segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Roteiro do Brasil




Capítulo XIII*



          Não é bem que passemos já do rio da Parahiba, onde se acaba o limite por onde reside o gentio Pitagoar, que tanto mal tem feito aos moradores das capitanias de Pernambuco eTamaracá e á gente dos navios que se perderam pela costa da Parahiba até o rio Maranhão.

          Esse gentio senhorêa esta costa do Rio Grande até o da Parahiba, onde confinaram antigamente com outros gentios, que chamam os Caytés, que são seus contrários e se faziam cruelisssima guerra uns aos outros, e se fazem ainda agora pela banda do sertão onde agora vivem os Caytés e pela banda do Rio Grande são fronteiros dos Tapuias, que é gente mais domestica, com quem estão ás vezes de guerra e ás vezes de paz, e se ajudam uns aos outros contra os Tabajàras, que se avisinham com elles pela parte do sertão.
         Costumam estes Pitagoares não perdoarem a nenhum dos contrários que capitavam, porque os matam e comem logo. Este gentio é de má estatura, baços de cor, como todo gentio, não deixam crescer nenhuns cabellos no corpo senão os da cabeça, porque em elles nascendo os arrancam logo; falam a língua dos Tumpinambás e Caytes; tem os mesmos costumes e gentilidades, o que declaramos ao diante no titulo dos Tupinambás. Este gentio é muito belicoso, guereiro e atraiçoado, e amigo dos Francezes, a quem faz sempre boa companhia, e industriado delles inimigos dos portuguezes. São grandes lavradores dos seus mantimentos, de que estão sempre providos, e são caçadores bons e taes flecheiros que não erram flechadas que atirem. São grandes pescadores de linha, assim no mar como nos rios de água doce. Cantam, bailam, comem e bebem pela ordem dos Tupinambás, onde se declarará miudamente sua vida e costumes que é quase o geral de todo o gentio da costa do Brazil.


* SOUZA, Gabriel Soares - Tratado Descriptivo do Brazil – 1587 - Roteiro Geral com largas informações de toda a costa do Brasil. In Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brazil. Volume 14. p. 30


sábado, 8 de setembro de 2012

A Enseada Iluminada




Dario Franco



            Estavam em Barra de Cunhaú e poderiam muito bem ter empreendido a viagem de volta, no rumo norte, como fora previsto. Deveriam estar no hotel em Natal às 22h00 para o jantar agendado com os outros integrantes da comitiva de negócios. Seriam brindados com a voz cosmopolita de Marina Elali, num repertório de baiões brejeiros.

            Foi uma visão inesperada que aguçou a atenção do pequeno grupo de empresários e por pouco não cancelou o festim mimoseado com os acordes de Gonzagão.

            Em meio à escuridão que chegou depois do lusco-fusco, há alguns quilômetros dali, uma gigantesca falésia apareceu iluminada. Era majestosa como uma catedral gótica, bela como um templo clássico, esplêndida como um santuário natural e colossal como as coisas que nos fazem apequenados. As luzes brancas e vermelhas que se projetavam na parede fantástica caíam de volta no mar encrespado e o balouçar ininterrupto dos fulgores refratados na água da grande baía criava uma sensação surreal e única e embevecedora.

            Diante do fascínio dos visitantes perante a visão espectral, o garçom do bar, com a intimidade e o enfado dos que se habituaram ao extraordinário, respondeu: é Baía Formosa.

            E ainda porque perguntado discorreu sobre os cerca de oito ou dez quilômetros que os separava do coração daquela enseada. A maré alta e os veículos impróprios frustravam o acesso pela praia. Restavam, por certo, os percursos pela BR-101 e a RN 062.

            Acordei com o rasgo estridente de uma moto enlouquecida por um piloto inconsequente. Mas, agora despertado, aquele sonho me parecia tão real como se verdade fosse.

            Contei aos circunstantes que encontrei ali no largo onde D. Zeza nos premia com sopas quentes e tapiocas aprazíveis e únicas como a nossa baía que eu a batizei de Aratypicaba, e perguntei: seria possível tal projeto? E as barreiras iluminadas não emprestariam mais valor a esse singular patrimônio cênico-paisagistico? E não levariam também, noite adentro, até aos olhos de quem se achasse em Barra de Cunhaú, Sibauma, Pipa e algures a divulgação da nossa beleza maior? E não confeririam identidade àquele recôncavo?

            Indago agora a você que me lê: seria possível?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Os Plágios sobre Baía Formosa



                                                                                                                               Dario Franco


          Quem busca informações sobre Baía Formosa na internet, sobre a sua história ou sobre seu turismo, por exemplos, vai aos poucos percebendo a repetição dos dados. Constato isso depois de ter visitado mais de duas dezenas de sites. Concluo, entretanto, que essa reprodução, por si só, nada significa além de sugerir talvez a escassez de fontes secundárias para a pesquisa. 

