em novembro de 1953.” sic

          O texto de Morais publicado em 1989 é este, Terras Potiguares, publicado em 1989, p.305 – -apud Carlos José Cavalcanti de Lima.
          “João Albuquerque Maranhão Cunhaú, poderoso latifundiário, Senhor do Engenho Estrela, dizendo-se dono da área, partiu para o novo vilarejo comandando um grupo armado e disposto a expulsar os moradores da localidade. Foi aí que surgiu a figura corajosa de Francisco Magalhães que, ao lado de mais quatorze homens armados com facas e pedaços de madeira, decidiram resistir aos agressores. Travou-se uma luta terrível, com um saldo de 6 mortes. O mandante da chacina foi preso e levado a julgamento no ano de 1878, em Canguaretama, onde foi absolvido.”

          Trata-se inequivocamente, o segundo texto, de uma citação indireta (quando o texto é baseado na obra do autor consultado). Não acrescenta nenhum elemento novo, mas suprime dados importantes como o ano do episódio descrito e o local, trocado por "novo vilarejo".

          Pois bem, o texto de Morais, que eu encontrei na dissertação de mestrado acima citada, aparece copiado em muitos sites que tratam de Baía Formosa, e aí já sem nenhuma citação.

          2) A segunda ilustração, como anunciada acima, trata do topônimo Aratypicaba. O escritor Câmara Cascudo, nos mesmos livro e verbete já referenciados, equivocadamente diz que o nome primeiro de Baía Formosa era Aretipicaba. E não grafou Aratypicaba por lapso. Percebe-se o equívoco do escritor quando se lê na página 10 do seu livro Nomes da Terra, acima referenciado, a carta que lhe mandara o professor Theodoro Sampaio, com quem ele estudara o tupi, em resposta a uma consulta sua. A réplica, mantidos o itálico e a ortografia, é esta:

          “O vocabulo Aretipicaba é simples corrupção do tupi.

          [O nome é] Aratypicaba, cujos componentes são – Ará-typicaba e significa – tanque dos papagaios.   Convindo notar que Ará é o papagaio grande, a arara, e typicaba é o substantivo verbal de typig, exprimindo ação de estancar, isto é, o estanque, o tanque, a repreza.” Sic

          As cópias encontradas nos sites visitados, invariavelmente decompõem os termos Ará e typicaba e concluem aretipicaba. Nem se perguntam por que ará dá are. Inadvertidamente propagam o cochilo do escritor.

          Um aspecto que se deve ter em mente quando se lê a história da colonização brasileira é a ideologia que permeia toda a narração. Assim, a interpretação estética da substituição da toponímia tupi pela lusa está sempre presente. Isso acabou por se instalar no imaginário coletivo. Ora, quando os portugueses chegaram aqui no Brasil já encontraram as referências geográficas cunhadas pelos tupis. Sabe-se que foi a pressão dos europeus – franceses, holandeses, espanhóis e ingleses – que obrigou Portugal a empreender a colonização para garantir a posse da terra. E politicamente precisavam trocar esses nomes como forma de marcar a colonização portuguesa, a posse da terra, a propriedade dos bens, em destaque na região de Aratypicaba, o pau-brasil que os franceses já estavam explorando sem serem incomodados.

          Muitos escritores brasileiros fazem uma interpretação poética para não dizer ideológica ou até mesmo ingênua dessa substituição dos nomes tupis por portugueses. Em Olinda se conta que a origem do nome da cidade vem da exclamação de um luso: Oh! Lindo lugar para se edificar uma cidade! Isso, ou coisa parecida!

