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sexta-feira, 15 de julho de 2016

O Paciente





                                                  Dario Franco


                Proclamada a República no Brasil, o súdito do Imperador Pedro II virou cidadão.
 Virou é força de expressão porque a troca de nome seguia apenas o modismo da república francesa – Aux armes citoyens – que inspirava as frontes iluminadas destas plagas de cá. O cidadão daqui continuou súdito porque o que ele queria mesmo era continuar sendo objeto da ação do Estado. E até agora detesta política.
         Porque nasceu de um golpe contra a monarquia a república d’além-mar não precisou decapitar nenhuma Antonieta, nem guilhotinar nenhum rei, e muito menos precisou do povo –  os bestializados no dizer de Aristides Lobo –  para defendê-la ou até mesmo para querê-la. É. Para querê-la!
 A Casa Grande, então, a tomou nas mãos para tutelar e proteger a cria que acabara de engendrar. E fez da res publica a res privata.
         No caldo de cultura escravocrata que adubou a recém nascida, a medicina ficou profissão reservada para os brancos senhores da elite, e assim tem se mantido, salvo muito raras intermitências, nesses 127 anos.
Como fim têm os médicos o enriquecimento que é a regra para a dominação.
         O jaleco branco substituiu o saber e criou a aura de doutor. Doutor aqui é senhor, é patrão, é dono, é chefe. Não o que é douto. Os auxiliares do doutor, ao modo dos feitores, sequestraram o jaleco branco e assumiram ares de senhores também, que é a reprodução que convém. E para se  contrapor ao doutor execrou-se o cidadão e proclamou-se o paciente. Paciente é mais ajustado para perpetuar a relação senhor/escravo. Os médicos de Cuba que chegaram aqui outro dia foram censurados, e sofreram resistência por parecerem filhos de empregadas da elite. Faltava-lhes atitude de senhor.
                  - Doutor, o senhor vai ver o paciente do leito sete? O impertinente insiste que é cidadão, que é contribuinte e não paciente.  
Sem dignar-se olhar o auxiliar, o doutor continua digitando no celular e o auxiliar, de jaleco branco, se dá por satisfeito. Vai digitar também porque veste branco. É senhor e não paciente, está claro.


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