domingo, 23 de novembro de 2014

O que quer Ricardo Semler?










Dario Franco


Li, com relativo entusiasmo, o artigo do empresário e professor Ricardo Semler publicado na Folha de São Paulo do dia 19/11/2014.


A nota alta, na minha leitura, claro está, não foi a revelação, mas a constatação de que o mundo inteiro sabia de um  monumental  crime contra o Estado brasileiro, qual seja, o da apropriação indevida de fabulosos recursos do erário público. E mais, que essa vergonha foi mantida, durante décadas, como direito consuetudinário pelos partidos, pelos políticos, pelos governantes e pela magistratura do País. Lembrou até o que se dizia também na França, “cochons” que aqui virou vaquinha e que teve até  ministro, o coronel Mário Andreazza, que ganhou a alcunha de ‘dez por cento’.


Semler teve que dizer que são hipócritas os que estão se assustando com o afloramento da fedentina. Não tinha outro jeito.


Contudo, um ponto no texto do patrício me deixou inquieto: ele afirma que “É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido [essa onda de prisões de executivos] com qualquer presidente.” No que concordo. Mas, ele também confessa:  Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.” E nisso discordo por uma questão operacional: ora “... o partido dela...”, como preferiu nominar, não poderia consertar a bandalheira criada e mantida por muitas décadas pelos poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário – se não o integrasse primeiramente. A faxineira não se mistura com a sujeira que ela varre.  Viver entre corruptos não faz do vivente um igual.


Imagino um presidente do PT informando a sua militância, lá pelos idos dos anos oitenta, que o partido só lançara candidato à presidência da república depois que o governo consertar o desgoverno.


Não diria que isso é cinismo, mas parodio o articulista: é ingênuo quem acha que essa postura poderia ser tomada por um partido que quer integrar a política para corrigir rumos (erradicar a fome) ou desmontar a corrupção (Operação Lava Jato, porque o mensalão é farsa do Legislativo, do Judiciário e do quarto poder: a mídia que quer agora promover um impeachment).


Meu último estranhamento é a advertência que me pareceu contraditória: pois, se estamos, sob a liderança da presidenta Dilma, “a andar à frente, e velozmente, neste quesito [de desmontagem da patifaria]”, por que votar contra o PT?


Que fique claro, o voto do empresário tucano não foi para o PSDB mas “...pelo fim de um longo ciclo do PT”.


Tenho que dizer que esse é o voto do ódio pregado pela mídia. O do Sarney foi vingança segundo os analistas ou gratidão segundo ele mesmo.     O meu foi por mais mudanças e pela atenção aos mais necessitados de moradia, de emprego,  de educação e de cultura. O PSDB , partido ao qual também estou filiado, oferecia concentração de renda na mão dos banqueiros, dos empresários e das empreiteiras.
Não me interessei em saber se o candidato tucano usava ou não usava talco.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A Dayane vai pra Mayame



Dario Franco




          Dizia-se culta, rica e bem sucedida. Aos cinquenta e quatro anos era formada em sociologia e já lera três livros: dois de Paulo Coelho e um de Zíbia Gaspareto – "lindo, lindo" - ressaltava extasiada e saltitante.          
          Ontem a encontrei meio inconformada: o Aécio perdera a eleição.
           Insatisfeita, mas não apática, comunicou-me: final do ano iria a Orlando com os netos “pra mim ficar uns dias longe desses analfabetos famintos que nem deviam votar”, arrematou a guisa de contundência.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A traição do Sarney


A TV Amapá flagrou o senador Sarney, da base aliada do PT, votando, no segundo turno, no PSDB, concorrente do PT no pleito presidencial de 2014.

Se o Sarney tivesse votado PT 13 teria me surpreendido e destruído ao mesmo tempo todo o entendimento que eu construí ao longo dos anos sobre o caráter do ex-presidente.

Pois bem, vai se retirar da vida pública como o vigarista medíocre de sempre, e com uma prova - ainda que ilícita -  incontestável da dubiedade de caráter que ele insistia despudoradamente, em vão, ocultar do público, ao modo dos avestruzes.

Ao justificar o seu voto contra o Brasil, expôs sua concepção de critério de voto: a gratidão a Tancredo Neves, o que nunca terminou um mandato, avô do candidato Aécio concorrente da sua aliança.

Ora, gratidão sempre foi a moeda de troca do clientelismo celerado e ordinário que lhe rendeu mandatos incontáveis no Maranhão e no Amapá. Moeda até hoje usada pelos políticos brasileiros e base do raciocínio dos analistas políticos da Globo, Veja, Época, Folha de São Paulo e de outros tendenciosos.  E não recebeu sufrágio do Brasil porque o Tancredo fora eleito por um colégio, como quis a ditadura militar, não pelo sufrágio universal como queria a sociedade orquestrando a campanha "Diretas Já". 

Vice na chapa do mineiro escorregadio, Sarney assumiu a presidência numa licença transversa – o cabeça de chapa eleito pelo colégio eleitoral não chegou a tomar posse porque uma diverticulite o barrou na antessala – . O deputado Ulysses Guimarães, presidente da Câmara dos Deputados, e natural substituto do “eleito” morto e não empossado, não era do gosto dos milicos que se escafediam. Sarney era.