sábado, 23 de julho de 2016

As Bailarinas

                                           Dario Franco



           São muitas. Inúmeras. Incontáveis, sem faltar com a modéstia.
         Sem alarido, como duendes ou fadas aladas, elas vão chegando de todos os pontos e ocupam por fugazes instantes as plataformas e as paradas dos transportes coletivos da cidade. Depois somem como apareceram.
         Mas é fácil identifica-las porque trajam lingeries colados ao corpo, meias-calças, minissaias rodadas, sapatilhas e, por vezes, tênis.
E os cabelos, definidos em coque, encimados por fitas vistosas, estão controlados, pelos cremes abundantes, dos incômodos e inadmissíveis desalinhos que enfeiam e desclassificam a modelo esmeradamente preparada pela mãe ciosa.
         Dirigem-se essas bailarinas para as escolas particulares onde as professoras as aguardam.
         No início do ano, Dorotéia, diretora de uma escola, falou na abertura do ano letivo que: “Toda mãe de princesa carrega dentro de si uma bailarina”.
         A sentença lapidar “viralizou” nas redes sociais, com mais de 3.500 curtidas e o comentário cáustico e destacado de VôAdriana: “A minha morreu de desgosto”.
         O que ninguém percebeu ainda é que o País, urdindo essa silenciosa e memorável revolução, em breve, despontará no cenário internacional como o país do ballet clássico, em que cada família terá uma princesa disputando uma vaga de primeira bailarina do Bolshoi, do Kirov e do Teatro Municipal do Rio de Janeiro – claro que na hipótese longínqua de aposentadoria de Ana Botafogo – .
 Pobre Rússia! Já sente a grande pátria os sinais da sua derrocada cultural com a emigração em massa dos seus inconfundíveis talentos. Mudam-se para os trópicos. Há quem afirme que Faruk Ruzimatov está montando uma academia no Alecrim.  
         Na contramão dessa onda monumental e alvissareira estão os irmãos das princesas que só ajuízam futebol. Gilberto até pensou em ser bailarino, repetiu mesmo com muita leveza e inconfundível segurança, os passos que aprendera da irmã. Mas Daniel, o pai zeloso, surpreendido com a exibição técnica do rebento, advertiu ou informou laconicamente, mas de modo irrefutável para não deixar dúvida no pequeno Gilberto que “homens jogam futebol”. E fim.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Baía Formosa – Notas Históricas.

 

 Por oportuno, republico o artigo abaixo que eu escrevi e postei neste blog em

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Baía Formosa – Notas Históricas.




                                                                                                                  Dario Franco



          O primeiro registro da existência de Aratypicaba, atual Baía Formosa, data de 1587, e foi feito pelo historiador português Gabriel Soares de Souza, na página 26 do Capítulo X da Primeira Parte do seu Tratado Descritivo do Brasil (1587).  Escreve, pois,  o historiador: “De Itacoatigara ao Rio de Goaramatai são duas léguas, o qual está em seis graus esforçados; de Goaramatai ao Rio de Caramative são duas léguas, o qual está em seis graus e 1/4, e entre um e outro rio está a enseada Aratipicaba, onde dos arrecifes para dentro entram naus francesas e fazem sua carga”.
             Ou seja, os brasis da nação tupi já tinham criado as referências geográficas nesta região litorânea quando os colonizadores portugueses aqui chegaram. 
          Aqui viviam os brasis potiguares. Para aqui vinham navegadores franceses, depois Portugal empreendeu a colonização. Franceses e portugueses queriam o pau-brasil para comercializar na Europa.
          A troca do nome de Aratypicaba para Bahia Formosa aparece pela primeira vez  em 1612, no mapa do cosmógrafo português João Teixeira Albernás.
         A troca dos nomes tupis pelos portugueses diz respeito ao domínio das terras conquistadas no período da colonização e das grandes navegações. Nada tendo a ver com poesia ou enlevo poético. Marcar com nomes portugueses as cartas geográficas era indicar aos holandeses e franceses, sobretudo, que aquelas terras pertenciam a Portugal.
          Portanto, Baía Formosa já estava instalada e era um centro comercial próspero dentro das terras da sesmaria de 5.000 braças em quadra, no vale do rio Cunhaú, doada em 1604 pelo Capitão-Mor da Capitania do Rio Grande, Jerônimo de Albuquerque, aos seus filhos Matias e Antônio de Albuquerque, e confirmada em 1628 pela Coroa Portuguesa.
          A primeira notícia que se tem sobre a contestação destas terras data de 1848. Pelo Aviso n° 13 de 21 de Janeiro de 1848 o Poder Judiciário da Província do Rio Grande nega a sua herança a André de Albuquerque Maranhão Arco-Verde. Posteriormente, seu sucessor João Albuquerque Maranhão Cunhaú, também reclamará essa mesma herança e a terá negada finalmente.  
          No dia 10 de agosto de 1877 esse reclamante, pela segunda vez - a primeira, oito dias antes, foi no dia 2 de agosto - , invadiu Baía Formosa para matar os moradores que se recusavam a abandonar o povoado. Sob a liderança de Francisco Magalhães os habitantes resistiram ao ataque e impuseram uma derrota humilhante aos invasores. Esse evento insensato ficou conhecido como a Matança de Agosto. Agora, mais propriamente, já se fala na Resistência de 10 de Agosto de 1877.
          O município foi criado em 1958, mas a sua área territorial que ocupa somente 250,1Km², só foi desapropriada da Fazenda Estrela em 1980 pelo governador Lavoisier Maia, quando era prefeito Samuel Monteiro da Cruz.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Aos professores de história de Baía Formosa-RN




