domingo, 29 de outubro de 2017

O Público e o Privado




         
     Dario Franco


Em todas as civilizações encontram-se espaços públicos sacralizados.
Espaços onde nem a descontração é permitida, ou aceita ou desculpada.
Uma sala de audiências públicas é um desses.
O respeito, por exemplo, a cadeira ou ao trono, no passado, restaram intactos até os nossos dias. Quem ousaria, ainda hoje, aboletar-se na cadeira reservada ao presidente de uma casa legislativa, ou destinada ao prefeito da cidade? Quem ousaria pôr os pés sobre as mesas que maturam as leis da cidade?
Aqueles espaços são sagrados, merecem o respeito de todos e ponto final.
E foi sobre o respeito aos espaços públicos que começamos a debater na semana passada.
Não sobre caráter, não sobre promoção midiática, não sobre a desonra alheia. Não sobre amizades. Não sobre honra de família. Insistir nessa escamoteação é querer encobrir o que é grave. É desviar o foco da questão.
Discutimos sobre se pôr os pés sobre a mesa do plenário da Câmara dos Vereadores ou usar aquele espaço para a descontração e a brincadeira entre amigos é decoroso. Discutimos o que é espaço público e espaço privado.
Não sei quem teve a iniciativa de pôr o nome de Waldemar Câmara de Góes na Câmara de Vereadores de Baía Formosa-RN, mas preciso registrar que considero uma iniciativa de extraordinária felicidade.
A vida me deu a feliz oportunidade de conhecer e de conviver com Solis. Era assim que o chamávamos. E ressalto aqui uma qualidade dele que distingue os homens que enxergam agudamente o futuro, e nos coloca no trilho dessa busca saudável: o respeito às instituições públicas. Solis sabia distinguir, como ninguém, a esfera pública da esfera privada. Foi ele que me fez ver essa distinção sacrossanta. Ele nos dizia com frequência: nós todos passamos, mas nossas instituições permanecerão se soubermos respeitá-las. Caçoar delas é desonrar a nossa gente, e manchar a nossa história.
Muito obrigado, Solis.
Faço minha homenagem a sabedoria de Waldemar Câmara de Góes e me curvo diante dela como o menor cidadão de Baía Formosa.
Rogo, finalmente, a todos os meus concidadãos que honrem a Casa Legislativa que tem o nome de Waldemar Câmara de Góes. Que não sejam solidários ao desrespeito àquele ambiente público.
Baía Formosa, 22/10/2017.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Sob o signo do medo



Dario Franco


O ano era 1968. Num dia de Outubro, num final de tarde, eu recebi em minha casa, na Rua da Cacimba, o emissário Janir Freire que me trazia um recado do latifundiário prefeito Frederico Melo, filiado à Arena, para que eu fosse encontra-lo na casa de Zé Tatai. Zé Tatai era pai do Janir Freire.
Só agora me advirto que das janelas entreabertas, sob os telhados dos alpendres que sombreavam os rostos assustados, desde a casa de Veia de Doninha até a de Carrate e a de Joaquim Santana, me chegava a solidariedade interditada pela opressão do senhor do latifúndio. 


Não cheguei a entrar na casa do pombeiro. Um táxi com as portas abertas, onde já estavam o motorista e o contador da Prefeitura, me recebeu e rumou para a estrada. Eu me sentei atrás, ao lado do prefeito que, com a camisa aberta, exibia um revólver na cintura.
Seguimos em silêncio até que num determinado trecho da estrada de barro, antes de chegar ao pátio da fazenda Estrela, o latifundiário Frederico Melo mandou parar o táxi e desceu. Entendi que era para eu desembarcar também.
Os gritos, as intimidações e as ameaças começaram de imediato. Ele reclamava da eleição do vereador do PMDB Odonilson Santana Duarte para a presidência da Cooperativa de Pescadores recém-fundada.
Devo ao saudoso Manoel Belchior a minha vida. Pois, inesperadamente ele saiu do meio da mata, onde tinha ido tratar o seu roçado, encarou altivamente o latifundiário Frederico Melo e o advertiu sobre o que ele estava fazendo.
37 anos depois, quando a Câmara de Vereadores de Baía Formosa me concedeu, em 1995, o título de Cidadão de Baía Formosa, pedi ao vereador José Carlos, autor do projeto de concessão daquele título, que me desse a oportunidade de receber tão grande honraria das mãos de Séo Manoel Belchior, a quem eu considerava meu segundo pai.
Fui atendido.

Baía Formosa, 27 de Outubro de 2017.




terça-feira, 17 de outubro de 2017

Cadê a oposição?



                                                       Dario Franco


290 dias depois da posse da nova administração na Prefeitura Municipal de Baía Formosa, o município ainda continua sem oposição.
E precisa?
Sim! Precisa!
Ser oposição é uma atribuição e uma responsabilidade políticas.
E se é uma responsabilidade, e não está sendo exercida, a oposição está sendo omissa. E a prevaricação é tão condenável quanto a falta de moralidade pública.
O PMDB e o PDT, cada um com seus partidos coligados, disputaram e perderam a eleição para o comando do Executivo Municipal. Venceram o PSD e os coligados.
O PMDB, o segundo partido mais votado, ganhou, por isso mesmo, a liderança da oposição.
Está o PMDB liderando a oposição?
É preciso dizer que uma oposição não torce para que a administração, que ganhou o voto da maioria dos eleitores, não dê certo.
Pelo contrário, a oposição tem a responsabilidade de apontar os desacertos que prejudicam a administração pública, vigiar a moralidade pública e até de propor programas para que o Município se desenvolva para o bem de todos.
Oposição não se confunde com torcida. Torcida é para o futebol, não para a política.
E há quem confunda uma coisa com a outra?
Há sim.
Tenho acompanhado, pelo Facebook, o que a população tem denunciado. Muito recentemente, por exemplo, para não me estender, uma página pôs em debate – e eu debati também –  a improbidade da gestão atual no que tange à autorização de construção de uma barraca particular em área de domínio público. O caso Herói, como ficou conhecido.
Como se comportaram os partidos de oposição e como reagiram os vereadores que integram a oposição na Câmara de Vereadores de Baía Formosa RN?
Terá sido somente nesse caso que o princípio da impessoalidade da administração pública Municipal – vide Art. 37 da Constituição – foi violado nesta administração?
 Parece-me, salvo melhor juízo, que não.
Os prédios públicos, por exemplo, estão pintados com as cores do PSD 55.
Entretanto, até a data de hoje, 17/10/2017, nenhuma ação contra esse tipo de transgressão, ou contra qualquer outra, foi ajuizada junto ao Ministério Público, nem pelo PMDB, nem pelo PDT e nem pelo PPS como tentaram ardilosamente me fazer crer.
Não é a Justiça que é lenta, somos nós que nos negamos à responsabilidade de uma oposição necessária, justa e benfazeja para o Município.


Baía Formosa RN 17/10/2017.