terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Narciso envelhecido.



                                                                   
                                                                         Dario Franco

          Ninguém quer envelhecer. Nem morrer. É uma tragédia o envelhecimento.
           Fiz projetos muito secretos para a minha velhice. Deixei-os inéditos. Ainda bem! Revelo agora que para a dor estampada na face dos velhos, por exemplo, eu muito jovem,  tinha projetado um sorriso constante, como o dos adolescentes que, mesmo tristes, são belos.
           Agora sei que aquela dor está em cada célula do corpo que decai. Não há lado de dentro nem de fora, nem o desabamento da vida permite a minha intervenção no sentido de sustentá-la.
            Do cérebro ainda me saem sorrisos, mas chegam transformados no semblante  impiedosamente desfigurado. Os rictos da minha face envelhecida moldam a tristeza excêntrica que eu não tenho nem a queria me identificando.
            Narciso não se apaixonaria se se visse assim naquela mesma fonte que Ovídio me descreveu “Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas jorrava.”

domingo, 6 de dezembro de 2015

O Profeta



                                                                                    Dario Franco



Há dias ele não se apresentava à multidão piedosa e agora inquieta que se acostumara a ouvir, sempre ao meio-dia, o relato edificante das suas conversas reservadas com Deus.
O silêncio do profeta agastava curiosos e devotos, e arrancava muxoxos dos ateus.
Mas, hoje a multidão testemunhou, entre curiosa e consternada, a visita à casa do visionário de um homem estrangeiro de andar flutuante, barbas e cabelos longos e alvas vestes talares encimadas por um manto azul celeste, ao modo dos orientais. Pasma, a multidão calou-se.
Pedro Adelino, assistente do vidente, contou-me reservadamente essa história: que o visitante surpreendeu o santo quando disse que a proibição de espalhar os colóquios estava suspensa e proclamou, alegre e cordialmente, a intrigante revelação: meu nome é Belzebu.
Hoje, depois de cinco dias retirado, o servo de Deus plantou-se lívido e buarquiano diante do povo crente, emprestou solenidade ao momento e à voz, e falou: Nuntio vobis, gaudium magnun: “Deus é um cara gozador,  adora brincadeira”.