domingo, 14 de julho de 2013

Aeroportos impecáveis. Portos caóticos.


            

                              Dario Franco

                Inicialmente seria uma ventura: viajar de navio através da Ilha de Marajó. O trecho era Belém-Santana e teria uma duração de 24h. Tive pouco tempo para decidir, mas arrisquei: seja o que Deus quiser, e embarquei!

 O agente de viagem me vendeu pouco o navio e nada do percurso. Agora eu me arrisco a passar algumas informações da nau para o leitor interessado: O Ana Beatriz III é construído em ferro e tem capacidade para quatrocentos passageiros; tem envergadura para mais de duzentas toneladas,  o que lhe dá uma estabilidade confortável. O balanço de tão suave fica às vezes imperceptível e ele desliza imponente. Tem um grande salão climatizado para duzentas pessoas; e os refeitórios e os camarotes são igualmente climatizados, o que seguramente é um item que instala o conforto, mormente numa região sabidamente tórrida.

O nome do colossome pareceu pomposo até o instante em que o vi. Era mesmo um navio extraordinário. Depois eu soube mais e muito casualmente. Durante o almoço em que a Elizângela serviu um pirarucuinnatura só comparável aos preparados por chefes renomados, indagado por Ronaldo, meu anfitrião, expressei que aquele repasto era manjar para príncipes. Não estava exagerando. Ronaldo, armador e filho do dono daquelenavio, escudado numa discrição equiparada à da nobreza, me informou que aquele navio havia transportado o Príncipe Charles, o primeiro na linha de sucessão do trono britânico. Fiquei atordoado por alguns segundos com a revelação pretensiosa e quis imaginar que seria uma brincadeira, oportuna e de bom gosto até. Pois lhes digo, não era bravata. As revistas e as fotografias complementaram a informação: durante três dias, entre Santarém e Alter do Chão, o Príncipe Charles e a sua comitiva de ambientalistas e cientistas freqüentaram cada um daqueles espaços do Ana Beatriz IIIinclusive aquele mesmo refeitório e aquela mesma mesa em que eu me encontrava agora.

O meu estarrecimento diante da revelação foi desproporcional ao silêncio e ao cuidado em que a informação fora encerrada.

Não consegui compreendero por quê da não exploração comercial do fato num universo em que o marketing enseja negócios compensadores, e quis saber se em Macapá se conhecia aquele fato. Ronaldo me disse com a mesma brandura que não.

Nada lhes direi agora sobre a paisagem, além de que ela é surpreendente e nos deslumbra. E ainda que o amanhecer nos enche de tamanha alegria que podemos até compreender porque a vida é exuberante.

Mas, constato desolado: num ambiente em que a água e a navegação são uma constante, nos custa entender porque o turismo ainda não empreendeu e a infra-estrutura portuária é total e completamente esquecida pelo estado.

Diferentemente de um aeroporto o espaço portuário aqui e algures é caótico.Por que¿

Ouso afirmar que o fluxo de passageiros no trecho Santana-Belém-Santana por via aquática, é muito mais significativo do que o do Macapá-Belém-Macapá, por via aérea.

Entretanto, as condições de embarque e dedesembarque nos navios são tão precárias, e os ambientes portuários improvisados tão duvidosos que por si só expressam o desmedido desrespeito aos viajores que saem da classe pobre e que ainda assim não são dispensados dos impostos que o estado cobra. E de quebra, aqueles lugares degenerados e imundos, aqui e algures, inviabilizam para milhares o acesso à contemplação a uma das belas paisagens do planeta na cobiçada Amazônia.
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