segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O Éter*





                                                                                                     Dario Franco



               
                Preciso inicialmente apresentar-me porque não quero que este meu relato, se encontrado em algum ponto desse vasto litoral brasileiro, fique anônimo.
Meu nome é Aristóteles Mouskouri, grego de nascimento e naturalizado brasileiro. Guardo as duas cidadanias por força de lei, mas me apraz dizer-me apenas brasileiro. Ganhei a vida como encadernador, e o meu renome valeu-me contratos de assistência permanente à Biblioteca Nacional e à Biblioteca do Gabinete Português de Leitura. Graças a isso, a minha velhice está bem assistida.
        A bordo deste navio Queem Elizabeth, em cruzeiro pela costa do Brasil, decidi escrever um fato que eu vivi faz muitos anos. Vou atirar o escrito ao mar, nesta garrafa de Mouton Rothschild esvaziada ontem à noite no jantar de bordo. 
O Comandante do Queem Elizabeth sugere que essa corrente do Golfo do México em que navegamos agora poderá levá-la para a costa do Nordeste brasileiro. Se encontrada, não vos peço que publiquem o escrito, mas que recontem para os vossos amigos próximos, para que eles assentem suas convicções no lado misterioso da vida.
                Como sabeis, há vivências que não se encerram no seu ato. E isso não é um dito para iniciar a narrativa daquela história que eu mesmo vivi, e que vos conto aqui fugindo ao meu tradicional e emblemático laconismo, como costuma dizer a Lúcia.
                João Lira quando a ouviu não ficou tomado de espanto porque, disse, já vivera coisa semelhante, e a ciência humana, como ele frisou, explica cabalmente o fenômeno, e não deixa o episódio inserir-se no rol dos mistérios insondáveis. Isso foi o que ele me disse, ainda que sem muita convicção.
        A lenda de que João Lira tem setecentos anos e que só sai de casa depois que o Sol se põe é chacota de aldeia que vive mergulhada em crendices infundadas. Mesmo que, por hábito, não saia de casa durante o dia. Quando o conheci, a cerca de vinte anos, ele já tinha o hábito de contar histórias muito antigas, e tinha também esse aspecto de ancião marcado, sobretudo, pela textura seca e quebradiça da sua pele opaca, esquálida como a cor da tez dos mortos e fina como crepe. Sua voz também não mudou nesse interregno: permanece firme e como que saída das cavernas mais profundas das suas cordas vocais. Podem estar aí as razões da impertinência popular de taxá-lo de vampiro e papa-figo, ou de manter a estreita relação com o vampirismo.
        Claro que aquele aval do meu dileto amigo encorajou-me para que hoje eu fizesse este registro, e também me tranquilizou do medo e da incômoda ridicularia que nos tira a honradez.
        Lúcia, minha dileta e compreensiva esposa, Gerusa e Carmem, amigas de muitos momentos, me desencorajaram a escrever esse fato que elas o chamam de “muito esquisito”, não porque duvidem de mim. Lúcia, devo acentuar, nunca me surpreendeu em mentiras e xistos nestes quarenta e oito anos de casados.
 Considero-me, modéstia à parte, um sexagenário íntegro, de moral ilibada e respeitado por todos que me conhecem. Cultivo o hábito da leitura e sou particularmente interessado nos assuntos que envolvem o sobrenatural. Mas, não me envolvo com crendices e simpatias vulgares e incultas.
        Pois bem, vou retomar o fio condutor do meu propósito de contar a minha pequena e singular história.
No final do ano de 1912, fui ao velório da esposa de um cliente meu. Cumprimentei o senhor Boanerges Lopes e o seu filho menor de idade, agora órfão, aproximei-me do ataúde para as preces de praxe e recolhi-me ao silêncio que a ocasião pedia.
Não é de bom tom fotografar ou descrever o aspecto dos mortos. Parecem atitudes impróprias porque desrespeitadoras para com o morto. Sabeis que eles estão invariavelmente de olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito, numa beatitude submissa que parece contradizer o jeito soberbo como viveu. Surpreendi-me, confesso minha indignidade, imaginando o altivo e soberbo Boanerges naquela pose imposta pela tradição e pela religião. Ouso mesmo dizer que a pose da morte contradiz a vida.