          Pois bem, nos sites visitados sobre Baía Formosa tem um que repete essa preciosidade do ideário colonialista para o batismo de Baía Formosa. Absolutamente sem originalidade. Câmara Cascudo, no seu livro Nomes da Terra, p. 163, se inscreve no rol dos que repercutem essa interpretação ideológica e assevera que a troca do nome – Aratypicaba por Baía Formosa – deve-se ao devaneio estético:

          “ BAHIA FORMOSA denominação dada pelos portugueses enlevados com a beleza da enseada, aberta para o mar na moldura da floresta, depois chamada “Mata da Estrêla”.” Sic

          Interpreto, como escrevi no conto Os Marinheiros da Rua do Funil, publicado em francodario66.blogspot.com em 2007, “ que não se deve ter por motivo menor nesse rebatizado a conveniência de se assinalar com nome luso, na carta náutica dos exploradores do pau-brasil, o ponto preciso do interesse mercantil do empresariado do Reino, para não se correr o risco de pagar mico repetindo, boquiaberto, interpretações convenientes de enlevação estética, porque os navegadores portugueses de antanho não estavam nem aí para o êxtase poético, mas muito aqui para espalhar, sem conversa e sem canto, “as armas e os barões assinalados”.

          Convém dizer, por oportuno, que as obras apropriadas, como criações do espírito, são passíveis de proteção jurídica contra o plágio, ou contra a kibação, como dizem agora os internautas.

domingo, 2 de setembro de 2012

Que lembranças deixamos?





Dario Franco


          Não considero Cazuza um poeta sequer medíocre. Também não avalio o juiz Joaquim Barbosa como um heroi nacional. Bom barnabé vá lá. Mas, acho a tenacidade de Lucinha, mãe do menino que ela ainda não deixou morrer, o ponto alto da engenharia desse segundo tempo de vida do cantor, dessa sobrevida na memória contemporânea.

         Cazuza vivo estaria hoje com cinqüenta e quatro anos. Morto é um moço de trinta e dois anos que a mãe transforma em adolescente quando fala das suas irresponsabilidades como se de rebeldia se tratasse. A favor dele estão a obstinação da mãe e a precocidade da morte, ainda que turvada pelas fotografias do seu quase estado terminal. 

          Cazuza sem Lucinha nem seria mais. Duvidam? Os acima de trinta anos lembram-se de Lauro Corona? Foi contemporâneo do Cazuza e morreu com trinta e dois anos um ano antes de Cazuza se findar. Precisei pesquisar no Google pra recuperar o nome dele. O termo associado que o fiz palavra chave foi AIDS.

          Temo que o nome lucinha já remeta para HIV, filantropia, caridade, sei lá mais o quê. Amparadora de crianças soropositivas. E será por isso que ela será lembrada quando for saudade.

          Para muitos, o nome Cazuza já remete somente a uma sociedade: a Viva Cazuza.

         Não sei como se chamava a mãe de Beethoven nem a de Tom Jobim. Mas, me lembro de uma penca de composições deles. Ajuízo que Caetano Veloso gerou D. Canô.

         Afinal, que lembranças deixamos?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O Assalto. A quem interessa?





Dario Franco



          Ainda não eram 8h00 da manhã do dia 27 de agosto e a notícia do assalto à mão armada feito de madrugada na casa do prefeito de Baía Formosa, Sr. Nivaldo Melo, já corria solta em Natal.

          Ainda não eram 8h00 da manhã deste mesmo 27 de agosto e também já corria solta a notícia de que o povo interpretava o assalto ao prefeito candidato ao segundo mandato, como uma armação eleitoral.

          Em Baía Formosa os carros da polícia e os policiais chegados bem depois do assalto enchiam as ruas de espectadores e quebravam a rotina, como em todo episódio insólito e reprovável e indignante.

          Mas, para felicidade de todos não houve vítimas. Nenhuma escoriação. Notícia de tapas no vigia da casa não circulou. Somente uma rendição sem resistência e sem tiros. De igual modo não circulou informação de maus tratos ao assaltado e à sua família. Dizia-se que a advertência feita pelos assaltantes encapuzados ao prefeito candidato, de que não comunicasse a pilhagem à polícia antes da hora tal, foi de pronto acatada e cumprida à risca em face das metralhadoras que, dizem, lhe apontavam a cabeça. Ainda mais que essa intimidação, segundo circula, estava recheada com ameaça de morte. Enfim, agiu prudentemente o assaltado, segundo os manuais de segurança.

