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terça-feira, 14 de maio de 2013

Recado a Jorge Gonçalves



 Dario Franco

          O terreno é aqui mesmo pras bandas de Porto Grande. Acho que está nas margens do Araguari, mas nem sei em que altura. Posso dizer que esse terreno serve como retiro aos Gonçalves, não pra fugirem das tormentas da cidade, mas, quem sabe pra cumprirem um rito atávico de conquista ou até mesmo pra se aproximarem das origens que remontam há pouco mais de quinhentos anos.

          Ainda que muito presente em suas vidas, falam dele acidentalmente. Quase sempre quando perguntados sobre os destinos dos muito próximos, ou quando informam os seus próprios. E a D. Sílvia? E o Márcio? Estão lá no terreno. Foram para o terreno. Voltam hoje do terreno. Semana que vem vou pro terreno. Plantei umas manivas no terreno. Deixei meu irmão lá no terreno. Vou comemorar o Dia das Mães, com os irmãos e a mãe, lá no terreno. Qualquer dia vou lhes levar ao terreno para uma pescaria. Só vou poder lhe encontrar na segunda-feira, hoje estou aqui no terreno.

          Pois bem! Faz anos que eu escuto essa referência despretensiosa ou imprecisa à herdade. Se digo despretensiosa talvez seja porque os genéricos terreno, ou retiro, ou sítio, ou fazenda me digam pouco sobre a propriedade. Arrisco um palpite para essa generalidade contumaz: a pouca importância do terreno na economia doméstica, ou a sua pequenez ante o vasto mundo da selva. E pode muito bem ser simples discrição.

          De repente, me ocorre que o substantivo comum, terreno, de tanto usado, poderia ter se transformado impropriamente em um muito próprio nome, que é o que são os substantivos, mas, com ares de comum. Alguém poderá dizer: que mal há nisso? Não há nome de lugar sem lugar? Pasárgada! Onde fica isso? E então!

          Ocorreu-me, ainda assim, nos últimos dias, uma idéia meio que transversa, ou absurda ou extemporânea mesmo: rebatizar ou quem sabe batizar Terreno. Vou sugerir ao Márcio que promova um concurso entre os irmãos, os sobrinhos, os netos para escolher um nome para Terreno.

          Um topônimo que tenha ares de nome próprio; que sugira a beleza escondida que Terreno tem nesta selva amazônica; que seja até uma homenagem a um animal ou a um acidente geográfico como ocorrem em sucurijú, cotias e em baia; que seja sonoro e doce e terno de se dizer. Ou que passe a idéia de bravura ou de terra indomável. Um nome de lugar, enfim, que traduza o que Terreno tem sido para todos os Gonçalves e agregados nesses tantos anos de desfrute e de acolhimento.

          Mas, se fica terreno mesmo deixamos-lhe na mesma classe ou categoria, se quiséssemos usar a nomenclatura arcaica, claro está, mas trocamos-lhe de grupo com as suas conseqüências gramaticais. Grafamos-lhe com maiúscula e conformaremos o uso das preposições. Diremos, então, que D. Sílvia foi passar a semana em Terreno e não mais no terreno. Que passaremos o feriado em Terreno. E que Márcio voltará de Terreno na segunda-feira de manhã. Por oportuno, informo ao Jorge Gonçalves que eu gostaria de, num futuro que não seja muito distante, porque não há muito tempo mais, conhecer Terreno.


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