                                    Dario Franco
O texto abaixo, sobre a história de Baía Formosa-RN –, está publicado na Wikipédia, no capítulo “História” – .
A história de Baía Formosa começou com a construção de um porto de embarcações. Esse porto originou um núcleo de pescadores e estava localizada na única baía do Rio Grande do Norte. No século XVIII, o tal lugar serviu como sendo uma área de veraneio para a família Albuquerque Maranhão e fazendeiros de lugares próximos. Em 1877, ocorreu a chamada "matança de agosto", que se constituiu em um episódio onde dono de uma área teria ido a um vilarejo, junto com um grupo armado, com a finalidade de tentar expulsar os moradores daquele lugar. Nesse contexto, surgiu a figura de Francisco Magalhães, que, juntamente com outros quatorze homens armados, conseguiram resistir aos agressores. O episódio foi comandado por João Albuquerque Maranhão, latifundiário e dono do Engenho Estrela, e se resumiu em uma horrível luta que resultou na morte seis pessoas e na prisão e julgamento do comandante da chacina.[2]
No final do século XIX, foi construída uma capela no local, tendo como padroeira a Imaculada Conceição.[2]Além disso, também foram criados e anexados ao município de Canguaretama os distritos de Baía Formosa eVila Flor.[7] O povoado do distrito começou a crescer, tendo como base econômica a lavoura e a pesca.[2] Em 1933, o distrito de Baía Formosa, que havia sido criado em 1892 e pertencia ao município de Canguaretama, foi extinto, juntamente com o distrito de Vila Flor, sendo que depois ambos os distritos foram recriados, mas em datas diferentes (o distrito de Vila Flor, que depois teve seu nome alterado para "Flor" e depois o nome voltou a se chamar "Vila Flor", foi recriado em 1938, enquanto o distrito de Baía Formosa foi recriado somente quinze anos depois). Finalmente, em 1958, o distrito de Baía Formosa foi desmembrado do município deCanguaretama, tornando-se novo município do estado do Rio Grande do Norte, por força da lei estadual n° 2338. O nome do município faz a referência à sua localização estratégica, no extremo leste potiguar e em uma bela enseada que forma a única baía do estado. [2]                           
       Além do português descuidado, e de linguagem deselegante o texto não merece fé.  
       Essa enciclopédia é livre e feita pela contribuição dos saberes disseminado na sociedade.
       Por certo que a Wikpédia espera honestidade intelectual de quem contribui, e não revisa texto.
      Não sei quem fez aquele escrito, mas a base da pesquisa é incipiente, restrita e equivocada, mesmo quando utiliza a única bibliografia não referenciada entre as 66 citações: o texto de Câmara Cascudo no verbete Baía Formosa, em Nomes da Terra, que ele publicou em 1968 –.
      Por isso, o documento não merece fé. Deve ser desprezado porque não é verdadeiro, e porque orienta enganosamente os estudantes.
       É falso afirmar que “A história de Baía Formosa começou com a construção de um porto de embarcações.” Esse enunciado deixa para trás três séculos de história conhecida – séc. XVI, XVII e XVIII – todo o período francês da exploração do pau-brasil, e de quebra, noticia a construção de um porto que nunca existiu. Ancoradouro não é porto.
Quando os franceses, e não os portugueses, chegaram aqui no século XV  Aratypicaba já existia e era habitada pelos índios “brasis” potiguaras.  Em 1587 ela já aparece no Tratado Descritivo do Brasil escrito pelo português colonizador Gabriel Soares de Souza.
É preciso se ter sempre em mente que o Brasil não começou com a invasão – descoberta –  portuguesa em 1500.