          Dos males o menor: Jóias, computadores, roupas e brinquedos de crianças levados pelos assaltantes é um prejuízo menor do que se tivessem também levado carros, por exemplo. Uma ameaça de morte, mesmo sendo indesejável, é incomensuravelmente melhor do que um seqüestro com tudo o que de nefasto decorre dele. Pode-se até julgar amadorística a ação desses delinqüentes se contabilizarmos o custo/benefício da operação. Carros, mais combustível, mais armamento pesado, mais munição, mais pessoal, mais risco, tudo isso em troca do que eles levaram. Poderão ter tido prejuízo aqueles criminosos.

          Campanhas eleitorais são assim mesmo. Não deveriam, mas são. Na competição feroz em que se envolvem os candidatos tudo vale para a conquista do voto do eleitor: pragmaticamente beneficiar-se do assalto, ou negando-o, denunciá-lo como farsa.

          Mas a quem esse assalto beneficiaria eleitoralmente? Ou a quem esse assalto prejudicaria eleitoralmente?

          Dizem os analistas de segurança pública e investigadores especializados na área que expressivo percentual dessas agressões a candidatos em períodos eleitorais têm em comum a inexistência de vítimas fatais: um tiro de raspão na camisa ou no boné, uma bala na lateral de um veículo, uma muito leve escoriação, uma rendição assustadora ou coisa que o valha, mas morte, não. E isso acaba por instalar na linha de investigação a hipótese da farsa. Em assim sendo, é fácil compreender a notícia da suspeita de fraude que já circulou embutida na notícia do assalto.

          Assaltos em tempos eleitorais são, pois, faca de dois gumes. Quer dizer, tanto pode beneficiar como pode prejudicar o candidato assaltado. E para beneficiar o assaltado, o assalto deve conter elementos tão contundentes e indesejáveis ao assaltado que, por si só, afastem as especulações maledicentes. No assalto em foco, feliz ou infelizmente, esses dados não existem.

          Já para o candidato adversário do assaltado o assalto só contabiliza perda. Senão, vejamos.

          Se se admitir que a agressão foi verdadeira, o candidato vitimado terá um prejuízo material mas, um possível ganho eleitoral. Sabe-se que o povo/eleitor sempre fica do lado da vítima.

          Já admitir que o assalto foi uma farsa, o candidato falsamente assaltado só terá prejuízo eleitoral.

          Ou seja, o candidato assaltado tem duas oportunidades no evento: uma chance de se beneficiar, ou um risco de se prejudicar.

          Já o candidato rival, só tem uma oportunidade de se beneficiar: se o assalto tiver sido uma farsa. Todos os outros cenários deságuam em retumbante estrago. Por isso, ele se torna, indiscutivelmente, insuspeito da autoria intelectual do delito.

          Agora cabe à polícia técnica investigar o assalto: elencar, a partir dos arquivos policiais, delinqüentes potenciais; periciar o local do evento; conhecer o local por onde os bandoleiros acessaram a casa; coletar material para análise em laboratório; colher informações; ouvir envolvidos; confrontar depoimentos; acarear depoentes, quem sabe; rastrear a rota de fuga dos meliantes; identificá-los; processá-los; e, por fim, apresentar todos os resultados aos cidadãos e cidadãs de Baía Formosa. Afinal, todos nós lamentamos as vítimas da insegurança. Todos nós ansiamos por uma cidade segura.

          Sem essa providência – a da investigação cabal da polícia técnica –, poderemos, todos nós, ser tentados a comungar com a interpretação da farsa.

