sábado, 20 de dezembro de 2014

A consulta


                                                                                                     Dario Franco

Consultei aos meus amigos formosenses daqui do Facebook a propósito da reforma da Praça Eliza Carlota. Indaguei se gostaram ou não gostaram. A pesquisa foi iniciada no dia 16 de dezembro/14 e terminada no dia 20 de dezembro/14 – duração de quatro dias – .

 Eis os resultados:

Entrevistados:   24 = 100%

Responderam:   14 = 58,3%

Não responderam:   10 = 41,7%

Sim, gostaram da reforma:  7%

Não gostaram da reforma:   93%


            O número dos que não responderam – 10 – foi muito alto. Isso pode significar: 1) que o meio – MSN (in Box) é pouco familiar aos usuários do Facebook; 2) que o acesso à internet é esporádico; 3) ou que os consultados não ficaram a vontade para responder por estarem identificados.

            A coação política é uma faceta da ditadura que ainda está fortemente presente no governo da Prefeitura de Baía Formosa-RN e alguns entrevistados – 6 – (60% dos que não responderam) têm vínculos políticos, comerciais ou administrativos.

            A quase unanimidade dos que responderam que não gostaram da reforma reflete a tendência das conversas informais.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Compartilha aí




Dario Franco


Estava carente e sabia que estava muito carente. As suas postagens na rede já não recebiam curtidas nem compartilhamentos. E se recebiam eram parcos, pálidos e distantes do surpreendente interesse ou da instantânea admiração que ele esperava despertassem suas intervenções  nos 2.413 amigos da sua conta.

 De vinte compartilhamentos diários a média caiu para três, para dois até zerar.

 Esperando uma reação retumbante postou: Amo minha mãe. Quem ama a sua mãe compartilha. Só o namorado da mãe fez um compartilhamento dúbio. Nada mais. E não era filho único.

 No dia nove último ele postou: Se você acha que hoje é dia de agradecer a Jesus compartilha aí. Inútil o apelo ou a apelação. Dois dias depois ninguém sequer curtira, muito menos compartilhara.

Estava desiludido. E sabia que estava muito desiludido com os amigos. Não pensou em suicídio, mas postou em negrito e caixa alta no seu “status” uma frase que ele mesmo criou com relativa dificuldade, mas com forte apelo impactante: NÃO VALE A PENA VIVER. Achou um pensamento profundo e avassalador. Contudo, com o intuito de despertar o interesse dos cultos, atribui a autoria da pérola literária a pobre Clarice Lispector. José Saramago e Drumond de Andrade escaparam dessa.

Ficou feliz quando viu o sinal vermelho no ícone da notificação: “ Lidiane comentou seu status”. Pressuroso abriu o link e leu o comentário da ex-mulher: kkkkkk.

A Praça Eliza Carlota







 Dario Franco




Mais do que uma praça a Eliza Carlota era uma janela. A janela da sala de visitas da cidade para a vastidão do mar.


Aquele enorme espaço urbano, aquela rua assim interrompida, ficou ali durante anos, não sei por qual motivo, e todos entenderam que a vocação do espaço livre era a abertura para a nossa contemplação e para a entrada dos ventos que nascem no mar.


Somos uma gente contemplativa. Gostamos de ficar olhando o mar. É nosso jeito.


Pois bem, um dia aquele espaço urbanizou-se e, com um projeto arquitetônico duvidoso, virou um belvedere. Ganhou o nome de Praça Eliza Carlota, iluminação de metrópole moderna, bancos sem conforto porque com dupla finalidade de acento e parede de canteiro, e um televisor porque era moda interiorana do tempo em que nem todos tinham o equipamento em casa.  Mas a vocação de janela para o além-mar restou intacta. Foi sabiamente preservada. Acho mesmo que por consciente apreensão dessa realidade.


Durante anos a av. João Ferreira de Souza, como um rio ligando o Turano à Praça Eliza Carlota despejou todas as noites, coletando de inúmeros afluentes, adolescentes e jovens naquele espaço, e celebrou festas especiais ou as do cotidiano viver. Os turistas fizeram dali um ponto de convergência. No verão, era ali que os surfistas se congraçavam.


Comerciantes não sabem interpretar a sociologia dos espaços urbanos. Isso aprendem os arquitetos.


