domingo, 19 de agosto de 2012

A memória de Baía Formosa

                                                                                                                          Dario Franco


          O indivíduo se funda na sua história e nas suas lembranças. Aquele que as perde se desorienta e vive sem sentido. Despreza-se. É desprezado. Não raro serve aos outros de chacota. Perde a sua identidade.


          Do mesmo modo, a história e as memórias coletivas fundam um povo. Se a comunidade as perde se desorienta e vive sem sentido. Vilipendiada. Sem identidade.

          Para o indivíduo sem lembranças e sem história recorre-se à medicina, e as terapias poderão restaurar o fio da meada e dar nova orientação à vida individual, desde que o acidente que causou a amnésia não tenha danificado irreparavelmente o centro da memória.

          E quando a amnésia, o esquecimento é coletivo? Quando a comunidade perdeu partes significativas da sua memória a quem ou a quê recorrer?

          Mesmo que não se tenha uma resposta, sabe-se que é preciso um tratamento. E Baía Formosa começou o tratamento da sua doença do esquecimento. No dia 10 de agosto de 2012 a comunidade quebrou um silêncio de cento e trinta e cinco anos e celebrou a memória do líder Francisco Magalhães.

          Mas, Baía Formosa tem relegado a sua memória a um segundo plano.

          Por exemplo, mudou por necessidade o local do antigo cemitério, mas esqueceu por décadas o local que tinha recebido seus ancestrais. Nenhum tratamento foi dado ao sítio que recebeu os seus mortos. Até que um dia o venderam sem reverência e sem pejo. Hoje aquele sítio é só uma lembrança sem registro. Depois, nem isso.

          Também, deixou que apagassem a denominação centenária do Presídio; que contassem piadas depreciativas sobre a origem do nome Bacupari; que Araraquara fosse uma designação obsoleta e sem sentido. E se repetiram e se registraram essas invasões culturais como nunca se atentou para a história e para as lembranças pretéritas. A maior, única e majestosa baía, seu emblemático patrimônio cênico-paisagístico, foi profanada com esgoto em cachoeira e nome acanhado de oportunidade.

          Para evitar o esquecimento histórico escreve-se a crônica dos dias. As atas dos parlamentos, os registros dos cartórios, os apontamentos eclesiásticos, os arquivos da administração pública, entre outros, são meios para se guardar a memória. Numa cultura oral resta, muitas vezes, somente a oralidade com a fragilidade que esse meio guarda em si mesmo.
          Os países em geral organizam institutos para guardar as memórias dos seus povos: os pró-memória. Criam associações para restaurar e não deixar desaparecer os seus significados, o seu patrimônio cultural. São eficazes estas soluções.

           Então, o que se propõe aqui é a criação de um Conselho de Avivamento da Memória como modo de cuidar da história e da cultura de Baía Formosa. Não será por certo, essa organização não governamental, uma substituta de entidades públicas responsáveis por essas áreas, mas um fomentador de ações que nos tirem do letargo e promovam a preservação da nossa identidade.

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