quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Sotaque nordestino





                                   Dario Franco


          Sou nordestino. Nasci em Natal – RN. Mesmo pertencendo a agremiações partidárias diversas, e não é disso que se trata aqui, meu sotaque é como o da professora da UFRN e senadora Fátima Bezerra.
         É um sotaque que faz o pessoal do sudeste e do sul rir da fala nordestina. É a forma que encontraram para destilar o preconceito e desqualificar o nordestino.
     Há nordestinos sem identidade que reproduzem o preconceito e se esforçam para copiar o sotaque do sudeste, sobretudo o da baixada fluminense. Uma macaqueação grotesca, por sinal.
          Falo e escrevo bíblia, mas eles escutam bríbia; falo explica, mas eles entendem exprica. Insisto que é golpe e eles não discutem o golpe, mas mangam de mim dizendo que eu falo gopi.
          Mas, gente, do mesmo modo da professora Fátima Bezerra, eu sei a diferença entre um advérbio e uma conjunção; sei quando meio é numeral e quando é substantivo; sei que crase não é acento; distingo um verbo no infinito e na terceira pessoa do presente do modo indicativo; sei como empregar os advérbios onde e aonde; sei usar vírgula no vocativo; uso fluentemente o modo subjuntivo dos verbos; sei o que é sujeito; e construo orações com outras subordinadas e coordenadas sem me perder na concordância. Não falo: pra mim comprar, vou pegar ela, meia triste nem hoje é quinze.
          Não pedirei desculpas pelo meu sotaque, nem me exasperarei com a ignorância que gera aquele preconceito.
          Posso lamentar sem machucar ninguém. 
          E lamento.
       Dos que equivocadamente se pensam elite, causa-me estranheza a falta de conhecimento da realidade política nacional e a ausência de argumentos sérios e sólidos para discordar do discurso sistematizado num todo congruente da senadora Fátima Bezerra.
         Acho que é por isso que se refugiam na inteireza da língua portuguesa para gerar a impressão que a conhecem.      
          É como se falar a língua culta fosse mais importante do que saber ler a realidade sociopolítica  em que se está mergulhado.

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