domingo, 17 de julho de 2016

Aos professores de história de Baía Formosa-RN




                                    Dario Franco
O texto abaixo, sobre a história de Baía Formosa-RN –, está publicado na Wikipédia, no capítulo “História” – .
A história de Baía Formosa começou com a construção de um porto de embarcações. Esse porto originou um núcleo de pescadores e estava localizada na única baía do Rio Grande do Norte. No século XVIII, o tal lugar serviu como sendo uma área de veraneio para a família Albuquerque Maranhão e fazendeiros de lugares próximos. Em 1877, ocorreu a chamada "matança de agosto", que se constituiu em um episódio onde dono de uma área teria ido a um vilarejo, junto com um grupo armado, com a finalidade de tentar expulsar os moradores daquele lugar. Nesse contexto, surgiu a figura de Francisco Magalhães, que, juntamente com outros quatorze homens armados, conseguiram resistir aos agressores. O episódio foi comandado por João Albuquerque Maranhão, latifundiário e dono do Engenho Estrela, e se resumiu em uma horrível luta que resultou na morte seis pessoas e na prisão e julgamento do comandante da chacina.[2]
No final do século XIX, foi construída uma capela no local, tendo como padroeira a Imaculada Conceição.[2]Além disso, também foram criados e anexados ao município de Canguaretama os distritos de Baía Formosa eVila Flor.[7] O povoado do distrito começou a crescer, tendo como base econômica a lavoura e a pesca.[2] Em 1933, o distrito de Baía Formosa, que havia sido criado em 1892 e pertencia ao município de Canguaretama, foi extinto, juntamente com o distrito de Vila Flor, sendo que depois ambos os distritos foram recriados, mas em datas diferentes (o distrito de Vila Flor, que depois teve seu nome alterado para "Flor" e depois o nome voltou a se chamar "Vila Flor", foi recriado em 1938, enquanto o distrito de Baía Formosa foi recriado somente quinze anos depois). Finalmente, em 1958, o distrito de Baía Formosa foi desmembrado do município deCanguaretama, tornando-se novo município do estado do Rio Grande do Norte, por força da lei estadual n° 2338. O nome do município faz a referência à sua localização estratégica, no extremo leste potiguar e em uma bela enseada que forma a única baía do estado. [2]                           
       Além do português descuidado, e de linguagem deselegante o texto não merece fé.  
       Essa enciclopédia é livre e feita pela contribuição dos saberes disseminado na sociedade.
       Por certo que a Wikpédia espera honestidade intelectual de quem contribui, e não revisa texto.
      Não sei quem fez aquele escrito, mas a base da pesquisa é incipiente, restrita e equivocada, mesmo quando utiliza a única bibliografia não referenciada entre as 66 citações: o texto de Câmara Cascudo no verbete Baía Formosa, em Nomes da Terra, que ele publicou em 1968 –.
      Por isso, o documento não merece fé. Deve ser desprezado porque não é verdadeiro, e porque orienta enganosamente os estudantes.
       É falso afirmar que “A história de Baía Formosa começou com a construção de um porto de embarcações.” Esse enunciado deixa para trás três séculos de história conhecida – séc. XVI, XVII e XVIII – todo o período francês da exploração do pau-brasil, e de quebra, noticia a construção de um porto que nunca existiu. Ancoradouro não é porto.
Quando os franceses, e não os portugueses, chegaram aqui no século XV  Aratypicaba já existia e era habitada pelos índios “brasis” potiguaras.  Em 1587 ela já aparece no Tratado Descritivo do Brasil escrito pelo português colonizador Gabriel Soares de Souza.
É preciso se ter sempre em mente que o Brasil não começou com a invasão – descoberta –  portuguesa em 1500.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