          Perversamente, o ônus da prova recai sobre o assaltado.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A lenda da praia das Barreirinhas



                                                                                                               Dario Franco




           A praia das Barreirinhas situa-se entre Baía Formosa-RN e Sagi . 
     É um lugar de passagem dos buges que trafegam pelas areias desertas da orla marítima entre essas duas localidades. 
    Ali não há infraestrutura nem serviços, mas é cenicamente uma praia majestosa e cativante. 
Vale a pena um pit-stop. A toponímia vem mesmo das falésias, enigmáticas como esfíngies, que emolduram aquele ambiente impregnado de eternidade e de sobrenatural.
          Pois bem, no sopé da barreira tem uma água ferruginosa. Não convém tocá-la, adverte-se. 
   Sua origem, segundo dizem, remonta ao tempo em que foi enterrado ali um baú com um tesouro. 
   No cimo da falésia, dizem que com o fito de marcar o lugar exato, a cova do ouro fora recoberta com pedras d’água trazidas do mar e ainda mais sinalizada por um pilão com duas alças ao modo das ânforas gregas antigas e também com correntes de ferro. 
   É dessas correntes que vem a ferrugem que ainda agora tinge a areia.
          A botija fora enterrada ali por um homem muito rico. 
   A procedência de tão grande riqueza, ao que consta, está ligada a um pacto com o demo, ou satã, ou capeta, ou maligno, ou o que mais seja. 
   O nome do pactuante que vendeu sua alma ao Príncipe das Trevas em troca de riqueza, embora não seja segredo, não se fala, nem se escreve tão pouco, sob pena de se ter a alma comprometida com a salvação eterna, segundo falam desde muito antigamente. 
   Para não se correr tamanho risco, guarda-se o preceito. Mas, todos os habitantes de Baía Formosa e do Sagi sabem o nome daquele que fez aliança com o coisa-ruim. Não perguntem quem foi o desventurado. Todos dirão sempre que não sabem. Fica melhor assim.
          Mas o tesouro, esse pode ser tirado, como se fala, sem risco para a vida e a alma do agraciado.
         No passado muitas tentativas foram feitas no sentido da apropriação do fantástico e cobiçado bem. Nenhuma, contudo, logrou sucesso. A principal, mas não única dificuldade é a ação de um intruso nomeado, segundo voz corrente, por Cassiano.
         No início do século passado, ao que se conta, a botija foi dada a um muito ilustre morador de Baía Formosa. Ele contou que a voz nítida e metálica que ele ouviu em sonho lhe passou a doação da fortuna em trinta e oito versos alexandrinos, cuidadosamente escandidos  e que foram registrados no conto Cuidado com Cassiano. Transcrevem-se abaixo aqueles versos recitados pela aparição:
“Abre tua mente e fica atenta ao que te dou.
Amealhei por pacto vil, fortunas tais,
Que gozei tudo, cresci gula, desdenhei.
Corri cidades, neguei pão, juntei-me aos maus.
Comprei juiz, matei venturas, tripudiei.
Findado o tempo, a danação, a vida a vau,
Com pedras d’água local certo remarquei.
E acorrentado a palmos sete ‘stá o baú
D’ouro completo o meu tesouro abandonado.
Nas trevas em que vivo sem esperança
O mimo sepultado aumenta a dor, o mal.
Por isso, dou-te sem resgate ou algum vodu.
E tua alma boa fica livre, sem revés,
Para que brindes uma vida afortunada
No mundo onde se pena em vão, à toa.
De duas alças é o pilão que assinalei
No fastígio da falésia, as Barreirinhas.
Caminho atravessando entre Sagi sem vau
E a cidade elevada que é Formosa.
Descansa nele uma corrente que descai
E que ta dou sem revelia por sinal.
Junho é o mês de arrancar o tal tesouro
Pois, não é lenda que subir os sete palmos,
Os escondidos tesouros enterrados
Afloram nesse mês por desespero.
E a noite certa deve a Lua presidir,
Astro que enquadra o cosmo e alinha a Terra ao Hades.
Da legião dos demos que o protegem
Pertence Cassiano, intruso que se esmera,
E ronda a espreita do feliz que o resiste.
Cuidado não te falte, pois vive a fera,
Em pós anos a seguir o contemplado
E frustrar quer a empresa a qualquer custo.
Se já não tarda o iminente desenlace
Cassiano morto vai o bem pra outro dono,
E perpetua assim a dor que me renega.
Pergunta, pois, alguma não me faças.
Com Cassiano pouco é o cuidado que t’assiste.”


























