quinta-feira, 31 de julho de 2014

A bíblia é o meu escudo.







                                                                                                   Dario Franco


Condenado pelo assassinato e estupro de sete mulheres – duas das quais menores de idade – ele empunhou a bíblia e virou evangélico já nos primeiros meses da vida reclusa.

A progressão da pena o alcançou no “bom comportamento” e já aos vinte e sete anos de idade.

Hoje, em liberdade provisória, congrega na igreja do bairro vizinho onde se estabeleceu e lá testemunha a sua fé – Oh! Glória! Exclamam os irmãos edificados –.  Caminha circunspecto e evita os lugares mundanos.

 Invariavelmente ostenta a “Palavra” debaixo do braço, e para todos repete que a bíblia é o seu escudo e a sua razão de vida. Transita entre os honrados e tem acento na mesa dos judiciosos. Os homens o respeitam e as mulheres o admiram.

Na semana passada a justiça cassou sua liberdade provisória.

Um menino de oito anos o apontou como o assassino da sua mãe; Beta o identificou como o homem de paletó e gravata que deu carona às duas amigas cujos corpos, também ela, os reconheceu na geladeira do IML; e a retroescavadeira a serviço da polícia judiciária trouxe a amostra, juntamente com o corpo da jovem assassinada e ainda não identificado, a bíblia que o abençoado já não mais carregava no sovaco.

Com voz nasalada, olhos voltados para o céu e indicador em riste apontando para as estrelas ao modo dos “atletas de deus” quando fazem um gol, ele repete o jargão em tom absolutamente convincente para os repórteres da grande mídia: - sou inocente. A bíblia é o meu escudo. 

Pelas redes sociais, os irmãos da congregação convocaram para sexta-feira, na plataforma da rodoviária, uma manifestação ou protesto, melhor dizendo, contra o cerceamento à liberdade do insuspeito homem de deus.

Para aquele ato, o presbítero Evaldo e a irmã Salviana mandaram confeccionar cinco milheiros de cartazes com o dístico: “a voz do povo é a voz de deus”.


 
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