O Paciente





                                                  Dario Franco


                Proclamada a República no Brasil, o súdito do Imperador Pedro II virou cidadão.
 Virou é força de expressão porque a troca de nome seguia apenas o modismo da república francesa – Aux armes citoyens – que inspirava as frontes iluminadas destas plagas de cá. O cidadão daqui continuou súdito porque o que ele queria mesmo era continuar sendo objeto da ação do Estado. E até agora detesta política.
         Porque nasceu de um golpe contra a monarquia a república d’além-mar não precisou decapitar nenhuma Antonieta, nem guilhotinar nenhum rei, e muito menos precisou do povo –  os bestializados no dizer de Aristides Lobo –  para defendê-la ou até mesmo para querê-la. É. Para querê-la!
 A Casa Grande, então, a tomou nas mãos para tutelar e proteger a cria que acabara de engendrar. E fez da res publica a res privata.
         No caldo de cultura escravocrata que adubou a recém nascida, a medicina ficou profissão reservada para os brancos senhores da elite, e assim tem se mantido, salvo muito raras intermitências, nesses 127 anos.
Como fim têm os médicos o enriquecimento que é a regra para a dominação.
         O jaleco branco substituiu o saber e criou a aura de doutor. Doutor aqui é senhor, é patrão, é dono, é chefe. Não o que é douto. Os auxiliares do doutor, ao modo dos feitores, sequestraram o jaleco branco e assumiram ares de senhores também, que é a reprodução que convém. E para se  contrapor ao doutor execrou-se o cidadão e proclamou-se o paciente. Paciente é mais ajustado para perpetuar a relação senhor/escravo. Os médicos de Cuba que chegaram aqui outro dia foram censurados, e sofreram resistência por parecerem filhos de empregadas da elite. Faltava-lhes atitude de senhor.
                  - Doutor, o senhor vai ver o paciente do leito sete? O impertinente insiste que é cidadão, que é contribuinte e não paciente.  
Sem dignar-se olhar o auxiliar, o doutor continua digitando no celular e o auxiliar, de jaleco branco, se dá por satisfeito. Vai digitar também porque veste branco. É senhor e não paciente, está claro.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Na Unidade Básica de Saúde – UBS – do SUS