                                                                                                                          

domingo, 19 de agosto de 2012

A memória de Baía Formosa

                                                                                                                          Dario Franco


          O indivíduo se funda na sua história e nas suas lembranças. Aquele que as perde se desorienta e vive sem sentido. Despreza-se. É desprezado. Não raro serve aos outros de chacota. Perde a sua identidade.


          Do mesmo modo, a história e as memórias coletivas fundam um povo. Se a comunidade as perde se desorienta e vive sem sentido. Vilipendiada. Sem identidade.

          Para o indivíduo sem lembranças e sem história recorre-se à medicina, e as terapias poderão restaurar o fio da meada e dar nova orientação à vida individual, desde que o acidente que causou a amnésia não tenha danificado irreparavelmente o centro da memória.

          E quando a amnésia, o esquecimento é coletivo? Quando a comunidade perdeu partes significativas da sua memória a quem ou a quê recorrer?

          Mesmo que não se tenha uma resposta, sabe-se que é preciso um tratamento. E Baía Formosa começou o tratamento da sua doença do esquecimento. No dia 10 de agosto de 2012 a comunidade quebrou um silêncio de cento e trinta e cinco anos e celebrou a memória do líder Francisco Magalhães.

          Mas, Baía Formosa tem relegado a sua memória a um segundo plano.

          Por exemplo, mudou por necessidade o local do antigo cemitério, mas esqueceu por décadas o local que tinha recebido seus ancestrais. Nenhum tratamento foi dado ao sítio que recebeu os seus mortos. Até que um dia o venderam sem reverência e sem pejo. Hoje aquele sítio é só uma lembrança sem registro. Depois, nem isso.

          Também, deixou que apagassem a denominação centenária do Presídio; que contassem piadas depreciativas sobre a origem do nome Bacupari; que Araraquara fosse uma designação obsoleta e sem sentido. E se repetiram e se registraram essas invasões culturais como nunca se atentou para a história e para as lembranças pretéritas. A maior, única e majestosa baía, seu emblemático patrimônio cênico-paisagístico, foi profanada com esgoto em cachoeira e nome acanhado de oportunidade.

          Para evitar o esquecimento histórico escreve-se a crônica dos dias. As atas dos parlamentos, os registros dos cartórios, os apontamentos eclesiásticos, os arquivos da administração pública, entre outros, são meios para se guardar a memória. Numa cultura oral resta, muitas vezes, somente a oralidade com a fragilidade que esse meio guarda em si mesmo.
          Os países em geral organizam institutos para guardar as memórias dos seus povos: os pró-memória. Criam associações para restaurar e não deixar desaparecer os seus significados, o seu patrimônio cultural. São eficazes estas soluções.

           Então, o que se propõe aqui é a criação de um Conselho de Avivamento da Memória como modo de cuidar da história e da cultura de Baía Formosa. Não será por certo, essa organização não governamental, uma substituta de entidades públicas responsáveis por essas áreas, mas um fomentador de ações que nos tirem do letargo e promovam a preservação da nossa identidade.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Baía Formosa – Notas Históricas.




                                                                                                                  Dario Franco



          O primeiro registro da existência de Aratypicaba, atual Baía Formosa, data de 1587, e foi feito pelo historiador português Gabriel Soares de Souza, na página 26 do Capítulo X da Primeira Parte do seu Tratado Descritivo do Brasil (1587).  Escreve, pois,  o historiador: “De Itacoatigara ao Rio de Goaramatai são duas léguas, o qual está em seis graus esforçados; de Goaramatai ao Rio de Caramative são duas léguas, o qual está em seis graus e 1/4, e entre um e outro rio está a enseada Aratipicaba, onde dos arrecifes para dentro entram naus francesas e fazem sua carga”.
             Ou seja, os brasis da nação tupi já tinham criado as referências geográficas nesta região litorânea quando os colonizadores portugueses aqui chegaram. 
          Aqui viviam os brasis potiguares. Para aqui vinham navegadores franceses, depois Portugal empreendeu a colonização. Franceses e portugueses queriam o pau-brasil para comercializar na Europa.

