quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Entrevista via MSN











P. Cristina S.


A atriz Fernanda Montenegro qualificou de “doentes mentais” àqueles que pedem o regime da exceção para o Brasil. Você a criticou e disse que quem pede intervenção militar não é louco. Por quê¿


R.Dario Franco


Não é louco, é antidemocrático. A minha crítica é no sentido de não se confundir conceitos: doença mental versus má fé; doença mental versus desonestidade intelectual; doença mental versus interesses inconfessáveis.


Essas coisas já têm nome e conceitos sedimentados.


 Acho muito temerário rotular de doente mental aquele que pensa politicamente diferente de mim. Pensar diferente não é doença, é só pensar diferente. E essa não aceitação do pensamento político do outro também já tem um nome, uma prática e um ideário: é o fascismo.


 E também é verdade que muitos qualificam os extremistas políticos de direita de loucos como uma condescendência ou como um álibi. Isso me parece inaceitável.


P.Cristina  S.


O País teve muitos avanços nos últimos anos. Você não acha que negar isso e utilizar de falsos argumentos para atacar o governo ou só o PT indica, no mínimo, desonestidade intelectual por parte de muitos, má fé por parte de outros e muitos interesses inconfessáveis por parte de todos¿


R. Dario Franco


O que a esquerda considera avanço (fim da fome, acesso ao mercado consumidor, à saúde, à escola, ao lazer ) é para a direita um retrocesso porque eles perdem posições para que os menos afortunados ganhem melhor qualidade de vida. Não que a classe média tenha tido perdas. Mas, foi irritante para ela, por exemplo, ver um aeroporto, último bastião dos cheirosos, ser invadido pela plebe ignara que também fazia check in e embarcava. Isso, repito, foi insuportável e acendeu o ódio naquela classe.


P.Cristina S.


Muitos de direita admitem que o Brasil avançou socialmente. Mas, insistem que o preço disso foi a roubalheira desenfreada.


R.Dario Franco


A direita, para desqualificar os governos petistas, erra na argumentação e fica fragilizada quando quer negar o inegável. Quando nega, por exemplo, que o Brasil saiu do Mapa da Fome da Unesco graças às políticas sociais dos governos petistas,  ou ainda quando quer comparar qualquer governo anterior com o do PT. Por isso, a mídia silencia os avanços e prega uma derrocada moral.


         A eleição do veio ético para destruir o PT foi feita por uma cúpula cujo círculo extrapola o dos integrantes da direita brasileira. Essa cúpula passa por Washington e Europa. E essa vertente moralista foi instalada quando do processo do mensalão que nunca existiu.


         À imprensa nacional coube o papel de inculcar isso na cabeça da opinião pública. Agora essa mídia ideológica está descoberta e denunciada. É inimiga do povo brasileiro.


 


P.Cristina S.


         Você está dizendo que o PT não pagou aos parlamentares para que aprovassem matérias do governo¿


         R. Dario Franco


         Sim. José Dirceu, José Genuíno, João Paulo e outros, por exemplo, foram condenados sem provas, isso é fato.


          E muitos da esquerda brasileira, militantes petistas aí inclusos, por incapacidade de crítica, vestiram a camisa do moralismo que a extrema direita oferecia e que tinha o fito de esbarrar o avanço da esquerda: destruir as lideranças petistas e o partido.
P.Cristina S.
Como você avalia a destruição do PT?

        Olha, depois de todo o espetáculo do mensalão e da pregação midiática o PT reelegeu o Presidente Lula, elegeu e reelegeu a Presidenta Dilma. Agora eles acham que é preciso impedir esse avanço a qualquer custo.  Pedido de impeachment é confissão de desespero. Há que se intensificar a vertente moralista para estancar Lula em 2018.


Sabia a direita que combater o programa de governo do PT era malhar em ferro frio. Quando muito se poderia desqualificar a filosofia que o sustenta com um discurso dos anos cinquenta, a meritocracia que, diga-se de passagem, era propagada também pela esquerda brasileira e europeia de antanho. Falava-se naqueles tempos em paternalismo e repetia-se o “não dê o peixe” igualzinho aos coxinhas de agora.


P.Cristina S.


Mas, esse argumento ainda é muito repetido nas discussões no meio do povo.


R.Dario Franco


Sim. O Brasil integra a civilização cristã do mundo europeu. Embora o “não furtar” seja do decálogo de Moisés, o cristianismo o absorveu do judaísmo e ele é proclamado nos templos desse Brasil a fora como um “pecado” que deve ser abominado por que compromete o prêmio final: o céu, o paraíso.


E por ser um argumento moralista, ainda persiste com certa robustez porque muitos não entendem que se está devolvendo aos pobres e aos negros o que foi roubado deles em séculos de espoliação, ou o que continua sendo roubado agora em impostos sonegados e não taxados.

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