quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Escrever o riso




                                                   

                                                                                             Dario Franco

            Sempre quis dizer, da maneira mais perfeita, quer dizer, da maneira mais próxima da realidade, que é isso que é a perfeição aqui neste caso, como era o riso-risada-gargalhada de Maria Alexandre, irmã de Zaíra e mãe de Ivanildo e de Nica. Consegui quando muito dizer que era alto; que partido da Rua da Cacimba onde ela morava, ouvia-se na rua de cima, distante uns duzentos metros. E pra dizer isso eu usava os braços para gesticular, elevava a voz, entonava num crescente, dava uma modulação amistosa e estampava um sorriso convincente no rosto para dizer que era uma festa, que era uma satisfação para todos ouvir aquele riso de Maria (ou era uma gargalhada?). Fazia o triste esquecer o luto, e à viúva lembrar-se que estava viva.  
Todavia, em que lugar ficava o som desapontador e entrecortado, com arrancos guturais que chegavam invariavelmente depois das gargalhas que se estendiam por intermináveis segundos, ao modo de que parece que nunca vai cessar?
 Sempre me esforcei para transmitir com total e completa similitude aos que nunca ouviram aquela gargalhada, como ela era formidável. Maria atirava os braços para o alto, e, enquanto ria, balbuciava palavras que o riso não nos permitia compreender completamente, e toda a sua face se iluminava de encantamento, como se fosse de uma gloriosa aceitação do mundo. E todos nós ríamos porque ela nos contagiava. Repeti isso infindáveis vezes, mas sempre com a sensação de que não abarcara a compreensão total do sorriso de Maria.
 Mas, não me engano. O que me perturbava mesmo era a impossibilidade de fotografar o riso de Maria com palavras faladas, ditas, pronunciadas. Sim, fotografar com falas, sem criar uma realidade idealizada, mas simplesmente sonorizar aquela verdade tal qual ela sempre se nos afigurou.
Pois bem! Um dia, não me envergonho de confessar, desisti de tentar dizer. Ou melhor, cansado de batalhar sem sucesso, a minha obstinação entrou no limbo das irrealizações. Quando acontecia falarmos em Maria Alexandre em roda de conhecidos, eu provocava: e o sorriso dela? E todos se alegravam, e também sorriam tão respeitosamente que o riso de Maria Alexandre sacralizava o ambiente. Dava direção à conversa. Apreensivo e esperançoso, eu esperava que um circunstante largasse um adjetivo, daqueles tão conformes que esgotasse a procura. Foi vã a minha espera. Uma vez disseram: magistral. E esse adjetivo o qualificou muito imprecisamente. Pelo menos foi isso que eu li no rosto dos circunstantes que naquela noite participavam do sarau sentados na areia branca da praia da Rua da Cacimba.
 Outras vezes quando se falava sobre ela em rodas que não a conheceram, já não se aludia mais ao riso transformador da minha amiga que morreu silente, com a garganta embargada, como se os anjos a tivessem calado para deixar agora a gargalhada trombetear só para eles.
Como uma obstinação que só sossega ou se esgota quando se cumpre, um dia ocorreu-me uma ideia desafiadora, mas que poderia me desincumbir, em termos, da antiga tarefa de dizer o riso. Pensei: já que não me foi possível até agora dizê-lo, ser-me-ia possível escrevê-lo?  Sim, escrever o riso, fotografar com letras os sons do riso de Maria Alexandre que é isso que faz o beletrista: constrói com letras uma realidade atingível ao mesmo tempo em que ela se garante bela e inatingível.
Antes de empreender a tarefa, foi a dificuldade que me acorreu. E já chegou com um aviso claro: um riso escrito será sempre fotografado ou construído no passado. A descrição só será cabal se ele já tiver se cumprido. O riso que se escreve antes dele ser dado é mera hipótese, é conjectura, é especulação, mas não o retrato de um sorriso.
 Então, se o descrevo antecipado viro um deus para adiantar o que virá como riso, embora eu me valha da experiência. Na literatura o riso não salta frouxo ou estridente nos nossos ouvidos. Ele entra pelos olhos, aloja-se no cérebro e nos faz soltar a imaginação para ouvir o riso do comerciante, da amada ou do debochador.  Vemos um ‘ar de riso’ e nunca a surpresa da gargalhada ou o incômodo riso do deboche. Nunca ouvimos, somente vemos.
Realidade estranha essa que só se efetiva no passado, ou primeiramente tem que ser vista quando o que se quer é ouvir, direis. Também estranho.
 Ocasionalmente uma sentença me assaltou como para barrar o empreendimento: escrever o riso não é rir. É registrá-lo depois de ouvido ou até mesmo depois de imaginado. Um riso se ri, não se diz ou se escreve.
Foi aí que eu me lembrei de que nas transcrições de notas taquigráficas, ou na decodificação de áudios, a forma que arranjaram para inserir o riso no contexto foi a mesma que para registrar os aplausos e apupos: (risos) (aplausos) (apupos) . Assim, entre parênteses, como a dizer que ele é indizível ou indescritível, ao menos como esgotamento cabal.
Ontem, para responder a uma provocação da Jordânia, escrevi mecanicamente: kkkkk. Surpreso, vi que acabara de escrever a gargalhada impessoal, e adicionei esse verbete no meu dicionário para evitar aquele traço vermelho e inconveniente no editor de texto. É bem verdade que a gargalhada fica sem o tom. Quando muito a identificamos ostensiva se grafada com maiúsculas (KKKKKKKK) ou tímida e controlada (kkkkkkk), se com minúsculas. A quantidade de kas, por certo, define a intensidade.
Um dia ainda vou tentar letrear um riso.
                                        
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