Aí, um dia, chegou um comerciante sem pudor e sem modéstia e cerrou a janela que dava para o além-mar. Isso nos tirou o campo que nos permitia a apreensão do belo e do mágico. Onde fora o belvedere fez quiosque para mercadorias e num paredão cego, levantado para cobrir todo o campo de visão, manteve o televisor, que já não atrai ninguém, olhando fixamente para o Turano distante.


Uma obra feia, sufocante e inútil. Comerciantes não deveriam ir além do mercado.


O primeiro candidato a prefeito que disser que vai reabrir a nossa janela de contemplação terá o voto e a militância dos jovens.


No dia da demolição dos horrendos paredão e quiosques a juventude jura que vai celebrar a festa da abertura da janela para o além-mar.

domingo, 23 de novembro de 2014

O que quer Ricardo Semler?










Dario Franco


Li, com relativo entusiasmo, o artigo do empresário e professor Ricardo Semler publicado na Folha de São Paulo do dia 19/11/2014.


A nota alta, na minha leitura, claro está, não foi a revelação, mas a constatação de que o mundo inteiro sabia de um  monumental  crime contra o Estado brasileiro, qual seja, o da apropriação indevida de fabulosos recursos do erário público. E mais, que essa vergonha foi mantida, durante décadas, como direito consuetudinário pelos partidos, pelos políticos, pelos governantes e pela magistratura do País. Lembrou até o que se dizia também na França, “cochons” que aqui virou vaquinha e que teve até  ministro, o coronel Mário Andreazza, que ganhou a alcunha de ‘dez por cento’.


Semler teve que dizer que são hipócritas os que estão se assustando com o afloramento da fedentina. Não tinha outro jeito.


Contudo, um ponto no texto do patrício me deixou inquieto: ele afirma que “É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido [essa onda de prisões de executivos] com qualquer presidente.” No que concordo. Mas, ele também confessa:  Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.” E nisso discordo por uma questão operacional: ora “... o partido dela...”, como preferiu nominar, não poderia consertar a bandalheira criada e mantida por muitas décadas pelos poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário – se não o integrasse primeiramente. A faxineira não se mistura com a sujeira que ela varre.  Viver entre corruptos não faz do vivente um igual.


Imagino um presidente do PT informando a sua militância, lá pelos idos dos anos oitenta, que o partido só lançara candidato à presidência da república depois que o governo consertar o desgoverno.


Não diria que isso é cinismo, mas parodio o articulista: é ingênuo quem acha que essa postura poderia ser tomada por um partido que quer integrar a política para corrigir rumos (erradicar a fome) ou desmontar a corrupção (Operação Lava Jato, porque o mensalão é farsa do Legislativo, do Judiciário e do quarto poder: a mídia que quer agora promover um impeachment).


Meu último estranhamento é a advertência que me pareceu contraditória: pois, se estamos, sob a liderança da presidenta Dilma, “a andar à frente, e velozmente, neste quesito [de desmontagem da patifaria]”, por que votar contra o PT?


Que fique claro, o voto do empresário tucano não foi para o PSDB mas “...pelo fim de um longo ciclo do PT”.


Tenho que dizer que esse é o voto do ódio pregado pela mídia. O do Sarney foi vingança segundo os analistas ou gratidão segundo ele mesmo.     O meu foi por mais mudanças e pela atenção aos mais necessitados de moradia, de emprego,  de educação e de cultura. O PSDB , partido ao qual também estou filiado, oferecia concentração de renda na mão dos banqueiros, dos empresários e das empreiteiras.
Não me interessei em saber se o candidato tucano usava ou não usava talco.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A Dayane vai pra Mayame



Dario Franco




          Dizia-se culta, rica e bem sucedida. Aos cinquenta e quatro anos era formada em sociologia e já lera três livros: dois de Paulo Coelho e um de Zíbia Gaspareto – "lindo, lindo" - ressaltava extasiada e saltitante.          
          Ontem a encontrei meio inconformada: o Aécio perdera a eleição.
           Insatisfeita, mas não apática, comunicou-me: final do ano iria a Orlando com os netos “pra mim ficar uns dias longe desses analfabetos famintos que nem deviam votar”, arrematou a guisa de contundência.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A traição do Sarney


A TV Amapá flagrou o senador Sarney, da base aliada do PT, votando, no segundo turno, no PSDB, concorrente do PT no pleito presidencial de 2014.

Se o Sarney tivesse votado PT 13 teria me surpreendido e destruído ao mesmo tempo todo o entendimento que eu construí ao longo dos anos sobre o caráter do ex-presidente.