          A troca do nome de Aratypicaba para Bahia Formosa aparece pela primeira vez  em 1612, no mapa do cosmógrafo português João Teixeira Albernás.


O câmbio dos nomes tupis pelos portugueses diz respeito ao domínio das terras conquistas no período da colonização das grandes navegações. Nada a ver com poesia ou enlevo poético. Marcar com nome português e atualizar as cartas geográficas era indicar aos holandeses e franceses que a terra conquistada pertencia agora a Portugal.

          Portanto, Baía Formosa já estava instalada e era um centro comercial próspero dentro das terras da sesmaria de 5.000 braças em quadra, no vale do rio Cunhaú, doada em 1604 pelo Capitão-Mor da Capitania do Rio Grande, Jerônimo de Albuquerque, aos seus filhos Matias e Antônio de Albuquerque, e confirmada em 1628 pela Coroa Portuguesa.

          A primeira notícia que se tem sobre a contestação destas terras data de 1848. Pelo Aviso n° 13 de 21 de Janeiro de 1848 o Poder Judiciário da Província do Rio Grande nega a sua herança a André de Albuquerque Maranhão Arco-Verde. Posteriormente, seu sucessor João Albuquerque Maranhão Cunhaú, também reclamará essa mesma herança e a terá negada finalmente.  

          No dia 10 de agosto de 1877 esse reclamante, pela segunda vez - a primeira, oito dias antes, foi no dia 2 de agosto - , invadiu Baía Formosa para matar os moradores que se recusavam a abandonar o povoado. Sob a liderança de Francisco Magalhães os habitantes resistiram ao ataque e impuseram uma derrota humilhante aos invasores. Esse evento insensato ficou conhecido como a Matança de Agosto. Agora, mais propriamente, já se fala na Resistência de 10 de Agosto de 1877.

          O município foi criado em 1958, mas a sua área territorial que ocupa somente 250,1Km², só foi desapropriada da Fazenda Estrela em 1980 pelo governador Lavoisier Maia, quando era prefeito Samuel Monteiro da Cruz.

domingo, 12 de agosto de 2012

Vetou por quê?



                                                                                                     Dario Franco

          O prefeito de Baía Formosa Nivaldo Melo vetou um projeto de lei apresentado à Camara Municipal pelo vereador Wagner Nobre que autorizava a construção de um monumento à memória de Francisco Magalhães, líder do episódio conhecido como a Matança de 10 de agosto de 1877.

          Perante aos ministros da eucaristia e da assembleia de fiéis que acorreram à missa do 135° aniversário do evento, no dia 10 de agosto 2012, em memória de Francisco Magalhães e dos resistentes, o prefeito Nivaldo disse que vetou porque “discordava do inciso primeiro” que definia a construção do monumento em sessenta dias”.

         Poderia, então, ter vetado somente o inciso com o qual ele discordava como é a praxe. Por que vetou tudo mais que foi proposto, se ele concordava com a criação do espaço cultural, conforme afirmou perante àquela assembleia?

          E mais, o inciso primeiro a que ele se referiu, como está na proposta de lei diz assim: “A localização do monumento da Resistência... e terá a sua localização definida no prazo de 60 (sessenta) dias...

          Ora, o documento não diz construir o monumento em sessenta dias. O documento diz localizar. Ou seja, sessenta dias é o prazo para dizer aonde vai ser construído. E dizer aonde vai ser construído não implica em nenhuma ilegalidade ou inconstitucionalidade. Só uma ação administrativa do executivo: o monumento vai ser aqui. Pronto. Só isso.

          Por certo, um engano na leitura. Por certo, uma interpretação equivocada. Acontece!

          Se foi isso é fácil retirar o veto e aprovar a Lei que foi proposta no início de abril deste ano.