                                          Dario Franco

Encontrei-me com a senhora diretora, na sua sala de trabalho, recebendo a um contribuinte que reclamava de falta de atendimento no balcão de recepção da Unidade Básica de Saúde – UBS – do  SUS que ela dirige.
Queria o contribuinte/reclamante apenas marcar uma consulta médica.
Do lado de fora da sala da senhora diretora, enquanto eu esperava o atendimento, um “porteiro/segurança” montava guarda ao pé da porta da sala da servidora graduada, e estava tenso. Informou-me que o cidadão a quem a senhora diretora da UBS do SUS atendia estava “alterado” desde manhã. Agora, já eram 13h10.
Depois de pequena espera, autorizaram-me  entrar na sala com o cidadão/contribuinte/reclamante ainda presente.
O pobre homem, de pé, parecia mais humilhado do que indignado,  e calmo.
Uma servidora da recepção, que por certo abandonara a extensa fila em busca de atendimento, tinha sido admitida na sala da senhora diretora e estava a marcar a consulta médica que não foi possível agendar no balcão comum da recepção. Um privilégio?
Pedi, e fui atendido cordialmente, que a Agente Comunitária de Saúde, a que me assiste em casa, participasse da audiência.
A senhora diretora, por seu turno, parecia satisfeita de ter podido atender ao reclamante que se retirara. Jactava-se mesmo: eu procuro atender a todos, dizia enfática e orgulhosa.
E eu, que não tive a consulta marcada por excesso de procura do serviço de saúde, estava ali pra quê? Pra pedir o privilégio de um atendimento não isonômico?
Não. Eu fui ali pra dizer à senhora diretora que a origem da insatisfação ostensiva dos contribuintes e os conflitos internos da sua administração estavam calcados em cima de dois problemas:  
1)              num desvio administrativo implantado no seio da sua equipe, que como um cancro destrói o tecido funcional : o tráfico de influência;
2)              e num enfoque na autossatisfação administrativa: a administração como um fim em si mesma.
1)   Tráfico de influência
O primeiro problema, e esse me pareceu a matriz de todos os outros, porque saltava aos olhos até de um observador distraído como eu, é o modo de atendimento ao cidadão/contribuinte, sujeito dos serviços de saúde oferecidos pelo Estado Brasileiro.
Quem chegou primeiro?
Ora, a ordem de chegada pode ser tomada como um princípio isonômico: todos são iguais perante a lei.
Mas, em que pese toda tentativa de guardar as aparências, é esse princípio que não está sendo respeitado ali naquela UBS do SUS. E esse desrespeito é sub-reptício, é feito às escondidas, “na moita” e até com recebimento de vantagens pecuniárias pessoais. Propina, para ser claro.
Foi a senhora diretora da UBS quem me contou essa história: que há alguns meses descobriu-se que uma vendedora de café que montou um quiosque em frente à UBS do SUS, vendia um lugar na fila de atendimento odontológico por R$ 50,00.
Mas, a senhora diretora não me contou a ponte, ou seja, o intermediário entre a vendedora de café que não é servidora pública e o balcão de atendimento em que têm assento os servidores públicos municipais. Claro está que sem essa conexão “o negócio” não se realizava.
Também não me falou a senhora diretora de sindicância nem de inquérito administrativo para apurar a iniquidade funcional como manda o Estatuto do Servidor Público. O “nó na garganta” da indignação não frutifica. Não basta.
Eu mesmo vi, em outras idas `à UBS, em busca de serviço, que funcionários da Unidade traficavam vagas. A fila formada pelos cidadãos/contribuintes em ordem de chegada não era observada pelos barnabés marcadores de consultas. Um “porteiro/segurança”, plantado ao lado da atendente, cochichava-lhe a “sua ordem de chegada”, sob os protestos dos contribuintes postados na fila tumultuada, e a só palavra autoritária do servidor dava ponto final à querela.
Restavam agora aos cidadãos/contribuintes só a insatisfação e a sensação de terem sido ludibriados. Não tinham a quem reclamar. A diretora em reunião não podia atender agora.
O poder da diretoria estava retalhado, fatiado em pequenos sub poderes, micro poderes ao modo foucaultiano que se distribuíam entre os servidores e que fugiam ao seu controle.
Sugeri à diretora o primado da transparência.
Uma senha distribuída por ordem de chegada consagraria esse primado.  Mas, quem distribuiria essa senha, se não há possibilidade imediata de uma distribuição eletrônica?
A entrega manual sempre poderá ser sequestrada mais facilmente por algum servidor inescrupuloso.
Ela ficou de estudar isso.
Cartazes sobre essa norma afixados na recepção poderiam também contribuir para a transparência.
Eu ouvi servidores informando que um médico só atende 13 pessoas por dia. A ilustre diretora me disse que não sabe de onde “tiraram” essa informação.
Deu-me a entender que os médicos reclamam do número de consultas que julgavam excessivo,  e resolviam isso diretamente com as recepcionistas, que repassavam as exigências dos servidores médicos aos cidadãos/contribuintes, sem o aval ou sequer o conhecimento da senhora diretora.
Outra coisa: naquela ocasião, as recepcionistas informavam aos contribuintes que uma determinação recente mandava considerar a ordem de chegada somente a partir das 13h00 para o atendimento que se iniciaria às 13h30. E os que chegavam ali às 7h00 da manhã ainda não estariam ali às 13h00?
Não entendi.
Mesmo sobre isso não havia nenhum aviso para o público presente.
Além da consulta do reclamante que eu aludi acima, a minha, já negada por falta de vaga, foi marcada na sala da diretora. Eu não pedi o privilégio. A concessão dele na sala da diretora apontou  de maneira inequívoca para o “tráfico de influência” que apodrece o serviço público prestado pelo Posto de Saúde do SUS.
A transparência bem que poderia ajudar a curar esse mal.
2)   Autossatisfação Administrativa
O segundo problema estava no equívoco do enfoque de objetivo da administração: ele estava voltado para a autossatisfação e não para a satisfação da clientela, do cidadão/contribuinte para quem os serviços são prestados. E isso, por si só, desviava o verdadeiro sentido da prestação do serviço público municipal, não sem graves consequências.
O termômetro de uma administração é o contentamento da clientela. Se os clientes, os cidadãos/contribuintes estão permanentemente insatisfeitos, como regra comum, isso indica que a administração está inadequada.
Sugeri que ela elegesse a satisfação do usuário da UBS do SUS como foco administrativo a ser perseguido, e implantasse um serviço de avaliação da satisfação dos cidadãos/contribuintes. Prontifiquei-me a auxiliá-la voluntariamente, se convocado.
As filas nas Unidades de Saúde do SUS têm longa história. Uma história alimentada pela corrupção endêmica que é creditada exclusivamente aos políticos.
A corrupção dos políticos brasileiros tem raiz no seu município.