         Mas, há dois aspectos, os que dizem respeito à origem e a história de Baía Formosa, que tornam essas cópias viciadas um estorvo: o primeiro é a omissão dos créditos, a falta de referências das bibliografias consultadas, ou em outras palavras, a apropriação da idéia, da palavra, o plágio enfim; já o segundo é a informação desvirtuada, equivocada.

          Depois de algumas leituras percebe-se estar diante de um texto já lido em outro site ou blog, sem, contudo ter sabido o autor das letras ou se o informe corresponde à verdade.

         Afinal, quem escreveu o quê? Há de se perguntar. E vale o escrito?

          Para demonstrar essa perplexidade, faço aqui duas ilustrações sobre aqueles aspectos. Para o primeiro, coleto um dado da história propriamente dita, a matança de agosto de 1877, e para o segundo, o topônimo Aratypicaba.

          1)O escritor Luis da Câmara Cascudo publicou, em 1968, pela Fundação José Augusto, o livro Nomes da Terra. No verbete Baía Formosa, na página 164 da Edição Sebo Vermelho - Natal, ele fala sobre a matança de agosto de 1877.

          O mestrando Carlos José Cavalcanti de Lima, na sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN, em 2004, sobre o mesmo episódio, a matança de agosto, cita Morais (Carlos César Cavalcanti de Morais) e transcreve o texto do autor de Terras Potiguares publicado pela Editora Dinâmica-Natal em 1998 ;


          Apresento abaixo os dois textos. Neles destaquei em negrito as similitudes.

          O texto de Câmara Cascudo, publicado em 1968 é este, mantida a ortografia original:

         “O acontecimento mais notável na memória popular foi a matança de agôsto de 1877.   João de Albuquerque Maranhão Cunhaú, (1835-1896). Senhor do engenho da “Estrêla” , latifundiário poderoso, à frente de grupo armado veio à Baía Formosa desalojar dos ranchos alguns ou todos os moradores, alegando posse indevida e dizendo-se proprietário da enseada. O pescador Francisco Magalhães e quatorze homens, com facas e cacêtes, enfrentaram a escolta agressora em luta furiosa, havendo seis mortes, inclusive a de um rapaz, filho de João Cunhaú. Houve processo, e o próprio Chefe de Polícia, Dr. Francisco Clementino de Vasconcelos Chaves, efetuou a prisão do acusado, mandante e participante da chacina. Submetido a júri em Canguaretama, foi absolvido em 1878. Até princípios do Séc. XX era assunto de referência obrigatória na região. Vila em novembro de 1953.” sic

          O texto de Morais publicado em 1989 é este, Terras Potiguares, publicado em 1989, p.305 – -apud Carlos José Cavalcanti de Lima.
          “João Albuquerque Maranhão Cunhaú, poderoso latifundiário, Senhor do Engenho Estrela, dizendo-se dono da área, partiu para o novo vilarejo comandando um grupo armado e disposto a expulsar os moradores da localidade. Foi aí que surgiu a figura corajosa de Francisco Magalhães que, ao lado de mais quatorze homens armados com facas e pedaços de madeira, decidiram resistir aos agressores. Travou-se uma luta terrível, com um saldo de 6 mortes. O mandante da chacina foi preso e levado a julgamento no ano de 1878, em Canguaretama, onde foi absolvido.”

          Trata-se inequivocamente, o segundo texto, de uma citação indireta (quando o texto é baseado na obra do autor consultado). Não acrescenta nenhum elemento novo, mas suprime dados importantes como o ano do episódio descrito e o local, trocado por "novo vilarejo".

          Pois bem, o texto de Morais, que eu encontrei na dissertação de mestrado acima citada, aparece copiado em muitos sites que tratam de Baía Formosa, e aí já sem nenhuma citação.

          2) A segunda ilustração, como anunciada acima, trata do topônimo Aratypicaba. O escritor Câmara Cascudo, nos mesmos livro e verbete já referenciados, equivocadamente diz que o nome primeiro de Baía Formosa era Aretipicaba. E não grafou Aratypicaba por lapso. Percebe-se o equívoco do escritor quando se lê na página 10 do seu livro Nomes da Terra, acima referenciado, a carta que lhe mandara o professor Theodoro Sampaio, com quem ele estudara o tupi, em resposta a uma consulta sua. A réplica, mantidos o itálico e a ortografia, é esta:

          “O vocabulo Aretipicaba é simples corrupção do tupi.