Pois bem, vai se retirar da vida pública como o vigarista medíocre de sempre, e com uma prova - ainda que ilícita -  incontestável da dubiedade de caráter que ele insistia despudoradamente, em vão, ocultar do público, ao modo dos avestruzes.

Ao justificar o seu voto contra o Brasil, expôs sua concepção de critério de voto: a gratidão a Tancredo Neves, o que nunca terminou um mandato, avô do candidato Aécio concorrente da sua aliança.

Ora, gratidão sempre foi a moeda de troca do clientelismo celerado e ordinário que lhe rendeu mandatos incontáveis no Maranhão e no Amapá. Moeda até hoje usada pelos políticos brasileiros e base do raciocínio dos analistas políticos da Globo, Veja, Época, Folha de São Paulo e de outros tendenciosos.  E não recebeu sufrágio do Brasil porque o Tancredo fora eleito por um colégio, como quis a ditadura militar, não pelo sufrágio universal como queria a sociedade orquestrando a campanha "Diretas Já". 

Vice na chapa do mineiro escorregadio, Sarney assumiu a presidência numa licença transversa – o cabeça de chapa eleito pelo colégio eleitoral não chegou a tomar posse porque uma diverticulite o barrou na antessala – . O deputado Ulysses Guimarães, presidente da Câmara dos Deputados, e natural substituto do “eleito” morto e não empossado, não era do gosto dos milicos que se escafediam. Sarney era.

domingo, 12 de outubro de 2014

PSB e Roberto Amaral


            
Dario Franco

                 Roberto Amaral, presidente do PSB, publicou ontem,  sábado 11, uma carta em que fala do suicídio político e ideológico do PSB ao apoiar a candidatura Aécio no 2º turno do pleito 2014.

               Ora, convidar Marina para o PSB foi inequivocamente oportunismo eleitoral do finado Campos (ou o gesto tem outro nome¿). 
                O mais é detalhe de cena.
                Roberto Amaral acatou aquele chamado; calou-se no enterro; e depois anunciou a Marina Silva como herdeira do espólio do coronel enterrado sob as manifestações políticas muito oportunas para o parto e para a entronização do novo mito no desgastado panteão de heróis fabricados. 
               Falar, escrever, gritar e espernear agora é inócuo para preservar o partido. A frivolidade da agremiação PSB já estava exposta e tinha superado todos os limites da decência política. O suicídio político e ideológico aconteceu quando da entrada da pastora acreana no partido.
               A verdade contundente é que, para permanecer vivo, o coronelismo matou o PSB. Vá pra casa, Roberto Amaral, você fracassou.
               O PSB exibiu o que sempre foi: mais uma agremiação cartorial.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Praia de Bacupari - ou A estética da miséria.


                                                                         Dario Franco

Em 1968 eu estava na praia de Bacupari em frente a um coqueiral onde se assentava a casa de taipa, coberta de palha e sem piso onde morava o Zé Bitinho com a mulher e a filharada. 
  Tinham uma vida muito difícil.

Pois bem, conversa vai conversa vem, Fernando lá do Recife, contemplando aquela casa e aquela gente, e vendo a pobreza afrontosa e desumana, suspirou fundo, e com uma voz melíflua soltou: “uma pena que o progresso vai destruir toda essa beleza”.

Será que o Fernando lá do Recife é eleitor do Aecin, gente? Será? Ou ele adicionou ao seu ver estético também o bem estar humano?

