Barra de vídeo

Loading...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Uma encomenda impossível.


Dario Franco


          Você me pede, Ângela, para eu escrever um texto.
          Sobre o quê?
          Um texto, para se escrever, não é preciso que se tenha um assunto, um tema definido? Circunscrito? Delineado? Limitado? E então?
          Depois, como ensinam os escrevinhadores, não se deve introduzi-lo, desenvolve-lo e concluí-lo finalmente, tudo num palavreado claro e objetivo, como reclamam os comunicadores?
          Pois, ando tão sem assunto. Tão sem pauta.
          Como então, seguir um mote inexistente? O sem-assunto, Ângela, está fadado irremediavelmente à descontextualização.
          Não advertem também os profissionais da pena – a figura é já arcaica, mas dá pena não usa-la, a figura, não a pena, porque essa já não se usa mesmo, nem ela nem o seu sucedâneo, o lápis (ou é caneta?) esferográfico –, não advertem os profissionais da pena, repito, que se tenha em mira um público alvo, para que a expressão esteja conforme e se garanta a comunicação?
          Para quem escrever, então? Se não há público não há igualmente escritor e vice-versa. Qual leitor escolher se não escreverei?
          Ou pode-se registrar sem aquele pré-requisito, o do tema, e, do mesmo modo, ignorar um alvo, ainda que se tenha de respeitar outros cânones, como a clareza e a coesão textual – responsabilidade dos conectivos –, por exemplo?
          Mas, ah! Ângela, e se a clareza for um obstáculo, impedido não estará o escriba confuso – ou exigente – no escrever? Não exigiria ela, a clareza, orações simples – não como a de São Francisco que aquela é reza complexa – e diretas as construções, com sujeito e predicado em seqüência e, olhe lá, um complementozinho de nada para não atrapalhar o sujeito que vai ler? E sem intercalações nem deslocamentos?
          E essa nitidez exigida, sob esse ângulo, Ângela, não frustraria a bela letra?
          Conceder ou não conceder? E se conceder, por quê?
          A lucidez do texto pede orações simples assim: eu estou sem assunto. Não compostas. Sem subordinadas e sem coordenadas sindéticas ou assindéticas. E na ordem direta. Deste modo: eu estou sem assunto, e não: porque me faltam inspiração, que é exigência de poetas, e disposição, sem assunto estou eu. Mas, os poetas sacrificam  uma boa métrica, um ritmo, ou igualmente uma rima por um entendimento fácil?  Bocage, por exemplo, sacrificaria a tradução destes versos de Ovídio: “Pico, de Ausônia, rei, Satúrnia prole,/ Nas graças corporais era estremado, / Do espírito nos dons não menos belo.”/, por qualquer coisa como: Pico, rei de Ausônia, descendente de Satúrnia,/ era belíssimo de corpo e de espírito?
          Sim! E tudo aquilo valendo para não se correr o risco de confundir o ponto para o qual se dirige a seta, o leitor.

          Mas, se for para não correr o risco de tergiversar na concordância, alinhando, verbi gratia, o predicado da subordinada com o sujeito da principal, a disfunção estará no escrevinhador mesmo. E o leitor, se lê, concede àquele.
          Por fim, o que dizer da coesão textual se não há sequer escrita? E dos conectivos? Exatamente aqueles que dão a certeza de que um período está amarrado a outro e que todos eles juntos, constituindo o inteiro teor, dão o recado numa unidade inteligível? Como lançar mão da argamassa se não há tijolos a conectar, muito menos paredes a construir?
           Mas não, Ângela! De perceptibilidade não sou falto. Assunto e tirocínio, na arte da construção de paredes, me faltam.
          Hoje eu acordei tão sem assunto! Escrever um texto sobre o quê? Isso é uma encomenda impossível.




Postar um comentário