          Acho aquela lei justa. Criar um espaço cultural para fundamentar a história de Baía Formosa.

sábado, 11 de agosto de 2012

A Resistência

                                                                                                                              Dario Franco


          Ontem, depois de cento e trinta e cinco anos de um grande silêncio, Baía Formosa falou de si mesma: a matança de 10 de agosto de 1877 não foi matança, gente, foi resistência.

          Sim! Isso mesmo! Não foi matança, foi resistência! E dissemos isso abrigados e escudados na Igreja de São Pedro e na capela de São Pedro!

          O Pe. Schirleno, como um profeta, gritou que disseram matança de agosto para nos envergonhar. E é verdade gente! Calamos de vergonha durante exatos cento e trinta e cinco anos. Mas, o mutismo cessou ontem.

          O Pe. Luís Paulo, nosso mais festejado e mais ungido filho, sacerdos in aeternum, como um semeador, distribuiu sementes de memória e nos ordenou que partíssemos para o campo, como ele mesmo o fará, e plantássemos a partir de hoje as sementes da nossa altivez e do nosso ufanismo. Que vestíssemos a túnica da coragem de Francisco Magalhães, que tomássemos também o escudo do destemor dos resistentes de 1877 e preparássemos a esperança de uma grande colheita em 10 de agosto de 2013.
         Ele nos disse ainda que o conhecimento da nossa história alimentará o nosso amor e nutrirá a nossa busca de um futuro sem humilhações.

          E essa conclamação, eu vi, foi feita para uma assistência dominada por uma juventude tão destemida e tão intrépida como exigiu a ação da resistência de 1877. Eram jovens escolares. A maior promessa do nosso amanhã.

          Como iremos fazer isso? Essa nova tarefa não exige planejamento, estratégia e disponibilidade? Não foi com planejamento, estratégia e disponibilidade que os resistentes de 1877 lograram êxito?

          Inscrevo-me para essa semeadura e aguardo a convocação.

domingo, 29 de julho de 2012

135° Aniversário da Matança de Agosto de 1877.

                                       


                                                                                                                              Dario Franco

          No dia 10 de agosto de 1877 Baía Formosa foi invadida por um bando de criminosos com o objetivo de expulsar todos os moradores do então povoado.

          Os criminosos, em número de trinta e cinco, eram chefiados por João Cunhaú, dono do Engenho Estrela. Ele dizia que a terra onde viviam os habitantes de Baía Formosa desde antes de 1587 era uma herança sua e a queria desocupada.

          No dia 2 de agosto do mesmo ano, portanto oito dias antes do dia da Matança, aproveitando a ausência dos pescadores que se encontravam no mar, ele estivera em Baía Formosa e, com ajuda dos seus jagunços, derrubou e queimou onze casas.

          Um grupo de moradores foi então a Natal reclamar das atrocidades de João Cunhaú ao Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Dr. José Nicolau Tolentino de Carvalho. Em represália a isso João Cunháu decidiu invadir o povoado, queimar todas as casas e matar todos os moradores, incluídas aí mulheres e crianças.

          O pescador Francisco Magalhães soube do plano de bandido João Cunhaú. Então, ele decidiu organizar a resistência juntamente com um grupo de quatorze pescadores, entre eles Manoel Joaquim Biléo, Germano Mendonça, Joaquim do Porto, Miguel dos Anjos Pequenino e João do Porto, e mais a colaboração de todos os habitantes. E no dia 10 de agosto de 1877 impôs aos invasores uma derrota humilhante.

         A vitória dos residentes de Baía Formosa  foi decisiva para o estabelecimento e a prosperidade do povoado que em 1953 tornou-se Vila de Canguaretama e em 1958 virou município independente.

          Hoje Baía Formosa é um importante centro de produção de pescado e orgulho de todos os seus habitantes.

          Neste ano de 2012, 135° aniversário da Resistência, os cidadãos de Baía Formosa reverenciam os seus antepassados resistentes na pessoa de Francisco Magalhães.

domingo, 15 de julho de 2012

Aléxis – Virgílio (II Bucólica)








Formosvm pastor Corydon ardebat Alexim.

Delicias domini: Nec quid speraret habebat.