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Jesus é cabo eleitoral

                                                                                        Dario Franco
                



    
       Roberto Freire era candidato a presidência da República. Faz tempo.
                Um eleitor me disse que não votaria nele porque ele, o Roberto Freire, era ateu. Argumentei que a eleição não era pra escolher o papa nem o pastor da universal. Intransigente, ele insistiu: não voto em ateu.  
                 Bom, tempos depois FHC foi eleito. Não sei se com o voto daquele eleitor.
                As religiões são primeira e unicamente sociedades políticas. Oriente islâmico X Ocidente cristão. Roma inventou uma religião pra se contrapor ao Oriente. O cristianismo é europeu. As cruzadas são um capítulo bélico na história política do mundo. O Estado do Vaticano convém ao Ocidente, embora censuremos as teocracias islâmicas orientais. A arquitetura das mesquitas e das igrejas é exibição explícita e inconfundível de poder político. O coque que a Marina Silva usa é ícone da mulher virtuosa entre os protestantes (só as mundanas cortam o cabelo ). O pastor da assembleia de deus que justifica os crimes de Israel contra os que vivem na Faixa de Gaza o faz com a mão sobre a Torá de Moisés.
               Entre nós, os marechais que proclamaram a nossa república diante dos "bestializados”,  a quiseram laica por força da moda conntiana, é bem verdade. 
               Contudo, até hoje a nossa constituição é promulgada "sob a proteção de deus”; os tribunais exibem os crucifixos nas suas salas de julgamento; o parlamento tem bancada evangélica; as igrejas não pagam imposto de renda; uma catedral  católica se alinha na Esplanada entre os ministérios da república; e as autarquias da república gastam o dinheiro dos impostos com os mais belos arranjos natalinos. A iluminação de natal na Esplanada dos Ministérios, paga com o dinheiro público, é bom insistir, é majestosa. Eu acho.
               Logo, culto é comício, púlpito é palanque e Maomé é cabo eleitoral.







quinta-feira, 31 de julho de 2014

A bíblia é o meu escudo.







                                                                                                   Dario Franco


Condenado pelo assassinato e estupro de sete mulheres – duas das quais menores de idade – ele empunhou a bíblia e virou evangélico já nos primeiros meses da vida reclusa.

A progressão da pena o alcançou no “bom comportamento” e já aos vinte e sete anos de idade.

Hoje, em liberdade provisória, congrega na igreja do bairro vizinho onde se estabeleceu e lá testemunha a sua fé – Oh! Glória! Exclamam os irmãos edificados –.  Caminha circunspecto e evita os lugares mundanos.

 Invariavelmente ostenta a “Palavra” debaixo do braço, e para todos repete que a bíblia é o seu escudo e a sua razão de vida. Transita entre os honrados e tem acento na mesa dos judiciosos. Os homens o respeitam e as mulheres o admiram.

Na semana passada a justiça cassou sua liberdade provisória.

Um menino de oito anos o apontou como o assassino da sua mãe; Beta o identificou como o homem de paletó e gravata que deu carona às duas amigas cujos corpos, também ela, os reconheceu na geladeira do IML; e a retroescavadeira a serviço da polícia judiciária trouxe a amostra, juntamente com o corpo da jovem assassinada e ainda não identificado, a bíblia que o abençoado já não mais carregava no sovaco.

Com voz nasalada, olhos voltados para o céu e indicador em riste apontando para as estrelas ao modo dos “atletas de deus” quando fazem um gol, ele repete o jargão em tom absolutamente convincente para os repórteres da grande mídia: - sou inocente. A bíblia é o meu escudo. 

Pelas redes sociais, os irmãos da congregação convocaram para sexta-feira, na plataforma da rodoviária, uma manifestação ou protesto, melhor dizendo, contra o cerceamento à liberdade do insuspeito homem de deus.

Para aquele ato, o presbítero Evaldo e a irmã Salviana mandaram confeccionar cinco milheiros de cartazes com o dístico: “a voz do povo é a voz de deus”.


 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Para Mariana Prestes


Dario Franco

 Manjericão suave,

A que se prestam

Teu sabor e teu perfume?

Pois, para muito além desses  sentidos,

Alimentaste também  (quem diria!)

A memória da Coluna e da Esperança dos espoliados da Pátria.

 

Teu verde-folha se acendeu como fogo

Nas mãos do João ( o do Castelo, que ironia!)

E teu clarão gritou teu berço: Mariana Prestes!

 

Quedei-me incrédulo

Para depois te proclamar: bendito!

Vizinho a mim

Luiz Carlos Prestes vive!
 
Baía Formosa, 03 de julho de 2014

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Oposição política. Como se faz isso?




 

Pois é! Como se deve fazer oposição?
A resposta a essa pergunta parece ser simples. E não se quer dizer aqui que a coisa é complicada.

Então, de início é bom lembrar que quem faz oposição a faz contra quem ganhou uma eleição. Contra alguém a quem a maioria do eleitorado aprovou e sufragou o seu nome. E é oportuno lembrar também que quem ficou em segundo lugar numa disputa eleitoral tem a responsabilidade e a obrigação de fazer oposição. Por quê? Porque os eleitores que não votaram no candidato que foi eleito precisam saber se a proposta do eleito está sendo executada e se ela não está prejudicando a maioria. E esse é que é o papel da oposição.

Mas o que é que compõe uma oposição?