 Fotografar os mortos, mesmo com palavras, causa mal-estar e faz a narrativa supérflua e repulsiva. Contudo, pedindo vênia, preciso dizer que o vigor das faces, da pranteada d. Hermengarda, era uma nota dissonante na história da morte. Parecia apenas dormir um sono muito profundo.
Lembro-me que naquela ocasião Lúcia me sugeriu a maquiagem para justificar o aspecto saudável e explicar a minha estupefação.
Pois bem, naquela pequena capela gótica da esquecida Vila Anatólia, onde se cumpria o velório de dona Hermengarda Lopes, finada misteriosa e precocemente aos trinta e dois anos de vida, eu não estava sozinho.
 É certo que naquelas horas, e já passava da meia-noite, muitos já se tinham recolhido para retornar de manhã, quando se faria o planejado sepultamento mas, seguramente nós éramos mais de trinta pessoas naquela ocasião. Para ser preciso éramos trinta e duas contando com o vigoroso viúvo e um filho único de quatorze anos da defunta.
Os únicos estranhos ao lugarejo eram  quatro homens aparentando entre cinquenta e sessenta anos, trajando paletó preto desusado ali em Anatólia, que seguravam com as duas mãos um chapéu igualmente preto, como para uma coreografia de um espetáculo. Era figuras estranhas e, tenho certeza, não eram  moradores do vilarejo. Entraram na capela já ao entardecer, vindos da cripta do templo,   não cumprimentaram  nem foram cumprimentados por ninguém, e não se permitiram sentar-se nem caminhar como todos os presentes o faziam. Em nenhum momento serviram-se ou aceitaram a água ou o café que lhes ofereciam.
Devo lembrar por inusitado, que os quatro cavalheiros  surgiram da Sacristia que tem a entrada por trás do altar mor, lá no fundo do templo, como se estivessem, aqueles homens enigmáticos, estado lá para uma tarefa preparatória do funeral, porque foram eles que mais tarde transportaram o esquife, em meio ao tumulto do assombro. Eles não entraram pela porta da nave central da Capela.
A sacristia dessa capela, zelada por dona Salomé, uma solteirona que mora perto da Força e Luz, a sacristia, repito, é uma sala grande e está decorada com móveis de madeira escura, em estilo igualmente gótico, como a arquitetura do pequeno templo. Pelo menos era assim em 1890 quando a visitei pela última vez.
Repousam, essas obras-primas da carpintaria, sobre tapetes marcados pela eternidade. A cômoda de mogno, onde arrumam os paramentos para as funções, cheira a almíscar. 
Ao fundo, uma escada em caracol dá acesso à cripta subterrânea, onde também estão sepultados os Boanerges e onde dona Hermengarda descansará 'in sempiternum'.
Pessoas como aqueles estranhos chamam mais a atenção pelo que não fazem. Não sei se foi impressão minha, mas seus olhos me pareceram muito afundados nas órbitas. Nada de anormal, mas impressionou-me talvez pela quietude. Tinham o olhar sempre voltado para o chão de mosaicos em estilo rococó da capela gótica, como se os contemplassem. Acho que era isso mesmo que eles faziam.
  Hoje aqueles circunstantes presentes ao velório de D. Hermengarda Lopes, em Anatólia, se negam, se escondem e se furtam a ao menos confirmar com um leve aceno de cabeça ou rito facial, a verdade do que vos conto agora. Por certo, um gesto, não indispensável, quero crer, que avalizaria essa minha história.
 Temem represálias de forças sobrenaturais. Fogem de uma maldição ou de um castigo perpétuo.
Bem! Por volta das duas horas da manhã um frio incômodo obrigou a todos os presentes buscarem abrigo nos cantos menos açoitados por aquelas rajadas, que pareciam chegar em ondas crescentes. O esquife estava no centro do salão, e a debandada dos pranteadores, para os cantos mais protegidos, destacou o caixão que ficou isolado na cena funerária, parecendo abandonado, como um prenúncio do destino solitário dos mortos.  