Tantum inter densas, umbrosa cacumina, fagos

Adsidue uenibat; ibi haec incondita solus

Montibus ET siluis Studio iactabat inani:

“O crudelis Alexi, nihil mea carmina curas?

Nil mostri miserere? Mori me denique coges.

Nunc etiam pecudes umbras et frigora captant:

Nunc uridis etiam occultant spineta lacertos.

Thestylis et rápido fessis messoribus aestu

Alia serpullumque herbas contundit olentis.

At mecum raucis, tua dum uestigia lustro,

Sole sub ardenti resonant arbusta cicadis.

Nonne fuit satius tristis Amaryllidis iras

Atque superba pati fastidia? Nonne Menaalcan.

Quamuis ille Níger, quamuis tu candidus esses?

O formose puer, nimium ne crede colori!

Alba ligustra cadunt, uaccinia nigra leguntur.

Despectus tibi sum, Nec qui sim quaeris, Alexi,

Quam diues pecoris, niuei quam lactis abundans.

Mille meae Siculis errant in montibus agnae;

Lac mihi non aestate nouom, non frigore defit.

Canto, quae solitus, si quando armenta uocabat,

Amphion Dircaeus in Actaeo Aracyntho.

Nec sum adeo informis: nuper me in litore uidi,

Cum placidum uentis staret mare; non ego Daphnim,

Iudice te, metuam, si nunquam fallit imago.

“ O tantum libeat mecum tibi sordida rura

Atque humilis habitare casas, et figere ceruos

Haedorumque gregem uiridi compellere hibisco!

Mecum uma in siluis imitabere Pana canendo.

Pan primus calamos cera coniungere pluris

Instituit; Pan curat ouis ouimnque magistros.

Nec te paeniteat calamo triuisse labellum:

Haec eadem ut sciret, quid non faciebat Amyntas?

Est mihi disparibus septem compacta cicutis

Fistula, Damoetas dono mihi quam debit olim,

ET dixit moriens: “Te nunc habet ista secundum.”

Dixit Damoetas; inuidit stultus Amyntas.

Preterea duo, Nec tuta hihi ualle reperti,

Caperoli, sparsis etiam nunc pellibus albo:

Bina die siccant ouis úbera; quos tibi seruo.

Iam pridem a me ilos abducere Thestylis orat;

Et faciet, quoniam sordent tibi numera nostra.

“ Huc ades, o formose puer: tibi lilia plenis

Ecce ferunt Nymphae calathis; tibi cândida Nais,

Palentis uiolas et summa papauerat carpens,

Narcissum et florem iungit bene olentis anethi:

Tum, casia atque aliis intexens suauibus herbis,

Mollia luteola pingit uaccinia calta.

Ipse ego cana legam tenera lanugine mala,

Castanesque nuces, mea quas Amaryllis amabat:

Addam cerea pruna; honos erit huic quoque pomo;

Et uos, o lauri, carpam, et te, próxima myrte,

Sic positae quoniam suauis miscetis odores.

“Rusticus ES, Corydon: Nec numera curat Alexis,

Nec, si numeribus certes, concedat Iollas.

Eheu! Quid uolui misero mihi? Floribus Austrum

Perditus et liquidis immisi fontibus apros.

Quem fugis, a! demens? Habitarunt di quoque siluas,

Dardaniusque Paris. Pallas quas condidit arcis

Ipsa colat; nobis placeant ante omnia siluae.

Torua leaena lupum sequitur, lúpus ipse capellam;

Florentem cytisum sequitur lasciua capella,

Te Corydon, o Alexi: trahit sua quemque uoluptas.

Aspice, aratra iugo referunt suspensa iuuenci,

Et sol crescentis decedens duplicat umbras;

Me tamen urit amor; quis enim modus adsit amori?

“A! Corydon, Corydon, quae te dementia cepit?

Semiputata tibi frondosa uitis in uolmo est.

Quin tu aliquid saltem potius, quorum indiget usus,

Uiminibus mollique paras dextere iunco?

Inuenis alium, si te hic fastidit, Alexim.”