sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A lenda da praia das Barreirinhas



                                                                                                               Dario Franco




           A praia das Barreirinhas situa-se entre Baía Formosa-RN e Sagi . 
     É um lugar de passagem dos buges que trafegam pelas areias desertas da orla marítima entre essas duas localidades. 
    Ali não há infraestrutura nem serviços, mas é cenicamente uma praia majestosa e cativante. 
Vale a pena um pit-stop. A toponímia vem mesmo das falésias, enigmáticas como esfíngies, que emolduram aquele ambiente impregnado de eternidade e de sobrenatural.
          Pois bem, no sopé da barreira tem uma água ferruginosa. Não convém tocá-la, adverte-se. 
   Sua origem, segundo dizem, remonta ao tempo em que foi enterrado ali um baú com um tesouro. 
   No cimo da falésia, dizem que com o fito de marcar o lugar exato, a cova do ouro fora recoberta com pedras d’água trazidas do mar e ainda mais sinalizada por um pilão com duas alças ao modo das ânforas gregas antigas e também com correntes de ferro. 
   É dessas correntes que vem a ferrugem que ainda agora tinge a areia.
          A botija fora enterrada ali por um homem muito rico. 
   A procedência de tão grande riqueza, ao que consta, está ligada a um pacto com o demo, ou satã, ou capeta, ou maligno, ou o que mais seja. 
   O nome do pactuante que vendeu sua alma ao Príncipe das Trevas em troca de riqueza, embora não seja segredo, não se fala, nem se escreve tão pouco, sob pena de se ter a alma comprometida com a salvação eterna, segundo falam desde muito antigamente. 
   Para não se correr tamanho risco, guarda-se o preceito. Mas, todos os habitantes de Baía Formosa e do Sagi sabem o nome daquele que fez aliança com o coisa-ruim. Não perguntem quem foi o desventurado. Todos dirão sempre que não sabem. Fica melhor assim.
          Mas o tesouro, esse pode ser tirado, como se fala, sem risco para a vida e a alma do agraciado.
         No passado muitas tentativas foram feitas no sentido da apropriação do fantástico e cobiçado bem. Nenhuma, contudo, logrou sucesso. A principal, mas não única dificuldade é a ação de um intruso nomeado, segundo voz corrente, por Cassiano.
         No início do século passado, ao que se conta, a botija foi dada a um muito ilustre morador de Baía Formosa. Ele contou que a voz nítida e metálica que ele ouviu em sonho lhe passou a doação da fortuna em trinta e oito versos alexandrinos, cuidadosamente escandidos  e que foram registrados no conto Cuidado com Cassiano. Transcrevem-se abaixo aqueles versos recitados pela aparição:
“Abre tua mente e fica atenta ao que te dou.
Amealhei por pacto vil, fortunas tais,
Que gozei tudo, cresci gula, desdenhei.
Corri cidades, neguei pão, juntei-me aos maus.
Comprei juiz, matei venturas, tripudiei.
Findado o tempo, a danação, a vida a vau,
Com pedras d’água local certo remarquei.
E acorrentado a palmos sete ‘stá o baú
D’ouro completo o meu tesouro abandonado.
Nas trevas em que vivo sem esperança
O mimo sepultado aumenta a dor, o mal.
Por isso, dou-te sem resgate ou algum vodu.
E tua alma boa fica livre, sem revés,
Para que brindes uma vida afortunada
No mundo onde se pena em vão, à toa.
De duas alças é o pilão que assinalei
No fastígio da falésia, as Barreirinhas.
Caminho atravessando entre Sagi sem vau
E a cidade elevada que é Formosa.
Descansa nele uma corrente que descai
E que ta dou sem revelia por sinal.
Junho é o mês de arrancar o tal tesouro
Pois, não é lenda que subir os sete palmos,
Os escondidos tesouros enterrados
Afloram nesse mês por desespero.
E a noite certa deve a Lua presidir,
Astro que enquadra o cosmo e alinha a Terra ao Hades.
Da legião dos demos que o protegem
Pertence Cassiano, intruso que se esmera,
E ronda a espreita do feliz que o resiste.
Cuidado não te falte, pois vive a fera,
Em pós anos a seguir o contemplado
E frustrar quer a empresa a qualquer custo.
Se já não tarda o iminente desenlace
Cassiano morto vai o bem pra outro dono,
E perpetua assim a dor que me renega.
Pergunta, pois, alguma não me faças.
Com Cassiano pouco é o cuidado que t’assiste.”


























                                                                                                                          
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