Podem-se listar três itens: 1) propositura; 2) fiscalização; e  3) denúncia pública.  

No primeiro item, quer dizer, na propositura, os líderes oposicionistas devem conhecer muito bem o programa em execução do governante ao qual fazem oposição e dizer não queremos assim, do nosso jeito as coisas sairão melhor, e expor o que pretende. Ou dizer, isso que está sendo feito é desnecessário ou inoportuno, e expor com clareza o porquê das contestações.

Para o segundo item, a fiscalização, o opositor deve conhecer muito bem o que está sendo feito e fiscalizar, por exemplo, se o gasto público está sendo conduzido com rigor e honestidade, ou se a obra está sendo feita de acordo com o projeto aprovado. Há mecanismos legais, tanto para parlamentares como para os cidadãos sem mandato, que obrigam o governante a expor e a dar acesso aos dados.

A denúncia, o terceiro item, deve estar sempre  fundamentada  em um fato real e deve conter todas as provas que lhe dê base.

A responsabilidade moral, o compromisso com a verdade é uma condição  integrante e obrigatória tanto na propositura quanto na fiscalização e também na denúncia.

Nem se precisa dizer, mas o ódio pessoal, a raiva, a intolerância contra o eleito é falta de propositura e de fiscalização. É falta de conteúdo. É falta de objetividade porque o objetivo da oposição é a coisa pública, não a vida pessoal do governante. Muitos pensam equivocadamente que o discurso raivoso é por si só uma oposição. Não é. Muitas vezes só expõe o desequilíbrio de quem esbraveja os impropérios e a incontinência verbal.

Quando se faz um ataque pessoal contra o governante introduz-se na política um item que não faz parte dela: a vida privada.

A intriga pessoal, a descompostura, o ataque sem clareza e a agressão verbal são o conteúdo dos que não sabem propor e dos que não tiveram a responsabilidade de fiscalizar, ou, muito grave também, dos que não sabem.

Num episódio recente os vereadores da oposição em Baía Formosa não compareceram à Câmara Municipal na sessão de Abertura do Ano Legislativo. Não havia, pela natureza do evento, nenhuma pauta para votação. Logo não foi uma manobra de obstrução. O prefeito leu a mensagem do executivo e a oposição não quis ouvir. Não quis saber o que o prefeito tinha a dizer.

Poderão aqueles vereadores exercer com eficiência e eficácia a sua oposição? O não comparecimento foi um ato de oposição?

 

 

 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Recado a Dilma Roussef


 
Dario Franco

 

              - Eliete?

- Não, Elite mesmo.

- Estranho. Pensei que fora um engano...

- Engano seu. É Elite. Nem sobrenome eu tenho. Alguns me dão o apodo de “dominante”. Meio que redundante, né? Eu sou a Elite por excelência. A maior. Não componho com tropa. Nem com clero. Empresto o nome por puro diletantismo.

Ordeira, quero tudo enquadrado na lei. Tudo dentro da lei desde que os legisladores e a magistratura permaneçam ao nosso serviço como tem sido desde sempre.  O Joaquim Barbosa nem percebe: está empolgado o juizinho como um serviçal que perdeu a noção das relações patrão X empregado. Pensa-se até integrante, parte de mim. É até convincente vê-lo tão empenhado em ser grato por tudo o que a república lhe concedeu. Por bom comportamento, por mérito, é claro, porque nunca foi rebelde contra nós a Elite. Gratidão! Gratidão, aliás, é a virtude que os de baixo não podem faltar com os de cima. Ingratidão contra os de baixo é libertação. O juizinho agora se sente livre.

E é aquela virtude que falta a Dilma, ao Lula, ao José Genoíno, ao José Dirceu, ao João Paulo e a mais uns quantos. Ficaram soberbos. Rebelaram-se e até nos ameaçaram com igualdade. Vejam só. Chega a ser hilário se não fosse uma afronta nojenta.

 Pagarão. E pagarão também por terem ousado aplicar os métodos e as estratégias por nós criados e que nos são próprios. Conspurcaram a compra de apoio dos parlamentares para a governabilidade. Mas, já estamos revendo uma nova engenharia!

