quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A Praça Eliza Carlota







 Dario Franco




Mais do que uma praça a Eliza Carlota era uma janela. A janela da sala de visitas da cidade para a vastidão do mar.


Aquele enorme espaço urbano, aquela rua assim interrompida, ficou ali durante anos, não sei por qual motivo, e todos entenderam que a vocação do espaço livre era a abertura para a nossa contemplação e para a entrada dos ventos que nascem no mar.


Somos uma gente contemplativa. Gostamos de ficar olhando o mar. É nosso jeito.


Pois bem, um dia aquele espaço urbanizou-se e, com um projeto arquitetônico duvidoso, virou um belvedere. Ganhou o nome de Praça Eliza Carlota, iluminação de metrópole moderna, bancos sem conforto porque com dupla finalidade de acento e parede de canteiro, e um televisor porque era moda interiorana do tempo em que nem todos tinham o equipamento em casa.  Mas a vocação de janela para o além-mar restou intacta. Foi sabiamente preservada. Acho mesmo que por consciente apreensão dessa realidade.


Durante anos a av. João Ferreira de Souza, como um rio ligando o Turano à Praça Eliza Carlota despejou todas as noites, coletando de inúmeros afluentes, adolescentes e jovens naquele espaço, e celebrou festas especiais ou as do cotidiano viver. Os turistas fizeram dali um ponto de convergência. No verão, era ali que os surfistas se congraçavam.


Comerciantes não sabem interpretar a sociologia dos espaços urbanos. Isso aprendem os arquitetos.


Aí, um dia, chegou um comerciante sem pudor e sem modéstia e cerrou a janela que dava para o além-mar. Isso nos tirou o campo que nos permitia a apreensão do belo e do mágico. Onde fora o belvedere fez quiosque para mercadorias e num paredão cego, levantado para cobrir todo o campo de visão, manteve o televisor, que já não atrai ninguém, olhando fixamente para o Turano distante.


Uma obra feia, sufocante e inútil. Comerciantes não deveriam ir além do mercado.


O primeiro candidato a prefeito que disser que vai reabrir a nossa janela de contemplação terá o voto e a militância dos jovens.


No dia da demolição dos horrendos paredão e quiosques a juventude jura que vai celebrar a festa da abertura da janela para o além-mar.

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