          [O nome é] Aratypicaba, cujos componentes são – Ará-typicaba e significa – tanque dos papagaios.   Convindo notar que Ará é o papagaio grande, a arara, e typicaba é o substantivo verbal de typig, exprimindo ação de estancar, isto é, o estanque, o tanque, a repreza.” Sic

          As cópias encontradas nos sites visitados, invariavelmente decompõem os termos Ará e typicaba e concluem aretipicaba. Nem se perguntam por que ará dá are. Inadvertidamente propagam o cochilo do escritor.

          Um aspecto que se deve ter em mente quando se lê a história da colonização brasileira é a ideologia que permeia toda a narração. Assim, a interpretação estética da substituição da toponímia tupi pela lusa está sempre presente. Isso acabou por se instalar no imaginário coletivo. Ora, quando os portugueses chegaram aqui no Brasil já encontraram as referências geográficas cunhadas pelos tupis. Sabe-se que foi a pressão dos europeus – franceses, holandeses, espanhóis e ingleses – que obrigou Portugal a empreender a colonização para garantir a posse da terra. E politicamente precisavam trocar esses nomes como forma de marcar a colonização portuguesa, a posse da terra, a propriedade dos bens, em destaque na região de Aratypicaba, o pau-brasil que os franceses já estavam explorando sem serem incomodados.

          Muitos escritores brasileiros fazem uma interpretação poética para não dizer ideológica ou até mesmo ingênua dessa substituição dos nomes tupis por portugueses. Em Olinda se conta que a origem do nome da cidade vem da exclamação de um luso: Oh! Lindo lugar para se edificar uma cidade! Isso, ou coisa parecida!

          Pois bem, nos sites visitados sobre Baía Formosa tem um que repete essa preciosidade do ideário colonialista para o batismo de Baía Formosa. Absolutamente sem originalidade. Câmara Cascudo, no seu livro Nomes da Terra, p. 163, se inscreve no rol dos que repercutem essa interpretação ideológica e assevera que a troca do nome – Aratypicaba por Baía Formosa – deve-se ao devaneio estético:

          “ BAHIA FORMOSA denominação dada pelos portugueses enlevados com a beleza da enseada, aberta para o mar na moldura da floresta, depois chamada “Mata da Estrêla”.” Sic

          Interpreto, como escrevi no conto Os Marinheiros da Rua do Funil, publicado em francodario66.blogspot.com em 2007, “ que não se deve ter por motivo menor nesse rebatizado a conveniência de se assinalar com nome luso, na carta náutica dos exploradores do pau-brasil, o ponto preciso do interesse mercantil do empresariado do Reino, para não se correr o risco de pagar mico repetindo, boquiaberto, interpretações convenientes de enlevação estética, porque os navegadores portugueses de antanho não estavam nem aí para o êxtase poético, mas muito aqui para espalhar, sem conversa e sem canto, “as armas e os barões assinalados”.

          Convém dizer, por oportuno, que as obras apropriadas, como criações do espírito, são passíveis de proteção jurídica contra o plágio, ou contra a kibação, como dizem agora os internautas.

domingo, 2 de setembro de 2012

Que lembranças deixamos?





Dario Franco


          Não considero Cazuza um poeta sequer medíocre. Também não avalio o juiz Joaquim Barbosa como um heroi nacional. Bom barnabé vá lá. Mas, acho a tenacidade de Lucinha, mãe do menino que ela ainda não deixou morrer, o ponto alto da engenharia desse segundo tempo de vida do cantor, dessa sobrevida na memória contemporânea.

         Cazuza vivo estaria hoje com cinqüenta e quatro anos. Morto é um moço de trinta e dois anos que a mãe transforma em adolescente quando fala das suas irresponsabilidades como se de rebeldia se tratasse. A favor dele estão a obstinação da mãe e a precocidade da morte, ainda que turvada pelas fotografias do seu quase estado terminal. 

          Cazuza sem Lucinha nem seria mais. Duvidam? Os acima de trinta anos lembram-se de Lauro Corona? Foi contemporâneo do Cazuza e morreu com trinta e dois anos um ano antes de Cazuza se findar. Precisei pesquisar no Google pra recuperar o nome dele. O termo associado que o fiz palavra chave foi AIDS.

          Temo que o nome lucinha já remeta para HIV, filantropia, caridade, sei lá mais o quê. Amparadora de crianças soropositivas. E será por isso que ela será lembrada quando for saudade.

          Para muitos, o nome Cazuza já remete somente a uma sociedade: a Viva Cazuza.

         Não sei como se chamava a mãe de Beethoven nem a de Tom Jobim. Mas, me lembro de uma penca de composições deles. Ajuízo que Caetano Veloso gerou D. Canô.

         Afinal, que lembranças deixamos?