domingo, 6 de dezembro de 2015

O Profeta



                                                                                    Dario Franco



Há dias ele não se apresentava à multidão piedosa e agora inquieta que se acostumara a ouvir, sempre ao meio-dia, o relato edificante das suas conversas reservadas com Deus.
O silêncio do profeta agastava curiosos e devotos, e arrancava muxoxos dos ateus.
Mas, hoje a multidão testemunhou, entre curiosa e consternada, a visita à casa do visionário de um homem estrangeiro de andar flutuante, barbas e cabelos longos e alvas vestes talares encimadas por um manto azul celeste, ao modo dos orientais. Pasma, a multidão calou-se.
Pedro Adelino, assistente do vidente, contou-me reservadamente essa história: que o visitante surpreendeu o santo quando disse que a proibição de espalhar os colóquios estava suspensa e proclamou, alegre e cordialmente, a intrigante revelação: meu nome é Belzebu.
Hoje, depois de cinco dias retirado, o servo de Deus plantou-se lívido e buarquiano diante do povo crente, emprestou solenidade ao momento e à voz, e falou: Nuntio vobis, gaudium magnun: “Deus é um cara gozador,  adora brincadeira”.
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