domingo, 26 de fevereiro de 2012

Limpeza ou extermínio étnico?





          O senhor me diz que a limpeza corporal é louvável. Ah! E recomendável também como a dos ambientes? Entendi! Doutor, o senhor observou o terreiro luzidio do meu rancho, né? Eu mesmo faxino todo santo dia. Tenho satisfação. Vaidades.

          Ah! E também é civilizado? Vigie mesmo!  Matuto civilizado, onde já se viu... Mas concordo. Estamos de pleno acordo. Fico muito satisfeito em saber disso. Estou até orgulhoso de me sentir ombreado com o pensamento de uma pessoa tão distinta.

          Se não lhe interrompo, digo pro senhor: minha mãe Carminha, que deus a tenha em bom lugar, sempre falava que a limpeza deus amou. Não sei donde diacho ela tirou isso, não sei se das escrituras, mas acho uma sabedoria. Ah! O senhor também? Pois, lhe digo uma coisa: o mundo tá virado: hoje em dia tem muita gente letrada combatendo pela televisão a limpeza étnica. Ora, mas se é limpeza pra que combater, né doutor? Vigie, mesmo!

          Como assim eu estou equivocado? Com a limpeza ou com a étnica? Limpar, pra mim, é tirar o que é sujo. Isso eu entendo. Não? Não é isso? Me explique então, sou todo ouvidos.

          Interessante! O senhor escreve no jornal? Admiro ainda mais o senhor. Infelizmente na minha casa de menino quando eles chegavam embrulhando as compras da mercearia tinham outra serventia... mas, doutor, me desculpe a rudeza, limpar o corpo não é extirpá-lo, não. É só tirar a merda, com perdão da má palavra, que eu já disse.

          O senhor é um homem justo e tem opiniões respeitáveis, mas se mal pergunto, quem está equivocado? Quer ver, veja bem!

          Lá nas terras de Ruanda, se bem entendi da sua explicação, doutor, desculpe a insolência, tenho pra mim que não limparam a etnia tutsi, tutsi, é isso? Então! Lá mataram foi quase um milhão de pessoas a golpe de facão. E isso o senhor chama de limpeza étnica? Pra mim isso é sujeira, não limpeza. É matança. É extermínio étnico. Limpeza diz quem está matando, ou quem aprova essa crueldade, ou ainda pior, quem repete o que os outros dizem sem pensar nas heresia que tá falando. Cá pra mim eu vou chamar é de extermínio étnico, não limpeza. Tô errado? Não? Ainda bem.

          Tudo bem! Tudo bem! Tá limpeza, pode crer! Quer mais água?

          Tem razão. Não, não entendi. É costume? Diacho! Mas longe de mim desconcordar do senhor.   Discordar? Ah! Obrigado. Me falta os estudo, como o senhor vê.

          Desculpe aí o arrobo de querer me comparar com um homem do seu quilate. Afobamento de gente rude. Até mais ver. Mas, se quiser pousar a casa é limpa. Passar bem, doutor. Boa viagem.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Risco de vida





          O verbo seguir está na moda. Quer dizer, na moda entre repórteres e apresentadores de telejornais.    Acho que é contaminação extensiva de twitter.

          Já continuar ficou tão fora de moda que usá-lo agora na TV é passar atestado de ‘ultrapassado’.

          Por isso, não diga que o ministro continua no cargo, mas, o ministro segue no cargo. O dicionário Houaiss registra dezoito acepções para o uso desse verbo; o Aulete vinte e três; e o Michaelis vinte e cinco. Nenhuma naquele sentido E mais: seguir ainda não é sinônimo de continuar. Mas moda é moda, e daqui a um tempo, quando a população tiver absorvido o seguir ou execrado o continuar das suas falas, os dicionários farão o registro de mais uma acepção que é pra isso que eles servem (os dicionários, não os jornalistas).

          Todavia, o povo é resistente aos modismos semânticos. Por exemplo, os mesmos repórteres e apresentadores de telejornais criaram um imbróglio com a expressão ‘risco de vida’ falada pela plebe ignara. Sábios, aqueles profissionais trocaram para: ‘risco de morte’.

          Pois olha, não só não pegou até agora, como eles mesmos estão desconfiados que a inovação seja mico. Inseguros, já falam, por via das dúvidas, ‘risco de morrer’.

          Na verdade, o risco está sempre associado à perda. Concorda? Não se corre o risco de ganhar na loteria, por exemplo. Ter-se chance de, vá lá, desde que se jogue. Perder a vida, contudo, é um risco. “Viver é muito perigoso”, já dizia Riobaldo. Então o termo que sofreu a elipse foi ‘perder’. E nesse caso ‘risco de (perder a) vida’ está mais do que conforme. ‘Risco de (perder a) morte’ é coisa de suicida. Mas os jornalistas continuam, digo, seguem dizendo ‘risco de morte’ conforme o manual de redação do pasquim.