Para me proteger, cruzei os braços e coloquei as mãos dentro das mangas do casaco e, sentado num mocho que servia à liturgia paroquial, tentei analisar a dor daquela criança que, imperturbável, somente agora arredara o pé do lado do ataúde de madeira brilhante onde estava a mãe. A morte de pessoas jovens impressiona muito, e os jovens são também mais susceptíveis ao estarrecimento e à emoção diante dela.  
O que é a não-consciência de quem já foi consciente?
O inconsciente não pode estar contido no consciente? Isso é absurdo? Ou a não-consciência só existe na consciência dos vivos? Os mortos são privados dela para não sentir saudade, ou para não se desesperar diante do absurdo do nada?
Bom! O incenso providenciado para ambientar o funeral parecia menos forte, mas mais disperso no ambiente por causa daquela aragem ininterrupta e quase indesejada.
Aqui começa a minha estupefação. Primeiramente tive a impressão de que sentia, junto com o cheiro do incenso, um leve odor de éter. Fiquei meio alarmado e saí da impressão para a convicção quando perguntei a uma senhora, Dona Rosineide Autran que, sentada perto de mim, dedilhava um terço de contas escuras: isso é... é cheiro de éter, senhora? Perguntei timidamente.
- É cheiro de éter e absinto! Respondeu-me firme, despreocupada e secamente, sem esconder o mau humor de ter sido incomodada.
A velha senhora, com um grande xale de seda chinesa a lhe cobrir os ombros, parece que tinha intimidade com aquele perfume, tão estranho naquele lugar, como a figura do astronauta que completava o presépio na entrada da ermida.
O cheiro do éter foi ficando mais forte e isso me perturbou porque me trouxe a lembrança das síncopes que me ocorreram em ambientes hospitalares, exatamente por causa desse cheiro. A última, no Hospital Português, me valeu um baque assustador, mas sem consequência, afora a dispensa da função de acompanhante da minha amiga Isis que, mergulhada no torpor da anestesia, não se deu conta do embaraço.
Eu continuava sentado no mocho coberto de amarelo vaticano quando uma rajada de vento sacudiu as cortinas do pequeno templo, agitou cabelos e roupas dos presentes, apagou as velas que ornavam o cenário com o esquife e arrancou dos poucos circunstantes o susto e o assombro ante o inusitado.
Subitamente a morta sentou-se no esquipe. E sentou-se como se estivesse viva.
Vi D. Hermengarda, com olhar de reprovação e de indignação, a encarar os presentes, sentada no seu caixão revestido de cetim lilás. 
Não sei o que dizia em meio ao alarido que se formou, mas o meu assombro se assentava também no fato de que não nos foi dado sentar-se dentro do caixão das nossas próprias exéquias.
Os quatro cavalheiros de preto, num movimento rápido e sincronizado, cobriram-se com o chapéu, e celeremente se encaminharam para o centro da assombração. Levantaram um pano de cetim roxo que estivera colocado imperceptivelmente debaixo do ataúde, e cobriram a cena enquanto um silêncio assustador instalou-se no templo. Quando baixaram o pano, o ataúde estava fechado.
Sem olhar os circunstantes, pegaram o caixão e entraram pela porta que dá acesso à cripta.
Peço-vos licença para encerrar aqui a narrativa. Preciso tomar um ar fresco no convés. O tempo que fiquei aqui no camarote, mesmo com a vigia aberta, me fez nascer o desejo de ver horizontes mais largos e mais fascinantes.
 Vou ver o mar. 
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      *Nota do Editor – O texto publicado acima eu o recebi das mãos dos senhores Arnaldo Dornelas e Hélio Souza, amigos de Joel, que, segundo me informaram, tinham recolhido na Praia das Barreirinhas aqui em Baía Formosa RN, quando passeavam com um grupo de turistas argentinos. A garrafa de vidro verde e já sem transparência, com o manuscrito original dentro, está agora guardada na casa de D. Rosinha de Miguel, lá no Sagi.

                                   

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