sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A culpa é do teclado.



           
          
                              Dario Franco

Maristela pediu ao maestro que entoasse de novo “pra mim pegar” e eu, impulsivamente retruquei: “pra eu pegar”.
Estávamos ensaiando Va Pensiero da ópera Nabuco no Madrigal da nossa escola.
Tínhamos em torno de dezesseis anos, se tanto. Eu sabia que Maristela conhecia aquela regra do português culto, tanto quanto eu.
Furiosa, ela ficou quase um ano sem falar comigo por conta daquela minha estupidez, ou intemperança, ou agressividade, ou falta de compreensão, ou desrespeito, ou intolerância, ou, quem sabe, zelo, que podia ser também.
Pois bem! Ao longo da vida eu entendi que, paradoxalmente, gostamos de corrigir o português do outro, mas ficamos furiosos quando nos surpreendem numa derrapada.
Justificamo-nos prontamente com “português é uma língua difícil”, ou com “uma língua que vivem mudando a gramática”. E agora, se nos flagram na escrita descuidada, creditamos a inadequação ao “teclado inteligente” que sempre nos “apronta” como me disse Jedson.
Educação entre nós sempre foi coisa da classe abastada. Saber o português é ser identificado como integrante da classe abastada. Por isso, analfabeto é desaforo. Insolência porque nos identifica com o segmento mais pobre da sociedade.
Zezé de Camargo, com o dinheiro que amealhou, ganhou sabedoria e conhece história como uma autoridade. Como Zezé de Camargo, meus amigos abastados são peritos no domínio da língua, mesmo sem terem lido a gramática enfadonha.
Supremo desaforo é ter o filho na mesma escola do filho do faxineiro da minha loja.
O domínio da língua está restrito à fatia mais abastada. Aliás, o saber.  
E só.
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