Depois de um longo período, ainda que forçados, resolvemos perdoar o mau comportamento do passado. Anistia, contudo, não quer dizer esquecimento. Pela nossa imprensa, nossos arautos, mantivemo-nos vigilantes. E quaisquer críticas contra ela agitamos a bandeira da liberdade de imprensa e tudo se cala, tudo cessa. Tenho vontade de rir. E apesar de todas as denúncias ousaram, repito, ousaram, usando os meandros da democracia, esse regime que tanta dificuldade tem nos causado, torno a repetir com muita indignação, ousaram galgar o poder máximo.

 Pelos nossos jornalistas e pelos nossos artistas (brilhante a namoradinha do Brasil, não?) dissemos incontáveis vezes sobre o perigo que representava essa gente. Por vários pleitos conseguimos barrar o ataque. Enfim, capitulamos. Mas, é um verdadeiro achincalhe ser governado por essa gente.

Foram eficientes os nossos correspondentes na divulgação do julgamento: cunharam mensalão e mensaleiros e nos distanciamos dos usurpadores. Quem acredita que o julgamento foi político?

Vejam só, distribuíram renda em forma de bolsa família, diminuiu a miséria e engrossou o exército da classe média.

 Mas, já formatamos o discurso de combate a essa prática que mina a nossa hegemonia elitista: assistencialismo, paternalismo. Deve-se ensinar a pescar e não dar o peixe.

  A própria classe média continua apostando no mérito. E a argumentação em defesa da meritocracia é produzida por ela mesma e se espalha como câncer. Hah hah hah!  E tem também o fundamento teológico: ganharás o pão com o suor do teu rosto.

Precavei-vos, Senhora Dilma Roussef!

 Contra nós apenas a distribuição de renda.

 

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A maior baía do Rio Grande do Norte


Dario Franco

Preciso dizer inicialmente que considero a baía que emoldura a cidade de Baía Formosa um belo patrimônio paisagístico.

E preciso dizer mais três coisas que eu penso sobre ela:

  1.           A primeira é que essa baía, sendo um patrimônio, não tem sido bem cuidada como se deve cuidar de uma riqueza. Não conheço nenhuma ação ambiental levada a cabo para erradicar, por exemplo, o derramamento de óleo das embarcações nas suas águas. Mas, se não cuidássemos, mas também não a sujássemos, já estaria de bom tamanho. Contudo, foi o poder público, a Prefeitura Municipal de Baía Formosa, quem conspurcou, quem profanou, quem poluiu aquela paisagem, primeiramente orientado um esgoto para a falésia e depois edificando patamares para a queda das águas esgotadas (disseram-me que turistas desavisados se banham naquela cascata imunda e depois maldizem quem a construiu);
  2.           A segunda é sobre a reprodução do pensamento colonialista do escritor potiguar Câmara Cascuda sobre o motivo que tiveram os portugueses para trocar o nome da cidade. Os pitaguares a denominaram Aratypicaba. Os lusos trocaram o nome por uma questão de dominação política. França, Holanda, Espanha, Inglaterra e Portugal estavam, lá pelos idos de 1500, empenhados na conquista de novos territórios.                                      Fincar a bandeira no solo do novo domínio  era garantir a conquista.                                                                                                                                                         Ora, o colonialismo, como doutrina política, considera que a cultura do invasor é sempre superior a do povo que sofre a invasão.  E esse é o motivo que fez os portugueses colonialistas mudarem o nome: tiraram o nome da língua tupi, a língua então falada, e impuseram a língua dos colonizadores.  Não falamos português por acaso, nem a América espanhola fala espanhol por capricho, nem a África do Sul fala inglês por diletantismo, nem os indianos de Goa falam português porque acham essa uma língua exótica. Dizer que os portugueses ficaram “enlevados com a beleza” e decidiram trocar de nome do lugar é um besteirol que inscreve quem o repete no rol dos néscios de carteirinha. Pensar que todo turista é também analfabeto é um engano. Alguns vão olhar a placa com essa estupidez e rir da cara de quem quis lhes  impingir uma estultícia;
  3.           Por último preciso  dizer que esse belo patrimônio paisagístico não tem um nome. Não tem uma identidade. Eu o chamo de Baía de Aratypicaba por motivos óbvios: se tiraram o nome da cidade, por que não nominá-la       com o nome primitivo?                                                                                                                                                      Para terminar, lembro que dar um nome a um lugar público é função dos vereadores.    Ficamos esperando a iniciativa de algum edil que tenha compromisso com a cultura de Baía Formosa antes que um aventureiro a nomine com identidade comercial ou ela ganhe o nome de Baía do Esgoto ou Cachoeira do Esgoto.