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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Recado a Dilma Roussef


 
Dario Franco

 

              - Eliete?

- Não, Elite mesmo.

- Estranho. Pensei que fora um engano...

- Engano seu. É Elite. Nem sobrenome eu tenho. Alguns me dão o apodo de “dominante”. Meio que redundante, né? Eu sou a Elite por excelência. A maior. Não componho com tropa. Nem com clero. Empresto o nome por puro diletantismo.

Ordeira, quero tudo enquadrado na lei. Tudo dentro da lei desde que os legisladores e a magistratura permaneçam ao nosso serviço como tem sido desde sempre.  O Joaquim Barbosa nem percebe: está empolgado o juizinho como um serviçal que perdeu a noção das relações patrão X empregado. Pensa-se até integrante, parte de mim. É até convincente vê-lo tão empenhado em ser grato por tudo o que a república lhe concedeu. Por bom comportamento, por mérito, é claro, porque nunca foi rebelde contra nós a Elite. Gratidão! Gratidão, aliás, é a virtude que os de baixo não podem faltar com os de cima. Ingratidão contra os de baixo é libertação. O juizinho agora se sente livre.

E é aquela virtude que falta a Dilma, ao Lula, ao José Genoíno, ao José Dirceu, ao João Paulo e a mais uns quantos. Ficaram soberbos. Rebelaram-se e até nos ameaçaram com igualdade. Vejam só. Chega a ser hilário se não fosse uma afronta nojenta.

 Pagarão. E pagarão também por terem ousado aplicar os métodos e as estratégias por nós criados e que nos são próprios. Conspurcaram a compra de apoio dos parlamentares para a governabilidade. Mas, já estamos revendo uma nova engenharia!

Depois de um longo período, ainda que forçados, resolvemos perdoar o mau comportamento do passado. Anistia, contudo, não quer dizer esquecimento. Pela nossa imprensa, nossos arautos, mantivemo-nos vigilantes. E quaisquer críticas contra ela agitamos a bandeira da liberdade de imprensa e tudo se cala, tudo cessa. Tenho vontade de rir. E apesar de todas as denúncias ousaram, repito, ousaram, usando os meandros da democracia, esse regime que tanta dificuldade tem nos causado, torno a repetir com muita indignação, ousaram galgar o poder máximo.

 Pelos nossos jornalistas e pelos nossos artistas (brilhante a namoradinha do Brasil, não?) dissemos incontáveis vezes sobre o perigo que representava essa gente. Por vários pleitos conseguimos barrar o ataque. Enfim, capitulamos. Mas, é um verdadeiro achincalhe ser governado por essa gente.

Foram eficientes os nossos correspondentes na divulgação do julgamento: cunharam mensalão e mensaleiros e nos distanciamos dos usurpadores. Quem acredita que o julgamento foi político?

Vejam só, distribuíram renda em forma de bolsa família, diminuiu a miséria e engrossou o exército da classe média.

 Mas, já formatamos o discurso de combate a essa prática que mina a nossa hegemonia elitista: assistencialismo, paternalismo. Deve-se ensinar a pescar e não dar o peixe.

  A própria classe média continua apostando no mérito. E a argumentação em defesa da meritocracia é produzida por ela mesma e se espalha como câncer. Hah hah hah!  E tem também o fundamento teológico: ganharás o pão com o suor do teu rosto.

Precavei-vos, Senhora Dilma Roussef!

 Contra nós apenas a distribuição de renda.

 

 
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